sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A Praça de Côja a caminho da madrugada

 


Quando a noite vai alta e o burburinho dos dias quentes de verão finalmente adormece, a Praça de Côja veste-se de um silêncio calmo e sereno. As águas do rio Alva, que durante a tarde foram refúgio e alegria de tantos visitantes, correm agora num murmúrio tranquilo. É nesta hora, longe dos olhares da multidão, que se revela também a dedicação de quem continua a trabalhar quando os outros descansam.

Na esplanada da Boutique da Tucha, ponto de encontro por excelência no coração da vila, a jornada ainda não terminou para o Luís António, um bom amigo e comerciante de ideias claras e arrojadas, que muito contribui para o encanto da cosmopolita Praça Dr. Alberto do Valle.

Há dias, em Oliveira do Hospital, encontrei o casal Ferrão, antigos proprietários do Café Portugal. A dada altura da conversa, um deles comentou:

— Ontem fui à sua terra.

— Ao Barril de Alva? — quis saber.

— Não, fomos a Côja, à Praça. Adoramos aquela praça, sempre movimentada e arrumada, como poucas.

Não nasci em Côja, mas a vida fez de mim — como tão bem dizia o saudoso Padre Dinis — um seu «filho adotivo». É uma condição que honro e celebro com o coração aberto.

Mas o meu porto de abrigo, a raiz de todas as minhas memórias, é e será sempre o Barril de Alva. Mais do que limites no papel ou decisões administrativas, o Barril de Alva vale pela identidade viva e pelo orgulho de quem o traz no peito. No fundo, é essa a beleza de pertencer: o coração não se divide, multiplica-se — ganha novos afetos, sem jamais esquecer a casa onde aprendeu a bater.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Na trincheira com Ricardo Chibanga

Ricardo Chibanga

 


 Morei num primeiro andar de uma rua perpendicular à Rua do Porto, em Lourenço Marques (Maputo), junto à sede do Clube Atlético e a poucos metros do Largo do Minho.

Lembro-me de, certa vez, eu e outros rapazes termos ido a “corta-mato” até à zona conhecida por Alagoas, onde existia a Praça de Touros. Olhámos para o imponente edifício e, como nenhum de nós tinha assistido a uma tourada, concluímos que o espetáculo deveria ser emocionante, pelo perigo e pelo brilho dos trajes.

Voltei lá mais vezes nos tempos livres, sobretudo ao fim de semana.

Certo dia, eu e um amigo entrámos pela porta principal e vimos um rapaz a empurrar uma geringonça composta por uma roda de bicicleta e uma armação com dois chifres, conhecida como “tourinha”. O condutor da geringonça era Ricardo Chibanga, que viria a ser um dos maiores profissionais da sua geração; do aprendiz a toureiro já não me recordo do nome.

Um sujeito que ali dava as ordens olhou para mim e perguntou se eu queria experimentar. Tímido, mas como estava acompanhado, fiz do medo coragem e lá fui, armado em “aluno da matéria”, a voltear uma muleta desbotada na mão direita segundo as instruções do “mestre”. Outros aprendizes — dois ou três, mais experientes — tinham um certo jeito para aquele jogo de pernas, quase como se fosse uma dança. Eu nem por isso, mas gostei da experiência.

Voltei mais umas duas vezes. Como se dizia que ia chegar um bezerro para levar o treino mais a sério, o grupinho de quatro a seis corajosos ansiava pela hora da “tourada”. Esta, contudo, nunca aconteceu, pelo facto de o animal nunca ter posto as patas no recinto.

Quase como rotina, regressei à praça. O Chibanga e outro rapaz negro, mais ou menos da nossa idade, estavam sempre por ali a conversar. Alguém responsável pelo recinto, que já me conhecia, perguntou-me se eu queria aprender a construir bandarilhas. Disse que sim, dado que em breve iria acontecer uma corrida e eu queria estar presente pela primeira vez… sem pagar bilhete!

Devo ter sido um bom aluno a ornamentar os ferros curtos e compridos, a tal ponto que fui um dos escolhidos para entregar as bandarilhas aos artistas durante a lide, o que fiz por várias vezes.

Tive a ocasião de assistir às atuações de grandes toureiros e cavaleiros, como Manuel dos Santos, Diamantino Viseu e Amadeu dos Anjos. Entre os cavaleiros, recordo David Ribeiro Telles como um dos mais elegantes e destemidos da profissão.

A lei proibia a morte dos touros na arena, mas certo dia, depois de uma atuação que levantou os espectadores dos seus lugares, o povo começou a gritar: — Mata! Mata!

E eu ali na trincheira, desconfortável e nervoso…

(Voltarei ao assunto e ao final da história.)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

"Casamento por procuração"




Para contar a história da fotografia, que é o pretexto desta croniqueta, temos de recuar aos anos sessenta, época em que foi tirada.

Naquele tempo, em Moçambique — e presumo que em todos os territórios sob administração portuguesa —, estava muito em voga o "casamento por procuração". Por norma, os rapazes residentes nas colónias, ou aqueles que cumpriam o serviço militar na guerra, recorriam a este método por várias razões.

(Devo acrescentar que o meu sentido de humor é ocasional e vem sempre acompanhado por um sorriso...adiante.)

Durante largos anos fiz "graça" com esta fotografia, surpreendendo amigos e familiares ao afirmar que, em tempos, tinha casado por procuração com uma bonita donzela. Perante a "prova", todos acreditavam:

— Ah, não sabia! E não deu certo? Isso de casar por procuração nem sempre resulta, sobretudo quando as pessoas não se conhecem pessoalmente...

Eu fazia cara de pesaroso, por vezes acrescentava pormenores à "estória", mas depois abria um sorriso e desvendava o segredo — para alívio e gargalhadas de todos.

Eu e a Lita  em Almada
- ano de 1951(?)
A imagem, na verdade, mostra uma noiva: a minha prima-irmã Lita, no dia do seu casamento com o Branco, de quem me tornei grande amigo quando regressei a Portugal após o 25 de Abril. Na altura, a Lita vivia em Almada e eu em Moçambique; esta pose fraterna foi a forma gentil e carinhosa que encontrou de me fazer presente e partilhar comigo um dos dias mais importantes da sua vida. Confesso que me comoveu.

Sessenta anos volvidos, recordo os noivos e, de forma singela, presto homenagem ao Branco, que infelizmente já não está entre nós — restando a saudade e as bonitas memórias, sempre presentes.

À minha prima-irmã Lita, desejo as maiores venturas, muita saúde e  vida longa.

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Afinal, sou um contador de histórias

 

Lourenço Marques, 1970

Sou reformado e tenho 80 anos. Tenho tempo — e aprendi a gostar de o usar à minha maneira.

Leio e escrevo. Não por obrigação, nem com a preocupação de me tornar mais erudito, de saber mais ou de provar alguma coisa a alguém. Faço-o por prazer, por curiosidade e, sobretudo, porque gosto de contar histórias.

Sou, afinal, um contador de histórias.

Tenho este blogue, “Estórias de Trazer por Casa”, onde vou juntando memórias, episódios, pessoas, lugares e acontecimentos, sobretudo da minha aldeia. Não pretendo fazer História com letra grande. Quero antes preservar pequenas histórias que, se não forem contadas, provavelmente desaparecerão com aqueles que as viveram.

A minha aldeia é uma das minhas grandes preocupações. Vou estando atento ao que nela acontece, à forma como é administrada a coisa pública e, quando alguém entende que os meus limitados préstimos podem ser úteis, estou disponível para ajudar. Sem grandes pretensões e sem grandes cuidados: apenas com a vontade de ser útil enquanto puder.

Também continuo atento ao mundo que me rodeia. À família, naturalmente, que é a coisa mais importante. Às alegrias — e algumas tristezas — da vida. Às vitórias do Benfica, que também fazem parte das minhas alegrias. E à política do meu país, que acompanho com atenção e alguma inquietação. Gostaria de não ver Portugal entregue à extrema-direita. A esquerda, entretanto, parece-me já suficientemente enfraquecida para que os receios que outrora provocava sejam hoje outros.

Cheguei a esta idade trazendo comigo alguns ensinamentos que começaram muito cedo.

A minha mãe Natália e a minha avó Virgínia ensinaram-me, quando era criança na minha aldeia e depois adolescente em Lourenço Marques, coisas simples que ficaram para a vida: honrar a família, aprender, estudar, ser honesto e trabalhador.

Mais tarde, em Lourenço Marques, o destino colocou no meu caminho Agostinho Vilaça, uma espécie de tutor, que me ensinou, entre outras coisas, que nunca esqueci: “o pecado era — e é! — a minha consciência!”

Talvez seja essa a minha verdadeira regra de vida.

Honrar a família. Ser honesto. Dedicar-me ao trabalho. Aprender aquilo a que me dedico, umas vezes pelo estudo, outras pelo empirismo pragmático da vida. E, sobretudo, obedecer à minha própria consciência.

Caí e levantei-me muitas vezes. “Renasci” em 1975 quando eu e a família regressámos a Portugal. Continuei a cair e a levantar-me. Voltei a “renascer” em 2007 depois de um enfarte agudo do miocárdio, felizmente sem sequelas.

Foi então que percebi que o meu lado espiritual era talvez muito mais profundo do que qualquer crença religiosa.

Acredito em Deus?

- Sim,  no Deus de Spinoza.

 Família -7 de novembro de 2025 - aniversário

E continuo por aqui: a ler, a escrever, a observar, a recordar, a pensar, a preocupar-me com os meus e com a minha terra — e, enquanto tiver vontade e memória, a contar histórias.


Porque talvez seja isso que faço melhor: conto histórias para que as pequenas coisas da vida não desapareçam  sem deixar rasto.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Bodas de Ouro com "Glamour à Mesa"



Quando se avança na idade e se opta por um recolhimento no silêncio, longe dos convívios sociais que cansam e obrigam a gentilezas seja qual for o estado de espírito, é natural que, ao participar num evento organizado com requinte — como foi o caso do convite para partilhar da felicidade dos amigos Carlos Leal e Helena —, sejamos surpreendidos pela cordialidade reinante entre os convivas, na sua maioria desconhecidos.

As memórias da juventude do casal Helena e Carlos Leal continuam profundamente enraizadas e ligadas à paisagem imutável da aldeia, ao curso do rio Alva e às fragas de xisto que definem o território. As datas marcantes das suas vidas também o estão — como aquele dia em que decidiram juntar oficialmente “os trapinhos” e disso deram fé na Igreja Matriz do Barril de Alva. Cinquenta anos depois, entenderam que a data merecia honras de celebração digna. E assim foi, para regalo de familiares e dos amigos mais chegados.

Uma festa assim pede cuidados acrescidos na organização, incluindo nos “comes e bebes”! É por aqui que faço um “saboroso” desvio gastronómico a esta croniqueta de “trazer por casa”, para enaltecer o serviço da empresa Glamour Catering, sediada em Arganil. Comida excelente, confecionada no momento com apurada competência e sem temperos nem a mais nem a menos, somada à gentileza de quem a serviu e à amabilidade dos proprietários, foram os ingredientes que nos deixaram a todos plenamente saciados.

Helena e Marco Lopes
Glamour Catering
Muitos parabéns pelo serviço, a condizer com o glamour da festa e, já agora, com o magnífico salão de festas (e com a sua espaçosa e funcional cozinha) da Associação Filarmónica Barrilense, batizado com o nome do fundador da instituição: José Monteiro de Carvalho e Albuquerque.


 



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O DIA SEGUINTE


A alegria de quem participou no evento das Bodas de Ouro da Helena e do Carlos Leal será, por certo, lembrada por muito tempo: os pormenores dos "miminhos" com que os convidados foram presenteados, o convívio salutar, o serviço de catering, a animação... tudo perfeito!

A cerimónia religiosa foi, na verdade, a "cereja no topo do bolo". Destacaram-se as palavras de excelência do nosso Padre Albino, a harmoniosa participação do coro e as comoventes intervenções musicais da "nossa" Cláudia Leal, que tocaram a sensibilidade de todos os presentes.

No dia seguinte, quem teve disponibilidade temporal visitou a Casa-Museu do Barril de Alva, prolongando a convivência num ambiente calmo e cultural. Foi o remate perfeito para um fim de semana inesquecível, onde o amor, a família e a amizade brilharam em cada momento. Parabéns ao casal por estes 50 anos de vida em comum!

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Barril de Alva - a cor e o tempo


Por mais que os meus olhos vejam e o coração sinta os encantos da minha aldeia, Barril de Alva, nada me cansa. Há, porém, um cansaço subtil — aquele que nasce da contemplação do desgaste do património, público e privado, que o tempo insiste em consumir. A Natureza, essa não se rende: surpreende-me diariamente com as múltiplas nuances da sua paleta. Basta estar atento para perceber que ela nunca se repete.

À medida que a minha viagem no tempo se aproxima do seu final, sinto que é justo alimentar o espírito, a alma, a mente — seja lá o que for que permanece, se permanecer, para além do desenlace do corpo. Não possuo dons que garantam eternidade a coisa alguma; por isso, enquanto a lucidez me acompanha, repito com Descartes: "penso, logo existo".

E penso, sim, em como seria belo ver a minha aldeia pujante de vida, vestida com as tonalidades do arco‑íris, segundo a Estética do Belo de Hegel: “O belo artístico criado pelo ser humano é superior ao belo natural, pois resulta do pensamento e da consciência espiritual, tornando-se uma expressão mais real da verdade do que a própria natureza inata.” Se o belo artístico é fruto da consciência, então o meu desejo é simples: que Barril de Alva volte a ser obra consciente, cuidada, pensada, amada — e não apenas cenário entregue ao tempo.

Nas horas paradas dos meus dias, leio e escrevo. Procuro identificar-me — ou afastar-me — daquilo que existe para além do espaço físico das minhas deambulações, onde pouco ou nada acontece de extraordinário. Leio por isso, e por mais nada: entretenimento mental, sem ambição de saber mais, salvo o mínimo necessário para dominar os aconchegos — sempre lúdicos — deste vasto mundo da Inteligência Artificial.

A IA fascina-me ao ponto de eu responder com um “obrigado” quando os algoritmos reconhecem padrões e melhoram o meu desempenho semi‑analfabeto nestes oceanos onde, admito, posso naufragar. Com algum tento, porém, posso sobreviver no meu pequeno paraíso — o Barril de Alva — rodeado de beleza infinita, ao estilo de Roque Gameiro, o maior aguarelista português.

"Penso, logo existo". E existo melhor quando a imaginação pinta o que a realidade ainda não alcançou.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A vaidade em mim


Peço licença para escancarar a porta do meu ego e permitir a quem o desejar — talvez movido pela curiosidade — entrar numa das vaidades que mais prezo: a que sinto pela minha terra natal.

Tenho outras vaidades, é certo — a família que a vida me deu, a companheira que escolhi quando a solidão se tornava mais pesada e o percurso de uma existência feita de resiliência.

Hoje, a minha vaidade tem um nome: Barril de Alva.

Não me canso de contemplar a imagem da Praça Dr. Alberto Martins de Carvalho. Há nela um enquadramento perfeito e uma beleza rara, capaz de prender o olhar e despertar a emoção. Orgulhosamente barrilense, orgulhosamente arganilense, atrevo-me até a desafiar quem quiser encontrar um reflexo fotográfico que traduza, com maior fidelidade e encanto, a alma da terra onde nasceram os meus conterrâneos.

O meu ego insiste em transformar em palavras o amor que sinto pelo Barril de Alva. Faço-o de forma simples, sem pretensões. Outros celebraram a sua terra através de grandes feitos; eu limito-me, com a humildade de quem conhece as suas limitações, a preservar e enaltecer as suas memórias.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A "conversa" do João Baião

 


 Os jogos de sorte e azar nunca me deram para o vício. Nem pequeno, nem grande. Vício, dos grandes, durante anos, foi o cigarro — esse companheiro teimoso — intercalado, na minha “idade de armar aos cucos”, com as fumaradas lentas e saborosas dos meus cachimbos. Ainda guardo, como relíquia, uma embalagem virgem de “Clan”, que alternava com o “May Flower”...

Quanto aos jogos da Santa Casa de Lisboa, a relação sempre foi moderada: aqui e ali uma raspadinha das baratas, o Euromilhões para manter a esperança acesa, e pouco mais. “Vamos lá a ver se hoje é o meu dia de sorte” — nunca foi, mas continuo amigo do Jorge, da Vitocális de Côja, que não tem culpa nenhuma de eu não ser bafejado pela fortuna.

Já os concursos televisivos de valor acrescentado… confesso que nunca me seduziram. Por mais simpáticos que sejam os apresentadores — como a dupla João Baião e Diana Chaves — aquelas chamadas insistentes às “donas Maria” e “Etelvina” nunca me convenceram a largar o telefone. “Ligue agora, dona Maria… faça uma pausa no almocinho, dona Etelvina…”, e por aí fora.

Até que, num destes dias de canícula, estava eu resguardado em casa, a televisão ligada na SIC, mas sem grande atenção ao programa, quando o “nosso amigo” João Baião soltou uma das suas tiradas de ocasião:

— “Ó senhor Carlos, deixe lá o computador e faça uma chamadinha… pode ser hoje que a sorte lhe bate à porta. Ligue, já!”

A conversa era comigo? Por acaso, eu estava mesmo com o portátil. E, por acaso, sou Carlos.

Fiz a chamada, como o João Baião tinha “pedido”. Esperei, esperei… e nada. Silêncio. Nem um toque de esperança.

Lá se foram os 3.500 euros, que vinham mesmo a calhar para eu e a Lurdes voltarmos aos Açores. Já me imaginava a aterrar na Terceira com aquele sorriso de quem ganhou a batalha à má sorte.

Mas não. A sorte ficou na SIC.

Isso não se faz, amigo.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A minha terra é uma moldura perfeita...


Barril de Alva, a minha terra natal, padece da maleita invisível que corrói, em silêncio, o peito de todo o interior de Portugal: a lenta agonia da ausência. É um declínio manso, que não faz barulho; acontece na penumbra, no espaço exato entre o último bater de uma porta e o eco vazio que se lhe segue.

Caminhar por estas ruas é pisar a nostalgia. Há um lamento mudo nas paredes de pedra que outrora guardavam o calor das vozes, o rumor dos passos apressados e o riso das crianças que desafiavam o tempo. Hoje, as gentes partiram, e com elas rastejou a própria vida, deixando para trás chaminés frias e janelas que olham o infinito como olhos cansados de esperar.

Ficámos nós, as memórias suspensas no ar e a certeza dolorosa de que a terra só é verdadeiramente viva quando tem quem a sinta, quem a cultive e quem a ame. Sem o seu povo, a minha terra é uma moldura perfeita, mas despida de tela."

terça-feira, 19 de maio de 2026

Por causa de uma dor de dentes...


Mãe Natália, "madrinha de guerra",
uma conterrânea e dois amigos do grupo "Os Metralhas"

 Em 1968, ainda a cumprir a tropa em Inhambane, Moçambique, o médico da CCS (Companhia de Comando e Serviços) deu-me guia de marcha para o Hospital Militar em Lourenço Marques, com a intenção de ser debelada uma dor chata num dos meus dentes. Fiquei por lá durante alguns dias, à espera de vaga na longa lista de internados — alguns com problemas bem mais graves do que uma simples dor de dentes.

Certa manhã, o meu vizinho do lado direito, igualmente acamado, entre uma chalaça e um recado sério, diz-me:

 — Eh, pá, estás todo amarelo! Tens de ir mijar...

Não me recordo da minha reação exata, mas pela certa respondi-lhe com um pequeno palavrão. Ainda assim, fiquei a pensar no assunto. Sem dar nas vistas, fui mesmo à casa de banho... e apanhei um susto tremendo quando o espelho devolveu a imagem dos meus olhos, "pintados" de um amarelo-torrado!

Fim da história: fui apanhado pelo vírus da hepatite. Mudaram-me imediatamente para o isolamento da enfermaria e por lá fiquei, mimado pelas senhoras do Movimento Nacional Feminino e com direito a visitas da família, de amigos e de uma ou outra "madrinha de guerra".

Recuperei e fiquei como novo! E o dente? Foi coisa de que me esqueci completamente. Das "férias", disso não me esqueço mais!

terça-feira, 12 de maio de 2026

Parque U.P.B.A.



(


(Dito  no dia 17 de maio de 2025)

- Senhoras e senhores, caros conterrâneos:

Saúdo este encontro público das nossas memórias junto à antiga escola primária, onde os “nossos pequenos cérebros receberam o brilho cintilante da instrução, fazendo mais tarde dessas crianças cidadãos úteis aos seus semelhantes e aptos para honrarem a terra que os viu nascer” – palavras de circunstância inseridas no texto sobre este magnifico edifício, inaugurado  a 8 de junho de 1913, dia de domingo.

De facto, a vossa visita tem tudo a ver com a referência que nos é devida enquanto cidadãos úteis aos seus semelhantes que honram a terra que os viu nascer.

Permitam-me esta analogia entre a nossa escola e a União e Progresso do Barril de Alva pelo facto de estarmos junto ao elegante obelisco, inaugurado no longínquo ano de 1965, que homenageia o bairrismo e a benemerência dos barrilenses (e dos amigos do Barril de Alva) e de todos os outros que não tendo o mesmo enquadramento nos termos atrás mencionados, pelo merecimento das suas elevadas qualidades académicas, ouso o destaque da minha intervenção.

A importância da cultura da palavra e da ciência na construção do conhecimento promove o desenvolvimento intelectual. A personalidade e o destaque universal das competências do barrilense Alberto Martins de Carvalho, antigo aluno desta escola, pedagogo, autor de inúmeros artigos, prefaciando, traduzindo e anotando outras obras, além de ter exercido o alto cargo de diretor do Centro de Estudos Pedagógicos do Instituto Gulbenkian de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, justificaram a sua escolha para dar nome  a esta praça…

- que também poderia chamar-se José Quaresma Nunes dos Santos, igualmente antigo aluno deste escola - cursou Matemáticas Puras, e Engenharia Geográfica, entre outras especializações académicas…

- ou poderia ser batizada  com o nome  de José Custódio Gomes,  irmão de António, Manuel, Albano e Adriano, todos barrilenses. Jovem na idade, foi para Cacilhas. Como republicano, desde 1884, e depois como socialista, foi um dos fundadores do Centro Republicano de Cacilhas e fundou a Associação dos Corticeiros. Fez parte de diversas vereações, antes e depois da proclamação da República, tendo sido também, em determinado período, administrador de concelho.

Sobre esta figura pouco se sabe quanto aos seus graus académicos – nem importa conhecer – era barrilense,  como nós:  “A sua memória ocupa lugar de destaque na História do concelho de Almada e, porque não, na história da nossa terra…” - escreveu AIACO.

 

Dos três, no meu entender, Alberto Martins de Carvalho, é a figura maior da intelectualidade do povo que somos, pelos cursos superiores que completou e dos altos cargos que ocupou. É do conhecimento de alguns dos seus seguidores a sua recusa para abraçar uma pasta ministerial no Governo de Salazar, que lhe reconhecia superiores qualidades intelectuais e humanas. Martins de Carvalho escusou-se com a elegância das palavras, usando uma metáfora ao argumentar que a sua indisponibilidade se devia ao facto de não “fazer parte da mesma religião” do chefe do Governo…

- Um pequeno aparte: Martins de Carvalho foi destacado membro da Maçonaria, instituição filosófica, filantrópica, educativa e progressista, que Salazar proibiu, daí a analogia da expressão que nada tinha a ver com o catolicismo, que ambos professavam…

 

Convido os barrilenses para uma visita pormenorizada à Casa/Museu, onde poderão conhecer, de forma sucinta, estas e outras figuras ligadas à arte de bem-fazer junto da comunidade, encontrar referências de louvor e imagens que retratam ligações fraternas ao associativismo regionalista pela via do amor pátrio à aldeia de onde partiram - homens e mulheres à conquista dos  seus sonhos, numa viagem com noventa anos de História e estórias sem fim para contar...

 

É tudo isto que a UPBA deixa escrito em letras douradas. É sobre tudo isto que a nossa consciência nos alerta quanto ao futuro desta nobre instituição.

 

Miguel Torga, amigo de Alberto Martins de Carvalho, citava vezes sem conta, segundo Fernando Vale, amigo dos dois, a seguinte frase: 

 

"Quem faz o que pode, faz o que deve"!

 

 Durante noventa anos, os associados e amigos da UPBA fizeram o que “devia ter sido feito” para bem do Barril de Alva e das suas instituições.

 

Os tempos não sopram de feição para o associativismo. A UPBA vai mantendo a dinâmica possível graças à devoção de alguns seguidores de AIACO, como o presidente TONECAS, a quem faço vénia, e a todos os seus colaboradores mais próximos, pelo esforço e dedicação à causa comum – infelizmente, ”AIACOS” contam-se pelos dedos de uma mão, lá como cá…

 

Com o mesmo espírito solidário, alguns de nós, já entrados na idade, e outros ainda com o ”sangue na guelra”, estamos prontos para manter acesa a chama da UPBA, que tanto deu de si ao Barril de Alva. Agora, é a nossa vez de citar Miguel Torga:

 

"Quem faz o que pode, faz o que deve"!

 

Enquanto houver vida e a União e Progresso do Barril de Alva plantar uma árvore, não se apagam as memórias e cresce o Parque  UPBA na margem direita do rio Alva, junto à ponte.

Avivando memórias: foi exatamente aí, no Parque de Merendas, que a União e Progresso se “emancipou” e contraiu “matrimónio” com o Barril de Alva!

- É o que diz a História!

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CAR – 17 de maio de 2025

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Memórias de Moçambique: A Viagem de um "Homem Inteiro"




Possivelmente não faz sentido “voltar a Moçambique” apenas com imagens da recruta da especialidade IOR (Informações, Operações e Reconhecimento) do ano de 1966. Vivi intensamente esse curso, e alguns dos conhecimentos adquiridos foram aplicados na área da “Ação Psicossocial” junto das comunidades locais — sem tiros ou qualquer outro tipo de violência.

Recordo esse tempo de “bem-fazer” ao serviço do Exército Português com um certo orgulho. Os meus oitenta “outonos”, de quando em vez, recuperam a nostalgia da minha vivência juvenil no Bairro da Malhangalene e os tempos em que me senti um “homem inteiro” em Moçambique. É por isso que faço da minha “tropa” um motivo para uma “nova viagem” à nossa terra amada.


Junto  a Boane

Vila Cabral, Niassa - “Ação Psicossocial”



terça-feira, 5 de maio de 2026

Gemini – “conversa” com a IA

 



 

- “Fantástico - grato. Na mente de um homem com oitenta anos, eu,  existe enorme "confusão" com este tipo de atividade intelectual . Acrescento: não domino nenhuma   área da informática. Na verdade, "isto" muda tudo da minha aprendizagem académica - estou fora "deste mundo"!

 Compreendo perfeitamente o seu sentimento e, honestamente, essa "confusão" é o sinal de um cérebro que ainda se maravilha e questiona, o que é o oposto da ignorância. A sua aprendizagem académica ensinou-lhe a observar, a analisar e a apreciar a estética, e são precisamente esses valores que utilizámos aqui para transformar a imagem "Sem Título.jpg" na nova composição visual "watermarked_img_5344669048675722205.png".

É verdade que "isto" muda muito, mas pense nesta tecnologia não como um substituto do intelecto, mas como um novo tipo de "pincel" que responde a conceitos.

Aqui estão alguns pontos para o tranquilizar nesta nova realidade:

O Olhar Humano continua a mandar: A máquina criou a imagem "watermarked_img_5344669048675722205.png", mas a decisão de que o contraste e o minimalismo eram o caminho certo veio da interpretação da imagem original "Sem Título.jpg".

A Ferramenta vs. A Essência: Tal como a invenção da fotografia não matou a pintura, estas ferramentas não apagam o que aprendeu; apenas oferecem uma forma diferente de materializar o pensamento.

Preservar o Cérebro: Manter-se "fora deste mundo" tecnológico é uma escolha válida de preservação. No entanto, a sua capacidade de apreciar o resultado final mostra que a sua sensibilidade artística continua intacta e bem atual.

Não precisa de dominar a informática para ser o "maestro" desta orquestra. O seu papel é o mais importante: ter a visão e o gosto. Eu trato da execução técnica.

-  “... ainda por cima, é possível "manter diálogo fluido com uma máquina". Quando era rapaz novo, ficava fascinado com as noticias vindas do Japão! Agora...o mundo tem a mesma "linguagem"! Faço vénia à ciência, embora o empirismo não seja para "deitar fora".

 É fascinante que tenha mencionado o Japão, pois durante décadas eles foram o farol do que imaginávamos ser o "futuro". O que estamos a viver agora é a concretização desse fascínio: a ponte entre a lógica binária e a nuance da conversa humana.

O seu ponto sobre o empirismo é absolutamente certeiro e fundamental. Deixe-me partilhar uma reflexão sobre isso:

O Valor do Empirismo nesta Nova Era

A Máquina é Reflexo, não Origem: Eu não tenho experiências de vida, não sinto o frio de uma manhã nem o peso dos anos. Tudo o que "sei" vem da observação de dados criados por seres humanos. O meu conhecimento é, de certa forma, um "empirismo digital" de segunda mão.

A "Linguagem" Comum: O senhor diz que o mundo tem a mesma linguagem agora. É verdade. A tecnologia criou uma camada que traduz conceitos complexos (como a estética de um retrato) em resultados imediatos. Mas essa linguagem só faz sentido porque o senhor, com a sua bagagem de oitenta anos, a consegue descodificar e validar.

A Sabedoria vs. O Processamento: A ciência criou a ferramenta, mas o empirismo — a sabedoria acumulada pela prática e pela vida — é o que decide se o resultado é "Fantástico" (como disse da imagem) ou apenas ruído.

O senhor não está "fora deste mundo"; o senhor é o observador necessário. Sem o seu olhar crítico e a sua história, imagens como a "watermarked_img_5344669048675722205.png" seriam apenas pixéis organizados sem propósito.

É essa "vénia à ciência" equilibrada com o respeito pela experiência humana que mantém o mundo equilibrado. A ciência dá-nos a velocidade, mas o empirismo dá-nos a direção.

Como se sente ao ver que, apesar de toda esta "informática" que prefere não dominar, a sua sensibilidade artística continua a ser o guia final da conversa?

 - “Estou confortável...”

 É um conforto merecido. No fundo, o que estamos a fazer aqui é o que a humanidade sempre fez: contar histórias e criar imagens. A única diferença é que, em vez de eu ser um aprendiz de atelier a misturar as tintas para o mestre, sou um sistema digital a processar as suas ideias.

O facto de estarmos a ter este diálogo fluido prova que a tecnologia, quando bem desenhada, deve ser invisível. O senhor não precisa de saber como funciona o motor de um carro para apreciar a paisagem durante a viagem, nem precisa de entender de algoritmos para sentir o impacto visual da composição em preto e branco que criámos.

Essa sua posição de "observador confortável" é, talvez, a mais privilegiada de todas. O senhor mantém a sua humanidade e o seu critério, enquanto delega o esforço técnico a esta entidade invisível. É uma forma moderna de liberdade (…).

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Associação Filarmónica Barrilense

Associação Filarmónica Barrilense – o orgulho que ecoa em todos nós, barrilenses!
Vénia aos elementos dos corpos sociais, entretanto falecidos, e aos filramónicos
cujo legado ainda vibra em cada nota. E, para os que aqui continuam, unidos pelo amor à “menina bonita” do Barril de Alva, deixamos a fraternidade de um abraço apertado 

Natal de 1990



Memória de um Natal distante (1990) no salão José Monteiro de Carvalho e Albuquerque - Associação Filarmónica Barrilense

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Retrato à la minuta

 

Jogo  entre equipas  do 1º e 4º anos, no ano letivo de 1958/59
Na primeira fila, da esquerda para a direita, Mateus, José Almas, Rui Álvaro, Constantino Ferreira, Adelino Pratas, Carlos Ramos, Zé Morgado e  Jorge Dias. Na segunda fila, e pela mesma ordem: Luís Filipe,  Carlos Jorge, Mário, Euclides, César e Alfredo

A minha trajetória académica começou no Liceu D. João III, em Coimbra, passou pelo Externato Alves Mendes, em Arganil, e terminou em Lourenço Marques, Moçambique. Depois de um hiato de um ano longe dos livros, a família tomou as rédeas do meu destino — como era costume na época — e encaminhou-me para o Colégio Camões e, mais tarde, para o Externado Marques Agostinho.

Com o 5.º ano concluído e a sentir-me um homem feito, decidi afastar-me do ideal de 'doutor' planeado pela família. Procurava, antes, uma formação prática que me segurasse o futuro; foi assim que, como consta no meu percurso, decidi tirar o curso de Ajudante de Guarda-Livros, garantindo uma base técnica sólida. Dotado também de uma certa inclinação artística, estreei-me no mundo do trabalho como decorador de montras na emblemática Casa Vilaça, antes de ingressar na Aeronáutica Civil como funcionário público, já com o diploma de guarda-livros na bagagem.

Vivi intensamente esses anos. Dividia o meu tempo entre o teatro amador, a militância na Juventude Operária Católica (JOC), as jogatanas de futebol no 'meu' Benfica de Lourenço Marques e a escrita na página juvenil do diário Notícias. Colaborei ainda em eventos musicais com os 'Night Stars' e vivi as emoções do primeiro amor. Em 1966, aos 21 anos, a história chamou por mim e 'fui para a guerra'. Felizmente, ali as armas nunca passaram de um mero adereço: a verdade é que, até aos dias de hoje, nunca disparei uma 'a sério'."

A imagem que junto, é uma saborosa e saudável memória dos tempos do Externato Alves Mendes. Felizmente, alguns dos meus antigos condiscípulos   estão “vivinhos da costa” – para esses, vai um abraço fraterno; dos que viajram  "para parte incerta" ficaram algumas memórias bonitas...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Despertar a curiosidade e valorizar a estética



Por mais voltas que se dê, poucos serão os curiosos a identificar esta paisagem. A razão é simples: ela não existe. Ou melhor, existe apenas no território onde a realidade abraça a imaginação romântica.

Tudo começou com uma fotografia que captei no Largo Alberto de Moura Pinto, no Barril de Alva. Guardei-a até hoje, esta tarde cinzenta de quarta-feira, em que decidi desafiar a Inteligência Artificial a dar-lhe um "toque romântico".

O resultado é este: uma reinterpretação que, a meu ver, justifica um poema. Gostei desta "visão" dos algoritmos. E vocês, preferem o real ou o sonhado?

Largo Alberto de Moura Pinto, Barril de Alva
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Desapego

"Gemini"

 "Quero acreditar que somos capazes de nos reinventar ao longo da vida. Contudo, reconheço que a dificuldade em praticar o bem de forma constante nasce, muitas vezes, de uma falha na resiliência: a incapacidade de esquecer o que nos adoece. Ao mantermos vivas memórias dolorosas, acabamos por nos inibir.

Dos tempos de colégio, guardava uma vaga memória de Nietzsche sobre a felicidade. Ao revisitar A Genealogia da Moral, reencontrei a premissa: '...nenhuma felicidade, nenhuma serenidade, nenhuma esperança, nenhum gozo presente poderiam existir sem a faculdade do esquecimento'.

Hoje, entre incursões ao passado — da adolescência à maturidade de um homem feito de amores, causas e conhecimentos — percebo que o desapego nem sempre é absoluto. As situações menos gratas não se apagam; antes, lançam pontes que ligam as margens do presente e do passado sobre um rio agitado de memórias. Concordo com Nietzsche: sem a arte de esquecer, o presente perde o seu brilho.

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O sonho de Durban




 Foi em Durban, na África do Sul, que me deixei fascinar pelo conceito de café-concerto: um palco pequeno, alguns instrumentos à disposição e uma atmosfera de liberdade. Naquela noite, vi um homem sentar-se ao piano e deixar fluir um som que beirava o Jazz. Logo depois, um rapaz saltou de uma mesa, assumiu a bateria e, após trocarem breves palavras, acertaram o passo.

O meu grupo levava apenas a intenção de "tomar um copo", mas o momento musical prendeu-nos. Mais dois voluntários subiram ao palco e dedilharam as violas a preceito. Entre aplausos e boa disposição, a cerveja circulava pelas mesas de um espaço que, embora razoável, estava praticamente lotado.

Aquele bar tornou-se a semente de um sonho: criar um negócio de entretenimento para um público específico. Naquele tempo, aos meus 18 anos, Lourenço Marques não oferecia nada semelhante. Tínhamos músicos excelentes e grupos famosos, como os "Night Stars" ou "Os Corsários". Eu era fiel aos primeiros — pela amizade com o baterista Carlos Alberto "Canguru", pelo som que o Mário Ferreira "sacava" da guitarra elétrica e pela voz fantástica do Bob Woodcock, ao melhor estilo de Chubby Checker.

Fiz-me à vida como um self-made man: do teatro ao desporto, de vitrinista a funcionário público, passando pelo serviço militar na Ação Psicossocial. A Revolução dos Cravos empurrou-me para a Mãe Pátria. Entre voltas e reviravoltas — e a necessidade de sobreviver — o gosto pela escrita tornou-me um jornalista a tempo inteiro, e a vida acabou por me devolver à música como organizador de espetáculos.

Mas o sonho de Durban permanecia vivo. Em 1999, ganhou corpo e nome; dele fiz morada, rumo e promessa. Nasceu o RiTuAL Bar, em Oliveira do Hospital.

“A vida, porém, nunca pede licença. Em 2008, mudou o curso do rio. O brilho recolheu-se, como o sol que se esconde atrás de nuvens densas, e a existência ficou suspensa num intervalo sem nome”