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(Dito no dia 17 de maio de 2025)
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Senhoras e senhores, caros conterrâneos:
Saúdo este encontro público das nossas memórias junto à
antiga escola primária, onde os “nossos pequenos cérebros receberam o brilho
cintilante da instrução, fazendo mais tarde dessas crianças cidadãos úteis aos
seus semelhantes e aptos para honrarem a terra que os viu nascer” – palavras
de circunstância inseridas no texto sobre este magnifico edifício,
inaugurado a 8 de junho de 1913, dia de
domingo.
De facto, a vossa visita tem tudo a ver com a referência que
nos é devida enquanto cidadãos úteis aos seus semelhantes que
honram a terra que os viu nascer.
Permitam-me esta analogia entre a nossa escola e a União e
Progresso do Barril de Alva pelo facto de estarmos junto ao elegante obelisco, inaugurado no longínquo ano de
1965, que homenageia o bairrismo e a
benemerência dos barrilenses (e
dos amigos do Barril de Alva) e de todos
os outros que não tendo o mesmo enquadramento nos termos atrás mencionados,
pelo merecimento das suas elevadas qualidades académicas, ouso o destaque da
minha intervenção.
A importância da cultura da palavra e da ciência na
construção do conhecimento promove o desenvolvimento intelectual. A
personalidade e o destaque universal das competências do barrilense Alberto Martins de Carvalho, antigo
aluno desta escola, pedagogo, autor
de inúmeros artigos, prefaciando, traduzindo e anotando outras obras, além
de ter exercido o alto cargo de diretor
do Centro de Estudos Pedagógicos do Instituto Gulbenkian de Ciência da Fundação
Calouste Gulbenkian, justificaram a sua escolha para dar nome a esta praça…
- que também poderia
chamar-se José Quaresma Nunes dos
Santos, igualmente antigo aluno deste escola - cursou Matemáticas Puras, e Engenharia
Geográfica, entre outras especializações académicas…
- ou poderia ser batizada com o
nome de José Custódio Gomes, irmão
de António, Manuel, Albano e Adriano, todos barrilenses. Jovem na idade, foi
para Cacilhas. Como republicano, desde
1884, e depois como socialista, foi um dos fundadores do Centro Republicano de Cacilhas e fundou a Associação dos Corticeiros. Fez parte de diversas vereações, antes
e depois da proclamação da República, tendo sido também, em determinado
período, administrador de concelho.
Sobre esta figura pouco se sabe quanto aos seus graus académicos – nem
importa conhecer – era barrilense, como
nós: “A sua memória ocupa lugar de destaque na História do concelho de
Almada e, porque não, na história da nossa terra…” - escreveu AIACO.
Dos três, no meu entender, Alberto Martins de
Carvalho, é a figura maior da intelectualidade do povo que somos, pelos cursos
superiores que completou e dos altos cargos que ocupou. É do conhecimento de
alguns dos seus seguidores a sua recusa para abraçar uma pasta ministerial no
Governo de Salazar, que lhe reconhecia superiores qualidades intelectuais e humanas.
Martins de Carvalho escusou-se com a elegância das palavras, usando uma
metáfora ao argumentar que a sua indisponibilidade se devia ao facto de não “fazer parte da mesma religião” do chefe do Governo…
- Um pequeno aparte: Martins de Carvalho foi
destacado membro da Maçonaria, instituição
filosófica, filantrópica, educativa e progressista, que Salazar
proibiu, daí a analogia da expressão que nada tinha a ver com o catolicismo,
que ambos professavam…
Convido os barrilenses para uma visita pormenorizada
à Casa/Museu, onde poderão conhecer, de forma sucinta, estas e outras figuras
ligadas à arte de bem-fazer junto da comunidade, encontrar referências de louvor
e imagens que retratam ligações fraternas ao associativismo regionalista pela via do amor pátrio à aldeia de onde partiram - homens e mulheres à conquista
dos seus sonhos, numa viagem com noventa anos de História e estórias
sem fim para contar...
É tudo isto que a UPBA deixa escrito em letras douradas. É sobre tudo isto que a nossa consciência nos alerta quanto ao futuro desta nobre
instituição.
Miguel Torga, amigo de Alberto Martins de Carvalho, citava vezes sem
conta, segundo Fernando Vale, amigo dos dois, a
seguinte frase:
"Quem faz o que
pode, faz o que deve"!
Durante
noventa anos, os associados e amigos da UPBA fizeram o que “devia ter sido feito”
para bem do Barril de Alva e das suas instituições.
Os tempos não sopram de feição para o associativismo. A UPBA vai mantendo
a dinâmica possível graças à devoção de alguns seguidores de AIACO, como o
presidente TONECAS, a quem faço vénia, e a todos os seus colaboradores mais
próximos, pelo esforço e dedicação à causa comum – infelizmente, ”AIACOS”
contam-se pelos dedos de uma mão, lá como cá…
Com o mesmo espírito solidário, alguns de nós, já entrados na idade, e
outros ainda com o ”sangue na guelra”, estamos prontos para manter acesa a
chama da UPBA, que tanto deu de si ao Barril de Alva. Agora, é a nossa vez de
citar Miguel Torga:
"Quem faz o que
pode, faz o que deve"!
Enquanto houver vida e a União e
Progresso do Barril de Alva plantar uma árvore, não se apagam as memórias e cresce
o Parque
UPBA na margem direita do rio Alva, junto à ponte.
Avivando memórias: foi
exatamente aí, no Parque de Merendas, que a União e Progresso se “emancipou” e
contraiu “matrimónio” com o Barril de Alva!
- É o que diz a História!
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CAR – 17 de maio de 2025








