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terça-feira, 12 de maio de 2026

Parque U.P.B.A.



(


(Dito  no dia 17 de maio de 2025)

- Senhoras e senhores, caros conterrâneos:

Saúdo este encontro público das nossas memórias junto à antiga escola primária, onde os nossos pequenos cérebros receberam o brilho cintilante da instrução, fazendo mais tarde dessas crianças cidadãos úteis aos seus semelhantes e aptos para honrarem a terra que os viu nascer” – palavras de circunstância inseridas no texto sobre este magnifico edifício, inaugurado  a 8 de junho de 1913, dia de domingo.

De facto, a vossa visita tem tudo a ver com a referência que nos é devida enquanto cidadãos úteis aos seus semelhantes que honram a terra que os viu nascer.

Permitam-me esta analogia entre a nossa escola e a União e Progresso do Barril de Alva pelo facto de estarmos junto ao elegante obelisco, inaugurado no longínquo ano de 1965, que homenageia o bairrismo e a benemerência dos barrilenses (e dos amigos do Barril de Alva) e de todos os outros que não tendo o mesmo enquadramento nos termos atrás mencionados, pelo merecimento das suas elevadas qualidades académicas, ouso o destaque da minha intervenção.

A importância da cultura da palavra e da ciência na construção do conhecimento promove o desenvolvimento intelectual. A personalidade e o destaque universal das competências do barrilense Alberto Martins de Carvalho, antigo aluno desta escola, pedagogo, autor de inúmeros artigos, prefaciando, traduzindo e anotando outras obras, além de ter exercido o alto cargo de diretor do Centro de Estudos Pedagógicos do Instituto Gulbenkian de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, justificaram a sua escolha para dar nome  a esta praça…

- que também poderia chamar-se José Quaresma Nunes dos Santos, igualmente antigo aluno deste escola - cursou Matemáticas Puras, e Engenharia Geográfica, entre outras especializações académicas…

- ou poderia ser batizada  com o nome  de José Custódio Gomes,  irmão de António, Manuel, Albano e Adriano, todos barrilenses. Jovem na idade, foi para Cacilhas. Como republicano, desde 1884, e depois como socialista, foi um dos fundadores do Centro Republicano de Cacilhas e fundou a Associação dos Corticeiros. Fez parte de diversas vereações, antes e depois da proclamação da República, tendo sido também, em determinado período, administrador de concelho.

Sobre esta figura pouco se sabe quanto aos seus graus académicos – nem importa conhecer – era barrilense,  como nós:  A sua memória ocupa lugar de destaque na História do concelho de Almada e, porque não, na história da nossa terra” - escreveu AIACO.

 

Dos três, no meu entender, Alberto Martins de Carvalho, é a figura maior da intelectualidade do povo que somos, pelos cursos superiores que completou e dos altos cargos que ocupou. É do conhecimento de alguns dos seus seguidores a sua recusa para abraçar uma pasta ministerial no Governo de Salazar, que lhe reconhecia superiores qualidades intelectuais e humanas. Martins de Carvalho escusou-se com a elegância das palavras, usando uma metáfora ao argumentar que a sua indisponibilidade se devia ao facto de não “fazer parte da mesma religião” do chefe do Governo…

- Um pequeno aparte: Martins de Carvalho foi destacado membro da Maçonaria, instituição filosófica, filantrópica, educativa e progressistaque Salazar proibiu, daí a analogia da expressão que nada tinha a ver com o catolicismo, que ambos professavam…

 

Convido os barrilenses para uma visita pormenorizada à Casa/Museu, onde poderão conhecer, de forma sucinta, estas e outras figuras ligadas à arte de bem-fazer junto da comunidade, encontrar referências de louvor e imagens que retratam ligações fraternas ao associativismo regionalista pela via do amor pátrio à aldeia de onde partiram - homens e mulheres à conquista dos  seus sonhos, numa viagem com noventa anos de História e estórias sem fim para contar...

 

É tudo isto que a UPBA deixa escrito em letras douradas. É sobre tudo isto que a nossa consciência nos alerta quanto ao futuro desta nobre instituição.

 

Miguel Torga, amigo de Alberto Martins de Carvalho, citava vezes sem conta, segundo Fernando Vale, amigo dos dois, a seguinte frase: 

 

"Quem faz o que pode, faz o que deve"!

 

 Durante noventa anos, os associados e amigos da UPBA fizeram o quedevia ter sido feito” para bem do Barril de Alva e das suas instituições.

 

Os tempos não sopram de feição para o associativismo. A UPBA vai mantendo a dinâmica possível graças à devoção de alguns seguidores de AIACO, como o presidente TONECAS, a quem faço vénia, e a todos os seus colaboradores mais próximos, pelo esforço e dedicação à causa comum – infelizmente, ”AIACOS” contam-se pelos dedos de uma mão, lá como cá…

 

Com o mesmo espírito solidário, alguns de nós, já entrados na idade, e outros ainda com o ”sangue na guelra”, estamos prontos para manter acesa a chama da UPBA, que tanto deu de si ao Barril de Alva. Agora, é a nossa vez de citar Miguel Torga:

 

"Quem faz o que pode, faz o que deve"!

 

Enquanto houver vida e a União e Progresso do Barril de Alva plantar uma árvore, não se apagam as memórias e cresce o Parque  UPBA na margem direita do rio Alva, junto à ponte.

Avivando memórias: foi exatamente aí, no Parque de Merendas, que a União e Progresso se “emancipou” e contraiu “matrimónio” com o Barril de Alva!

- É o que diz a História!

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CAR – 17 de maio de 2025

 

terça-feira, 22 de julho de 2025

Memórias da "Sibéria"

 

Cervejaria Sibéria - rua do Porto, Lourenço Marques

Em 1962, além de estudar (colégio Marques Agostinho / Camões?) e dos primeiros passos como vitrinista na Casa Vilaça, joguei futebol nos juniores do Sport Lourenço Marques e Benfica. Nos fins-de-semana e tempos extra, havia a J.O.C. da Malhangalene (Juventude Operária Católica) e “OS METRALHAS” (espécie de clube “só” de rapazes ).
À “mão de semear”, na Rua do Porto, havia a Cervejaria Sibéria, onde eu e alguns amigos do bairro confraternizávamos ao redor da mesa com “Laurentinas”, Catembes, Tricofaites” e outras especialidades sem álcool, como os refrigerantes “Tombazana”, Ginger Ale, Coca Cola – água pouco, ou nada.
A casa onde morava ficava virada para a Mercearia Cordeiro, à distância de poucos metros da “Sibéria”.
Guardo memórias desse tempo, mas o grande “marco histórico” de 1962 (e dos convívios na “Sibéria”!) foi a vitória do Benfica sobre o Real Madrid por 5 -3! Pela segunda vez o “nosso” Benfica era campeão europeu!!!
Nesse dia, não havendo TV,  "vimos o jogo" através do relato da Enissora Nacional, muito bem acompanhados por  "loirinhas"  fresquinhas! 

 Estádio Olímpico de Amsterdão,na Holanda - 2 de Maio de 1962. 
Benfica,5 - Real Madrid, 3


Curiosidade
Na fachada do edifício da “Sibéria” existiam uns pequenos desenhos (?) alusivos aos profissionais da construção civil; depois do regresso à terra natal em 1975, tive a honra de conviver com o Dr, Fernando Vale, Maçom e fundador do Partido Socialista, o que me levou a uma “viagem” voluntária pelos caminhos dos Pedreiros Livres, termo que se refere à Maçonaria. 
Continuo na dúvida sobre os “desenhos” da Cervejaria “Sibéria” … 
O edifício da Escola Industrial de Lourenço Marques, em tempos idos, "(...) foi o maior templo maçónico em todo o espaço português e um dos maiores no Sul de África – é o que diz da História.


O tempo de todos os sonhos



quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

“A Bola” de Carlos Pinhão e Nuno Ferrari - e de outros mestres – faz anos!

 


A Bola foi o “meu jornal” de eleição durante os anos sessenta e o jornalista Carlos Pinhão  espécie de “guru” na arte de “escrever direito por linhas tortas” (refiro-me aos tempos da censura …).

-A Bola  foi e continua a ser o “meu jornal”!

Junto a excelência dos textos de Carlos Pinhão ao génio do fotógrafo Nuno Ferrari e, com facilidade, regresso aos anos sessenta, em Lourenço Marques, com memórias importantes da minha adolescência - sempre com a presença da ”Bola” e do “meu Benfica” que, na época dourada daquele tempo, “enfeitiçou” milhões de portugueses graças aos xicuembos do Costa Pereira, do Coluna, do Eusébio, moçambicanos de gema.

Carlos Pinhão “fez de mim” aprendiz da arte de que era mestre – durante trinta anos dei sentido ao prazer da escrita em diversas publicações…

A Bola com as suas reportagens, transformou  simpatia em “paixão” pelo Benfica - fui atleta júnior do Sport Lourenço Marques e Benfica…

É por isso que “Sou do Benfica /e isso me envaidece…”

 - E sou da “Bola” –“… um clube (jornal) lutador/que na luta com fervor/nunca encontrou rival/neste nosso Portugal…”.

Vida longa ao jornal A Bola.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Uma cidade chamada Inès


 Volto à nostalgia para situar um ponto no Índico: Moçambique!

Foi naquele país encantado por deuses de múltiplas facetas estéticas que me descobri como homem; cresci e quase completava determinado ciclo da minha existência quando valores mais altos se levantaram e retornei, em boa companhia, à casa onde nasci neste ponto da Europa, longe do Atlântico que leva saudades à Baía do Espírito Santo em barquinhos de papel.
Em tempos nunca esquecidos, a "minha cidade"  teve nome de navegador: Lourenço Marques!
Fosse eu Pedro na lenda da Quinta das Lágrimas e teria chamado à minha cidade, Inês!

* Na falta de ondas e marés, sem correntes de feição, recorro à ciência deste tempo para estar mais perto da minha gente, e ouço os sons que chegam do outro lado do mundo, aqui mesmo - basta um "click" !
No serão da última noite, tive companhia de elevado grau e qualidade - do locutor de serviço ao homem da técnica, de Villaret a Manuel Alegre, de Pedro Abrunhosa à "ELisa Gomara Saia", interpretado por voz genuína, sem trejeitos.
...E o telefone mesmo aqui, à mão!
Num impulso, marco um número. Espero dois, três segundos:
- Bom dia, fala da Rádio Moçambique.
.............................
Eram quatro da madrugada na "minha terra"...
*
Publicado em dezembro de 2005 no blogue  "ritualidades" - https://ritualmente.blogspot.com/2005/

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Inhambane - um dia "volto"



Em 1966, ou cumpria o destino obrigatório de todos os mancebos, ou desertava. Optei por “assentar praça” no quartel de Boane.
Era fevereiro.
De 1966 a 1969 (três anos e sete meses), as terras de Boane, Maxixe, Inhambane e Vila Cabral (Niassa) estão anotadas na minha caderneta militar como “residências oficiais”.
Por ser tempo de guerra, “guerreei”…
…Guerreei com as “armas” que tinha à mão em nome da paz e da fraternidade: a palavra, a caneta, o lápis, o papel e a máquina de escrever.
Ocupei-me do sonho e dele fui mensageiro através de “jornais da caserna”, manufaturados sem grande critério, das publicações periódicas impressas, das sessões de cinema de puro entretenimento, das reportagens sobre a vida nos aquartelamentos, da divulgação de usos e costumes das populações...
Recordo no “outro lado do tempo” Homoine, Mabote, Morrumbene, Massinga, Pomene… Inhambane, onde “voltarei um dia”. “Está prometido” no Último adeus a Inhambane.
À distância de meio século “sou capaz de viajar” nos barquinhos que faziam a travessia entre Maxixe e Inhambane - com sorte, posso ter por companhia uma das três irmãs, mulatas - qual delas a mais bonita. Afiançavam os “tropas”!
…Depois de sessão de cinema, em Inhambane, talvez encontre aquela jovem indiana de longos cabelos pretos, olhares marotos e de falas mansas num dialeto impercebível.
Por vezes os gestos substituem as palavras:
-“Não sei ler nem escrever, só soletrar. Dá-me a primeira letra que eu dou-te a seguinte.”
Sendo domingo, um mergulho na praia do Tofo, talvez um fim de tarde na esplanada da avenida… mas se fosse “dia de bola”, e o Ferroviário jogasse em casa, era um dever aplaudir os “nossos”.
E havia o arraial com música tradicional, à luz de um “petromax”, longe das vistas, onde se saboreava a autêntica “galinha à cafreal”, sem o uso de talheres, acompanhada de cerveja à temperatura ambiente…
E aquela vez, quando dei de caras com o “paraíso” em Pomene?
E os camarões gigantes, vivos e a saltar, a vinte e cinco tostões o quilo?
E o casamento do Fonseca em Morrumbene?
… Um dia conto pormenores de uma cena “nunca vista”: o alferes “checa”, por "brincadeira",  desafiou o Zé Diogo, praticante de boxe, para uma “troca” de socos na parada!...
- Coitado do alferes...


quarta-feira, 1 de abril de 2020

"O outro lado do tempo"


… Se calhar, “sou de lá”

Num dia como este, com um cravo vermelho na lapela das minhas memórias, em silêncio, regresso ao “outro lado do tempo” - viagem apressada até aos dias do agora: eu, “setentinha”, que o cabelo grisalho acentua sem convencer a “ideia que trago no pensamento”:
- Eu, quarentão… ou um pouco mais…
Pauso no (meu) tempo “trintão” e “regresso” a João Belo, no Xai Xai, e reencontro-me com a terra e as pessoas, odores, sabores, hábitos e costumes.
Volto mais atrás, ao tempo que me viu crescer, de menino a adulto.
- A primeira paixoneta, ainda “visível” na lembrança, na Malhangalene, em Lourenço Marques, a paixão pela prática do futebol no Benfica de “lá”, o colégio, a Casa Vilaça (espécie de universidade onde cultivei conhecimentos sobre a estética do belo…), a Juventude Operária Católica (JOC) e o teatro, o ingresso na Aeronáutica Civil, ser fã indelével da Natércia Barreto e dos seus “Óculos de Sol”, dos grupos “Night Stars”, de L.Marques, “Shadows”, “Beatles” e de tantos outros artistas do top internacional, como Gilbert Bécaud, as matinés no Scala; o serviço militar, de Boane à Maxixe, Inhambane e Vila Cabral, no Niassa, através da prática de experiências jornalísticas nos “Jornais da caserna” “Gazela”, “Kuambone” e a “Voz do 20”, à Ação Psicossocial, como elemento da especialidade IOR (Informações, Operações e Reconhecimento); a colaboração no “Notícias”, de L. Marques, depois no "Diário", a chefia de uma secção administrativa na Fábrica Siesta, em L. Maques, ao Ford Escort 1300 GT, o meu primeiro automóvel...
Num dia como este, com um cravo vermelho na lapela das minhas memórias, em silêncio, “regresso” no tempo a João Belo, onde constitui família, à “Casa Fonseca”, aos torneios de futebol de salão, às praias do Xai Xai, ao Bilene…
O 25 de Abril de 1974 veio ter comigo quando a família crescia: a Carla e o Carlo eram todo o nosso enlevo.
Embora não tivesse nascido em Moçambique, acreditava que “era dali” – aquele país era a minha Pátria!
Num dia como este, com um cravo vermelho na lapela das minhas memórias, em silêncio, recuo ainda mais no tempo, a Portugal - ao tempo da escola primária, no Barril de Alva, do liceu D. João III, em Coimbra, ao Externato Alves Mendes, em Arganil, e ao… Urtigal da minha meninice…
… Se calhar, “sou de lá”, do Urtigal - é o que me diz o tempo.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

RiTuAL BAR - a "Oriente de Coja"

Recordar os tempos do meu tempo do RiTuAL BAR é um exercício dolorido. 
Na época, a cidade de Oliveira do Hospital desfrutava com prazer noites diferentes, únicas. 
A assunção pública de determinada postura filosófica, renascida a "Oriente de Coja", trouxe ao espaço figuras ilustres da cultura que, de forma direta, ou não, patrocinaram momentos inesquecíveis - da música à poesia, da pintura às letras, dos debates cívicos às tertúlias mais comezinhas.
As imagens que trago à primeira página deste RiTuAl fazem parte de mim, apaixonado como eu era (e assim continuo...) pelas pessoas...

O RiTuAl BAR, além de "copos", servia outros pretextos para dois dedos de conversa...

quarta-feira, 25 de julho de 2018

A noite adormeceu tarde, nostálgica

"Ritualistas" reunidos em jantar de saudade na EXPOH 2018 - Feira Regional de
Oliveira do Hospital





Alguns dos amigos (e clientes…) do RiTuAL Bar de outros tempos juntaram-se num jantar de saudade, como tem sido hábito nos últimos anos. Desfilaram memórias, contaram-se estórias, recordaram-se “ritualistas” que já partiram para “parte incerta”, como o professor Sérgio, e a noite adormeceu tarde, nostálgica…
À mesa, a Graça e o André, eu e a Lurdes, novo membro da “família” por adoção plena, que do RiTuAL apenas conhece momentos fotográficos que lhe deixam “água na boca”…
Anotadas as ausências da Ângela e da Maria João, sujeitas a “castigo”, como é da praxe, que será “cobrado” depois das férias com um jantar caseiro a decidir – quando, Ângela?

Se a EXPOH é o local ideal para reencontrar amigos, o RiTuAL, no caso, é pretexto para abraços cordiais e conversas de ocasião, como aconteceu com o Prof. Alexandrino (presidente da câmara), Nuno Oliveira (presidente da junta), Luís Antero (músico, radialista e autor do programa “Xisto Sonoro”), Liliana Lopes, (jornalista da Rádio Boa Nova) o casal Dilia / José Carlos, e mais uma “mão cheia” de outros “ritualistas” de quem a (minha) memória (já) não recorda os nomes próprios…
… Ao longe, avistei o Francisco Rolo, amigo dileto, vereador da câmara.
Remata-se o texto com um lauto festim de “princesinhas”… "à RiTuAL”.




André e Ricardo - "mestres ritualistas"

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O pintainho amarelo

“(…)
- Como é que voltas a pôr o ovo lá dentro - disse ela - para o fazeres  sair outra vez? No teu sonho, claro.
 - Não sei, volta a entrar… lá para dentro, e pronto. Suponho eu.
O riso de Lydia é agora um disfarce.
- E que diria o Doutor Freud de uma coisa assim?
 Suspirei de irritação.
 - Nem tudo é….
 Suspiro
- Nem tudo
(…)
- Oh, claro - disse ela - às vezes um pintainho é só um pintainho, a não ser que seja uma galinha (…)”.

Quando a Ângela decidiu lembrar “a amizade, a alegria, o riso, as conversas”, fez agora anos, e presentear o meu aniversário com o “mais belo e melancólico romance de John  Banville”, segundo a opinião do crítico do Sunday Telegraph, não lhe passava pela cabeça que este “Eclipse”- título da capa - dizia de mim o incómodo de alguns dos (meus) segredos,  agora assumidos, que o tempo é de arrumar memórias.
Parágrafo a parágrafo, página a página, tomei assento na estória até dela fazer parte, como se fosse o autor dos “fantasmas” silenciosos que sempre me perseguiram, como sucedeu a Alex Cleave. Este “Eclipse”, na imaginação de John Banville, irlandês, nascido no ano em que eu nasci, tem tanto de mim que dá arrepios – li páginas inteiras “sobre mim”, voltei a ler, pausei a leitura, repeti parágrafos, páginas inteiras - era eu, sou eu “aquilo”, espécie de retrato dos meus medos – de um pequeno medo que fosse: ai se a memória me falha, como aconteceu a Alex Cleave, o ator, a quem aconteceu o vazio da fala à boca do proscénio. Essa foi a causa que o levou de regresso à casa onde nasceu para viver com os “fantasmas que habitavam o mesmo espaço”…

Alex Cleave teve (…) um pintainho amarelo, de celuloide, especado nas  suas patas muito finas  e que punha um ovo quando lhe  premiamos o dorso (…). Lydia estava a olhar para mim com um sorriso incómodo e desdenhoso, mas não inteiramente isento de ternura.
- E como é que se põe lá dentro? - perguntou-me.
- Lá dentro?

Nas minhas memórias de menino há um pintainho amarelo, que punha um ovo quando se premia o dorso.
Coincidência, caro Alex Cleave, aliás: "eu"!



segunda-feira, 27 de novembro de 2017

“Chuva Crioula” - nome do livro


“(…) os olhos verdes como os de uma onça negra”
“(…) se fosse mais clara, seria branca; um pouco mais escura, seria negra”







“Chuva Crioula” (1972), romance de José Mauro de Vasconcelos, escritor brasileiro, estava esquecido na prateleira sem que  a minha memória lhe desse vida. De "fio a pavio", desta vez, a leitura não teve parança - nem quando faltava  a eletricidade cá por casa, que  isto de  fios, cabos, disjuntores, transformadores etc e tal, por via do incêndio de outubro, anda tudo colado com "cuspo"..
Porém,  “O Meu Pé de Laranja Lima”, do mesmo autor, garantiu  a imortalidade da (...) "história de um meninozinho que um dia descobriu a dor..." e é, sem dúvida, o seu romance mais conhecido e premiado.
É através desta obra que J.M. de Vasconcelos passa a fazer parte  do meu restrito grupo de escritores  “amigos”, daqueles que  nunca nos deixam - ou  nós nunca deixamos de ter por perto, por mais voltas que possamos dar à vida -  na solidão de leituras intimistas.
No escaparate, além deste romance de José Mauro de Vasconcelos, ainda reservo para leitura posterior “Barro Blanco”, publicado em 1948, e o celebrado “O Meu Pé de Laranja Lima”, de 1968, para o reencontro com a candura do meninozinho.
Volto ao que me trouxe ao  telex: "Chuva Crioula", cognome de mulher e protagonista de enredo  literário  produzido com o engenho e a arte do escritor brasileiro.
Alguns de nós, homens tisnados pelo sol africano e adolescência a condizer, por certo estivemos perto de uma “Chuva Crioula” semelhante à que José Mauro de Vasconcelos inventou - quem sabe, com direito a namorico ...  
A “Chuva Crioula” que me “enfeitiçou” em 1968, em Inhambane, Moçambique, em tudo se assemelhava ao modelo escolhido por J.M. de Vasconcelos. Só não tinha “(…) os olhos verdes como os de uma onça  negra” - eram azuis!

sábado, 14 de outubro de 2017

Exercício sobre dois búzios (de Sophia de Mello Breyner)

Um acaso devolveu-me à leitura de “Contos Exemplares”, de Sophia de Mello Breyner. O livro, que descobri numa arca no sótão, editado em 1971, tem as folhas amarelecidas pelo tempo – nunca as palavras imortais da autora.
Nesta edição (a quarta), o então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, assina o prefácio e é pela leitura das páginas que escreveu – mais de cinquenta! – que D. António nos remete para a excelência da obra de Sophia, apontando a sua enorme espiritualidade como referência a ter em conta.
À genialidade do conhecimento de D. António Ferreira Gomes junte-se o talento da maior poetisa portuguesa e ficamos com uma “peça rara” do nosso património cultural.
Qualquer português, minimamente culto, conhece alguma coisa de Sophia de Mello Breyner. Particularmente, creio que “A Viagem” é uma espécie de catecismo pelo facto de dimensionar a esperança de qualquer humano, entre o “Alfa e o Ómega”, até aos limites do quase impossível! Na estória de ficção, além do mais, a autora desenha poesia e poetiza a música das palavras, como sempre fez, com sensibilidade ímpar.
Não admira que a saudade de si, por tudo quanto legou à Humanidade, regresse nas asas do tempo como a excepcional voz da cantora brasileira Maria Bethânia deixa transparecer no álbum “Mar de Sophia”, editado, salvo erro, o ano passado, onde o mar e os seus símbolos, a partir da poesia de Sophia de Mello Breyner, nos transportam para viagens de completo encantamento.
Para meu regalo, a comunhão do belo (as palavras da Sophia na voz da Bethânia) chegou aos meus ouvidos numa tarde calma, bem longe do mar que a poetisa amava como se fosse coisa sua – somente sua! 
Por mim, a “minha serra” sempre foi o lugar perfeito para a poesia que me enche a alma – por vezes descubro  no silêncio oceanos de emoções que nem a morte há-de apagar da memória dos vivos! …
E hei-de “voltar à minha serra”, como a Sophia ao seu mar:
-“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não passei ao pé do mar”!
Ainda nos “Contos Exemplares”, num deles (Homero) a autora retrata “… um velho louco e vagabundo a quem chamam Búzio…”. Obviamente, o texto mantém o estilo e a arte poética de Sophia..
De novo e sempre o mar:
-”O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas…”.
Em Junho passado, depois das férias, conheci outro búzio: “ O Búzio de Cós e outros poemas
” – novas imagens de outros mares que Sophia não precisa mencionar – basta uma simples e bela concha fusiforme e fica perfeito o cenário de Cós, ilha do mar Egeu, onde Sophia comprou o búzio “numa venda junto ao cais…”.
Às suas epopeias, Sophia de Mello Breyner, agrega dois búzios impregnados de simbologia que tocaram a minha sensibilidade: a um faltava o aconchego de uma “concha”: “ O Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada. Vivia com a terra toda que era ele próprio...”; ao outro não ouvia “ … nem o marulho de Cós nem de Egina…”.
Por mais que me deleite nas marés dos seus poemas, fico sem saber quantos mares formam o caleidoscópio da áurea de Sophia de Mello Breyner…

-
Publicado no "Correio da Beira Serra" / 4 de Março de 2008


terça-feira, 25 de julho de 2017

Como no cinema...







Quem não tem memórias das  "fitas" de cinema protoganizadas  por  esbeltas  mulheres com quem "sonhamos o sonho" de fazerem parte das nossas vidas? Ou nós das vidas delas...
Dos meus sonhos de adolescente guardo para sempre  o encanto desta figura a preto e branco por quem me apaixonei perdidamente - eu, no "outro lado do mundo", do seu mundo...
Há sonhos assim, sonhados, como no cinema.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

"Monte dos Vendavais"

Das minhas memórias em papel, acumuladas em mais de meio século, a lembrança de um episódio faz com que viaje ao tempo do liceu e aos meus doze anos de gente.
Aluno do 2º ano do Externato Alves Mendes, em Arganil - famoso na região da Beira Serra pela competência dos professores que o diretor Homero contratava -, tinha chegado o tempo da longa viagem que havia de mudar radicalmente a minha existência. O destino era Lourenço Marques, em Moçambique...
No meu último dia de aulas fui surpreendido com algumas manifestações de simpatia, mas o gesto da professora de Matemática, de seu nome Lurdes, teve o condão de me despertar o prazer da leitura.
Depois de uma visita à livraria da "Comarca de Arganil", a professora retirou da prateleira um exemplar da obra de Emily Brontë, "Montes dos Vendavais, e numa das páginas interiores escreveu 

-"Para o Carlos, uma lembrança da professora amiga, MLurdes".

Reencontrei-me  de novo com a leitura da obra da escritora que usava um pseudónimo masculino.
...O hábito de  ler, já em Lourenço Marques, levou-me ao desconhecido (para mim) Anna Karénina , de   Tolstoi . Foi um "empreendimento intelectual" cansativo, confesso.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Um punhado de terra

Dou comigo a reviver estórias vividas no “outro lado do mundo”.
Desse mundo sobram recordações do menino que aí cresceu e se fez homem entre “matateus e eusébios”, e partiu à descoberta do futuro nas asas do mítico concerto de Woodstock, em Agosto de 1969. 
No “outro lado do mundo” nasceram e morreram paixões - menos os sonhos da “Pedra Filosofal” de António Gedeão...
É por isso que guardo um punhado de terra “desse lado”; quando chegou, mergulhei nela o olfato e as duas mãos, quase em êxtase!

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Arrepios no corpo, dentro e fora dele

Foto:  The Delagoa Bay World

Certo dia entrei num barco grande, enorme, que cheirava a novo, não por ter saído da fábrica nas vésperas, mas pelas tintas usadas para esconder as rugas da idade. Nesse tempo, outros barcos grandes, enormes, eram velozes a cruzar a linha do Equador; este, que me calhou em sorte, não, molengão que só visto, com o pormenor do cheiro a tinta provocar náuseas e vómitos aos passageiros, eu incluído - eu, criança, sem hábitos de viajante, exceto as idas às vilas das redondezas em dia de feira, e por uma vez à Romaria de Nossa Senhora d'Agonia, em Viana do Castelo, a Almada para visitar parte da família  e o mar, grande, enorme, inimaginável, e a Coimbra, grande, enorme, cidade que me foi destinada para cumprir os desígnios da família: um dia, talvez um dia, seria doutor ….
O Portugal que me foi dado conhecer na escola - lia nos livros - alongava-se para lá dos oceanos. Longe, muito longe daqui, da minha aldeia, havia mais Portugal - “outro Portugal” - com outras gentes, falas e costumes.
Eu, a “caminhar para doutor”, com “muito bom” nos exercícios da nossa História, acreditava nesse Portugal  - ”tratava por tu” Vasco da Gama, Cabral, Diogo Cão e tantos outros almirantes dos setes mares.
A família decidiu, estava decidido: o futuro passaria por Moçambique, onde o avô Pereira procurava fortuna.
O “Quanza”, pintado de fresco, levou uma eternidade, mas chegou, ronceiro, à Baia do Espírito Santo e ao cais Gorjão.
Finalmente, Lourenço Marques!
"AQUI É PORTUGAL"! - gravado  na calçada... arrepios no corpo, dentro e fora dele, emoções que não se explicam - nem agora nem antes.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Nem padre, nem doutor - "estória de "trazer por casa"

Texto adpatado 
- Croniqueta publicada em 2008 no "Correio da Beira Serra"




Passaram anos sobre o dia em que fui desterrado para um primeiro andar de uma casa sita na rua Dr. João Jacinto, em Coimbra, com a finalidade de chegar a doutor se para tal houvesse sabedoria.
A nobreza da intenção possivelmente foi abençoada pelo arcipreste Januário, pastor das almas da freguesia; porém, nem ele nem a minha família tiveram o cuidado de conhecer os meus anseios, coisa pouca, devo acrescentar: queria ser padre,  como o sacerdote José Vicente, de Coja,  para entoar a imperceptível ladainha da missa ao domingo, discursar como ele,  e usar uma “saia” negra...
Cá por casa tiraram-me daí o sentido com o argumento de que os padres não podiam casar e então, para não ter de "inventar sobrinhas ou primas", o melhor era ser doutor de qualquer coisa e depois se veria com quem partilhar o aconchego da família oficial que havia de ter…
Coimbra e o Liceu D. João III seriam, pois, o destino da criança que eu era. E lá fui, com medos e vergonhas a fazerem mossa na imatura e periclitante personalidade. Fui, mas regressei no fim do ano letivo, vergado a um chumbo de dois “noves”, escrito a vermelho na pauta.
No ano seguinte, havia duas opções: o colégio de Oliveira do Hospital, afamado, ou o Externato Alves Mendes, em Arganil, que não lhe ficava atrás nos resultados académicos. Escolheram por mim: Arganiil – sempre havia carreira de manhã e à tarde, e ficava sob a alçada da família, que  insistia  no “doutor de qualquer coisa". Padre...  nem pensar!
As voltas que dei na vida afastaram-me, definitivamente, de todas as vontades e desejos.
Mais tarde, os ares de Abril trouxeram-me de regresso “à terra”, deixando para trás, contrariado, um pedaço de África, como se tivesse renunciado à força a todos os sonhos...
Voltei a Oliveira do Hospital a tempo de conhecer gente que, se a roda da fortuna tivesse girado noutro sentido, bem poderiam ter sido meus condiscípulos no Colégio Brás Garcia de Mascarenhas. Agora ouço relatos de peripécias inarráveis em letra de forma, conheço estórias de sucesso, e sei da saudade com que alguns desses amigos recordam os tempos do “Brás”.
O Externato Alves Mendes  era, na verdade, a opção certa para satisfazer os sonhos da fanília, mas...
Tarde no tempo, “nem padre nem doutor” de qualquer coisa – continuo aprendiz pela “leitura do conhecimento” de outros mestres.
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Do tempo do colêgio é o retrato  desta  "estória de trazer por casa".



sábado, 7 de janeiro de 2017

... E o telefone mesmo à mão!

RiTuAL - memórias 12.12.05

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Volto à nostalgia para situar um ponto no Índico: Moçambique!
Foi naquele país encantado por deuses de múliplas facetas estéticas que me descobri como homem; cresci e quase completava determinado cíclo da minha existência quando valores mais altos se levantaram e retornei, em boa companhia (fomos milhares!), à casa onde nasci neste ponto da Europa, longe do Atlântico que levaria saudades à Baía do Espírito Santo em barquinhos de papel,  fosse eu Pedro na lenda da Quinta das Lágrimas e teria chamado à minha cidade Inês! Mesmo assim, continua rainha dos meus sentimentos, sonhos e ideais...
Na falta de ondas e marés, sem correntes de feição, recorro à ciência deste tempo para estar mais perto da minha gente, e ouço os sons que chegam do outro lado do mundo, aqui mesmo: basta um "click" e chego a casa!
No serão da última noite, tive companhia de elevado grau e qualidade - do locutor de serviço ao homem da técnica, de Villaret a Manuel Alegre, de Pedro Abrunhosa à "ELisa Gomara Saia", interpretado por voz genuína, sem trejeitos.
...E o telefone mesmo aqui à mão!
Num impulso, marco um número.Espero dois, três segundos:
- Bom dia, fala da Rádio Moçambique.
... Eram quatro da madrugada.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Casa da Eira"


Serra do Açor, "Casa da Eira" na Mata Nacional da Margaraça. - local de inspiração do historiador José Mattoso

domingo, 12 de junho de 2016

"Casa da Eira"


Serra do Açor - "Casa da Eira" na Mata Nacional da Margaraça., local de inspiração do historiador José Mattoso