sexta-feira, 11 de maio de 2018

"Lulu", a raposa


La Fontaine por certo não teria desdenhado juntar às suas fábulas a estória da raposinha que vem todos os dias – e à hora certa, mais minuto menos minuto! – “jantar” ao restaurante “Vale dos Amores”, perto de Fiais, na freguesia de Ervedal da Beira. Se os “animais falassem”, seria curioso conhecer de “viva voz” o que vai na cabeça da raposinha para se entregar de “corpo e alma” à gentileza da sua presença, que já se tornou um hábito. O proprietário do restaurante, Humberto Cerejeira, conta como tudo começou:
-“ Eu e a minha mulher, há uns quatro meses, começámos a notar que o saco do lixo aparecia rasgado. Pensávamos que era obra de algum cão que andasse por aí, de noite, mas um dia a minha esposa viu a raposa perto daqui e não fez nada para a assustar; então, o animal foi aparecendo, dávamos restos de carne, e ela acostumou-se a nós”.
O Humberto, carinhosamente, batizou-a de “Lulu”. No dia em que a reportagem do “Correio da Beira Serra” se deslocou ao Vale dos Amores, já a tarde caminhava para a noite, o restaurante tinha a esplanada bem composta de clientes, alguns deles, conhecedores da notícia, eram repetentes. A primeira surtida da raposinha tinha acontecido minutos antes, mas ficou a promessa do Humberto que “… não tarda por aí, é uma questão de esperarem um pouco mais, porque ela pega no pedaço de carne e vai, possivelmente, esconder, nunca come perto de nós…”.
A “Lulu” não tardou, os clientes mais atentos viram-na chegar; fez uma pausa a uns metros de distância, e como ninguém lhe fez negaças, aproximou-se devagar, orelhas levantadas e o olhar atento ao mais pequeno movimento.
-“Lulu”, toma – diz o Humberto – e o animal, sem pressas, aproximou-se por entre as mesas, abocanhou o seu quinhão de carne, e voltou, nas calmas, pelo mesmo caminho. A cena repetiu-se várias vezes, mesmo quando a ração era entregue por uma criança. Por vezes ficava parada perto da esplanada, como se esperasse que o “padrinho” a “convidasse” a entrar – só ele e a mais ninguém a raposinha “respondia”.
Numa floreira alta que fica perto, o Humberto escondeu um pedaço de carne; ela aproximou-se, um pequeno salto, farejou e… levou o “petisco”!
-"Não pensem que a “Lulu” come de tudo, tem o gosto refinado - comenta o Humberto - pão, só se tiver manteiga, não gosta de sardinhas assadas, prefere carne, mas do que ela gosta mais é de camarão”!
O animal é, como se calcula, uma atração no restaurante. Como mais vale prevenir do que remediar, foi desparasitada e já “…falei com o médico veterinário para ver se a conseguimos vacinar e colocar-lhe uma coleira”, acrescentou o Humberto que, a talhe de foice, sempre vai passando palavra aos vizinhos – não vá alguém ter a infeliz ideia de fazer uma espera à “Lulu, de caçadeira na mão…
(...) O “padrinho” tornou-se responsável por ela, cativou-a, como na estória do “Principezinho”, de Saint-Exupéry.
-“ Lulu, toma”!
-
Publicado  no "Correio da Beira Serra" no dia 5 de agosto de 2008, incluindo  a foto


terça-feira, 8 de maio de 2018

“Primatono”, ou “Ouprima" ?


Não é nada disto que se espera da primavera:
- à noite, uma espécie de cacimbo africano;
- de manhã, neblina – densa, que só visto;
- o  dia cinzentão, frio.
Não fora  o mês, maio, e diria que  estávamos no outono, outubro, talvez.
Pensando bem, a “coisa” não é, como dizer… assim tão  ruim:   hoje, tenho o melhor  de dois  mundos, os meus:  gosto da primavera pelo  colorido da natureza, e do outono pela ausência do calor em excesso. O tempo de agora bem pode  ficar conhecido  como “primatono”, ou “ouprima”, para quem é de inventar  palavras de sorrir antes e depois do batismo.
A língua portuguesa   não está cheia, como um ovo, de  dúvidas etimológicas ? Portanto…
No último domingo, dia 6, aqui para as minhas bandas, o calor foi de verão. Por voltas das quatro da tarde,  a “primavera”  estava de regresso a casa quando… “ai, que vem chuva!”  -  por sorte, logo ali,  adormecido, o guarda chuva   fez “pst, pst…”, anunciou-se,   e eu, numa pressa,  gentil, usei-o. Com a mão direita, depois de aberto,  ergui-o acima das nossas cabeças, e a mão esquerda acompanhou o braço com que a aconcheguei (a “primavera”) – não fosse ela constipar-se com a forte bátega que, entretanto,  caiu das nuvens.
Ainda lhe disse : “… parece que estamos em África”!
Não, não é nada disto que se espera da primavera…

segunda-feira, 7 de maio de 2018

... A linguagem das flores


As rosas, agora viçosas, logo murcham. Há dias assim, sem primavera a tempo inteiro, embora continue anunciada no calendário…
Antes que faleçam por si, “matei” uma num gesto egoísta, daqueles que não abonam as doces palavras com que enfeito o monólogo sobre o  pacífico convívio com a natureza. Se lhe quero tanto, às rosas, como posso ser cruel?
Apesar  desta falta de coerência, honrei-a com  um solitário de cristal.
A trepadeira que deu vida  à flor insiste em presentear-me com mais e mais botões  de cor grená - estou na dúvida se estes filhotes de roseira, ao sol, não brilham mais  do que as “rosas negras” que estão prestes  a nascer.
Diz quem  sabe:  esta roseira, única no meu canteiro, é uma dádiva dos deuses, por ser uma Black Baccara  (li no Google…). A ser verdade, esta bênção faz de mim pessoa de sorte, embora nada conste nas características dos “misteriosos” escorpianos … a não ser que seja (…) o símbolo de amor louco ou mesmo paixão fatal e, é por isso, que na linguagem das flores, a Black Baccara significa “o meu amor vai durar até à morte” ou “o meu amor por ti é profundo e eterno”.  li no Google, mas  está longe de mim votar a favor…
Ia de saída quando a memória  me disse que, além de um “crime”, cometi dois: ontem, domingo, colhi outra rosa cor de carmim, mas foi por uma boa causa - à troca, recebi um “amor-perfeito”.


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Seriam cinco da tarde…


Então, lá vai:
 - À "saúde" do 25 de Abril!
Ecorropichei   o que restava  na garrafa do Jack Daniel's,  coisa pouca,  diga-se de passagem,  e voltei  a prestar atenção às notícias.
Depois do almoço caseiro, o café e uma “sossega”, como se diz por aqui (que bem podia ter sido uma “medronheira” na vez do uísque americano - fica para depois do jantar, acompanhada de figos secos, uma  gulodice, eu sei…). Entretanto, o repórter “coscuvilhava” a vida das pessoas, que sorriam à pergunta sobre o “seu” 25 de Abril:
– …Então, e o senhor, onde estava ?
Há datas impossíveis de esquecer e  esta, seja qual  for  a circunstância em que foi vivida, para os cinquentões e outros mais  crescidos na idade… foi “ontem”! Se a pergunta fosse feita  a moi même,   tinha a resposta na ponta da língua:
 - Estava a conduzir o meu Ford Escort GT (que máquina!) no bairro da Sommerschield, a caminho  do  “estádio” do Benfica de Lourenço Marques, na Costa do Sol, e dava  boleia ao meu amigo Carlos, guarda redes  do clube.
A conversa entre os dois era ligeira, o Rádio Clube passava música.
Seriam  cinco da tarde….
- “Senhores ouvintes, na madrugada de hoje houve uma revolução em Lisboa (ou um “golpe de Estado”?), há tropas na rua e… “ – a informação foi longa.
Eu e o Carlos, atónitos, ficámos sem assunto. Comentámos a situação, de todo inesperada, e tenho ideia de ter dito  “….que devia ter sido antes, já não tinha corrido “seca e meca” durante quatro anos...", feito militar, do sul ao norte de Moçambique.
… Felizmente nunca usei nenhum tipo de arma, a  não ser a caneta, a máquina de escrever e a Gestetner, máquina duplicadora milagreira na edição dos jornais do BC 20, em Vila Cabral, e do  BC 17, em Maxixe/Inhambane.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Ter ou não ter "garganta"


Não sou nada, mesmo nada, apoiante de Bruno de Carvalho, o sportinguista presidente do clube dos leões, mas reconheço que alguns dos seus "desabafos" aplicam-se com precisão a certos lideres e definem outras tantas posturas no que à dinâmica das ideias e posterior execução diz respeito. Com a devida vénia, faço cópia do título de uma peça de jornal:

“Garganta temos muitos, fazer é que está quieto”
(Tribuna Expresso -17.04.18)

terça-feira, 17 de abril de 2018

Chegou a primavera - e as andorinhas?


Todos os anos, por esta altura, o palacete cor-de-rosa era o porto de abrigo das andorinhas. Depois de longa viagem, os seus chilreios faziam-nos companhia até ao outono  - alegravam-nos, e eu, pessoa de hábitos, era por elas que sabia da primavera.
A primavera, é sabido, viaja nas asas das andorinhas…
Este ano, nem um pio: das andorinhas, nem sinal. Ficam por aí à solta milhões de mosquitos …
Os pesticidas são a causa maior desta ausência, penso - não vislumbro outra. A não ser que elas, as andorinhas, não gostem de casas vazias e abandonadas, ou do meu sítio, das pessoas, sei lá!
Possivelmente, atrasaram -se...
 … ou perderam  a bússola e foram passar o verão a outras bandas.

A "voz" da cerejeira


Tenho uma varanda panorâmica com vista para o Mont’Alto, o Santuário.
Se o zoom  da minha TZ70 estiver focado com o rigor da Panasonic, consigo ter perante os meus olhos pormenores do local, impossíveis de obter  sem  esta tecnologia;  a distância, em linha reta, que me separa do Santuário deve rondar  10kms bem medidos…
A olho nu, contemplo a paisagem, linda de ver em manhãs como a de hoje, serena e brilhante, sol a rodos - a primavera a mostrar-se eloquente no colorido com que “apaga”  as memórias do terror de 15 de outubro passado.
O silêncio é  total, incluindo o do vento - nem um  ligeiro sopro. A manhã, esta manhã, para ser perfeita, deveria trazer consigo o chilreio dos pássaros de arribação, como os pintassilgos coloridos e  canto  sublime.
...apesar da ausência dos pintassilgos e das andorinhas, sempre é primavera - é a minha cerejeira que o diz!

quinta-feira, 12 de abril de 2018

À lareira...


Não é do meu agrado este começo primaveril, com vento e chuva, algum frio e muita impaciência à lareira, onde fiz fogo quanto baste para aquecer o serão. Arde lenha de uma oliveira, que foi majestosa durante mais de um século. O incêndio de outubro reduziu-a a quase nada no tamanho do meu abraço, insuficiente para a envolver, quando viva -  quatro braços à sua volta faziam roda perfeita…
Com o tempo meio chocho, quem é de ausências feito nos cómodos de casa grande, entristece.
Entristecido, mergulho nas memórias acumuladas. Se as guardo, como coisas “vivas, e agora me cruzo com elas ao remexer arquivos, apontamentos, notas soltas, recortes de jornais e outras papeladas, é sinal de importância, tenham ou não viajado desde Moçambique até aos dias de hoje, ou mais recentes, depois do retorno à Pátria; importa, isso sim, o conforto de as ter presentes, entre mãos, depois de  longa viagem, por mais acidentada que tenha sido. Agora, “conversamos” em silêncio…

quarta-feira, 4 de abril de 2018

"Ópera" em Turim


Depois da "bicicleta",
acrobática,
termina o jogo;
se não terminou, devia ter terminado...
*
( Se eu  estivesse no estádio, tinha recriado o hábito de  certa figura de cavalheiro: sempre que "ia à ópera", via , ouvia, e  no tempo que  entendia por bem, depois de uma ária, por exemplo, aplaudia e abandonava  a sala - dizia que "estava com a alma cheia de tanta beleza"; depois  daquele momento, o espetáculo "tinha terminado"...)