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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Memórias de Moçambique: A Viagem de um "Homem Inteiro"




Possivelmente não faz sentido “voltar a Moçambique” apenas com imagens da recruta da especialidade IOR (Informações, Operações e Reconhecimento) do ano de 1966. Vivi intensamente esse curso, e alguns dos conhecimentos adquiridos foram aplicados na área da “Ação Psicossocial” junto das comunidades locais — sem tiros ou qualquer outro tipo de violência.

Recordo esse tempo de “bem-fazer” ao serviço do Exército Português com um certo orgulho. Os meus oitenta “outonos”, de quando em vez, recuperam a nostalgia da minha vivência juvenil no Bairro da Malhangalene e os tempos em que me senti um “homem inteiro” em Moçambique. É por isso que faço da minha “tropa” um motivo para uma “nova viagem” à nossa terra amada.


Junto  a Boane

Vila Cabral, Niassa - “Ação Psicossocial”



terça-feira, 21 de outubro de 2025

Bob Woodcock - o "maior" daquele tempo

"Night Stars"
Tempos atrás reencontrei no Facebook um dos meus cantores preferidos, com quem privei de perto algumas vezes durante as "festinhas" na bonita e saudosa cidade de Lourenço Marques.
Aproximei-me do "melhor grupo" de Moçambique pela mão do Carlos Alberto, conhecido como "canguru", baterista de vários grupos, mas foi no "...conjunto Night Stars, uma famosa banda musical que se formou em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, nos anos 60... " que se destacou, como o BOB, o "vocalista", de seu nome Roberto Winston Woodcock, de quem vos falo com estima e amizade e a quem envio um forte abraço.
Para ficarem a conhecer um dos meus cantores preferidos, façam o favou de clicar no vídeo que segue...
* Lembrar ainda o Mário, um "mago" na guitarra, o Alex, o Guita e Sousa...

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Placebo para a nostalgia



Houve uma conversa de ocasião sobre velhice com um prestador de serviços, 
gentil e assertivo como sempre.
Sobre a minha vetusta idade e o futuro 
- esse desconhecido com maus presságios, medos e inseguranças de quem se “preocupa” com o amanhã sonhando outonos… como se fossem de primavera – 
o parceiro da tarde foi redondo no truísmo, ao estilo de La Palisse:
-Você está velho – nota-se no que escreve, sempre o passado, o passado… e as pessoas estão-se marimbando para o passado (…).

Respondi de supetão, sorrindo:
- Sim, estou (quase) velho, assumo, o que me alegra, apesar de algumas aflições, próprias do grau e qualidade de qualquer ancião.
Se a memória não me falha, citei Gabriel Garcia Márquez, que escreveu sobre o avanço da idade no homem maduro:
- "...as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e continuamos a ver-nos de dentro como sempre tínhamos sido, mas os outros vêem-nos por fora...".
Pois, é isso – o (meu) “espelho é traiçoeiro”!
*
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o envelhecimento é classificado em quatro estágios:
 
-Meia-idade: 45 a 59 anos
-Idoso(a): 60 a 74 anos
-Ancião: 75 a 90 anos
-Velhice extrema a partir dos 90 anos
 
Portanto, faço parte do grupo de anciãos com direito a alguns privilégios, de acordo com PRINCÍPIOS DAS NAÇÕES UNIDAS PARA AS PESSOAS IDOSAS:
(…) 8 - Os idosos devem ser tratados de forma justa, independentemente da sua idade, género, origem racial ou étnica, deficiência ou outra condição, e ser valorizados independentemente da sua contribuição económica. (https://gddc.ministeriopublico.pt/sites/default/files/princ-pessoasidosas.pdf)
- É pedir muito?
*
“-Você está velho – nota-se no que escreve, sempre o passado, o passado(…).
De facto, quando alinhavo venturas e desventuras de “ontem”, as estórias de trazer por casa são um placebo para a nostalgia, que é um sentimento sublime – será?
… Estou mesmo a ficar velhote.



quinta-feira, 25 de abril de 2024

O dia 25 de Abril de 1975 (também) foi uma “espécie de arco-íris” ...

 


Em Abril de 1975 residia em Moçambique, na cidade de João Belo, Xai Xai, capital do distrito de Gaza, exercia as  funções de  gerente comercial numa das maiores empresas do setor, e tinha sido eleito secretário da Associação de Desportos  do Distrito de Gaza.

A revolução “dos cravos”, foi recebida com euforia  em Malehice, Chibuto, Distrito de Gaza, de onde era natural Joaquim Chissano.

Em João Belo, e nas outras localidades, a maioria da comunidade europeia partilhou com agrado a satisfação da população africana pelo primeiro passo para o fim da luta armada e consequente independência de Moçambique, como era o desejo de quem aí tinha nascido e de muitos outros que, pela paixão do amor, tinham adotado  aquela terra  como sua. Era o meu caso!

Dias depois  do 25 de Abril de 1975, em nome dos proprietários da Casa Fonseca e dos seus funcionários, subscrevi um telegrama endereçado a Joaquim Chissano, que ocupou a função de Primeiro-Ministro do Governo de Transição até 25 de junho de 1975, data da proclamação da independência de Moçambique; posteriormente assumiu a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros e mais tarde foi eleito Presidente da República.

O texto do telegrama, em síntese,  parabenizava o ilustre conterrâneo pelo seu  empenho no futuro de Moçambique, terra de “todos nós”, independentemente das suas origens, cor da pele, raça e religião.

- O dia 25 de Abril de 1975  (também) foi uma “espécie de arco-íris” ...

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Lateral direito






Para os "rapazes" do meu tempo de Lourenço Marques: esta vem do começo do "reinado" de Eusébio, do Fernando Brassard, Rui Rodrigues, Baltazar, Faruck e outros que vieram para Portugal e aqui fizeram carreira como jogadores da bola. O Brassard era guarda redes, jogou na Académica de Coimbra, os outros "jogavam pelo campo todo", marcavam golos. O meu "azar" foi ter iniciado o que podia ter sido uma carreira "eusebiana" como defesa direito e ficava por ali, raramente "ia à frente"! Aqui para nós: o jeito também não era muito - mesmo assim, "por acidente , fui à frente", e marquei um golo" durante o "brilhante percurso" de um ano na equipa de juniores do Sport, Lourenço Marques e Benfica!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O Dúlio e eu



Arganil é terra de saudade pelas memórias do extinto Externato Alves Mendes, que frequentei durante algum tempo.  
Alguns dos meus antigos condiscípulos permanecem vivos nas lembranças, principalmente aqueles/as com quem partilhei “qualquer coisa” de importante… quando se tem a idade “primaveril” de doze anos: uma paixoneta pela colega mais bonita da turma (natural de Coja), admiração por outra que tinha na “ponta da língua” acertadas respostas para (quase) todas as perguntas dos professores, alguns professores,  o “pessoal” da bola…
Fintas, chutos e golos de levantar o “público dos estádios” do Argus  e do União..
Que tempos aqueles!
Certa vez, como mostra a fotografia, os minorcas do primeiro ano alinharam com oito garbosos e "talentosos atletas", e a equipa do quarto ano com seis matulões “pés de chumbo”… convencidos de que, por serem “grandes”, tinham a vitória “no papo” - e “deram dois (jogadores) de avanço”!
… Do árbitro e seus ajudantes não há memória. Sobre o resultado da jogatina também não…
O Dúlio Pimenta é um rapaz do meu tempo – desse tempo do Colégio Alves Mendes. É dos poucos com quem mantenho ligação afetiva por questões profissionais e políticas. Um dia destes, depois de uma temporada sem conversas, caímos literalmente num abraço… na caixa de um supermercado. Um espetáculo “nunca visto”!
- Como a “Quinta do Urtigal”, no Barril de Alva, aos domingos serve um “cozido à portuguesa” de “comer e chorar por mais”… temos de pôr a conversa em dia, amigo Dúlio.
-
*As "equipas". Na primeira fila, da esquerda para a direita: Mateus, José Almas, Rui Álvaro, Constantino Ferreira, Adelino Pratas, Carlos Ramos, Zé Morgado, e Jorge Dias. Na segunda fila: Luís Filipe, Carlos Jorge, Mário, Euclides, Cesar e Alfredo (Ilustração da crónica  "Fernando Vale e a bola",   escrita pelo Constantino Ferreira e publicada na "Comarca de Arganil")


quarta-feira, 28 de junho de 2017

"telex" - o jornal

Em 1976 fiz parte de um projeto com "pernas para andar", mas ficou sem as ditas um ano depois...
Os proprietários do telex, o novo semanário, sonhavam alto, tão alto que imaginavam destronar o Expresso!
E como o "sonho comanda a vida", eu (regressado de Moçambique) e mais uma mão cheia de jornalistas de gabarito (José Mensurado, Francisco Máximo, João Carreira Bom, Robi Amorim, Samy Santos, etc, etc...) embarcámos no sonho.
No último fim de semana, às voltas com as minhas memórias em papel, dei com alguns exemplares do telex. Como gosto de mudar coisas, alterei o título do sarabanda, o blog - uma mania como outra qualquer.

sábado, 4 de março de 2017

Os "sete magníficos"

Longos meses tem o ano ...
Faço contas e,  incrédulo, concluo  que há mais de uma década  não partilhava o convívio fraterno de alguns  amigo, nem  a bebericar um simples café, como aconteceu esta tarde.
Do combinado encontro de hoje, vieram os abraços dos  "sete magníficos" Carlos Dias, Rodrigues Gonçalves, Jorge Passos, Francisco Garcia, Manuel da Costa, Alípio de Melo e Manuel Casimiro. Sem reservas, livres e de bons costumes, partilhámos memórias  e conversas de ocasião, recordámos os ausentes  e ficou a promessa  de que, não tarda, havemos de prolongar outra tarde, a começar  pelo almoço tertuliano e os "rituais da ordem" à sobremesa...

domingo, 29 de janeiro de 2017

A "medronheira" da mãe Natália

Nas feiras de artesanato degustam-se doces e pinguinhas de licores caseiros.
Certa vez, o artesão da deliciosa  aguardente de medronho, afiançou que apanhava os frutos silvestres nos "...montes do Barril"! 
- No Barril de Alva? - perguntei.
- Sim, quando se vai para Lourosa - esclareceu.
- Ah, seu "malandro", que me vai ao Calvino! - disse eu, com aparência de zangado.
Como resposta, veio o sorriso simpático e um desconto na garrafa de "sete e meio" do precioso líquido... 
Talvez pelas características do solo, o medronheiro bravo nasce e cresce em determinadas zonas e em áreas reduzidas. O Calvino é um desses espaços bem definidos: mato, pinhal e ...medronheiros. É aí que a minha família possui um extenso terreno. 
Há mais de vinte anos, num "cofre forte",  guardo reservas da minha aguardente favorita, fruto do trabalho e saber da mãe Natália que, se fosse viva, no próximo dia 1 de fevereiro  seria uma "jovem" com 91 primaveras.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"Cinderelas"



Uma das prerrogativas de quem guarda memórias é ter saudade de qualquer coisa, de alguém, de um tempo. Se ouço um fado de Coimbra – um que seja - tenho saudade das serenatas que, durante um ano letivo, me libertavam do sono, noite após noite, porque tive a sorte de morar num apartamento paredes-meias com uma "república" feminina – era por elas, as residentes do segundo andar, que os estudantes faziam trinar as cordas das guitarras e sobressair as vozes potentes, entoando melodias românticas: eles, “perdidamente apaixonados”; elas, “…bate, bate coração/ louco, louco de ilusão…”, quais Cinderelas que o Carlos Paião havia de imortalizar anos mais tarde.
Algumas pessoas, como o Paião, deviam ser eternas, não pelas memórias que guardamos de si, mas “vivinhas da silva”, em carne e osso, para podermos, nós e as gerações seguintes, usufruir do seu talento.

(Imagem surrrupiada da net,com a devida vénia...)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Beija - flor


(...) O Brasil é um país que me seduz por múltiplas razões.
“Sei” de um colibri que suga o néctar das flores pairando no ar com as asitas em frenética velocidade, como todos fazem; este rodopiou uma, duas vezes à volta da “primavera” e quase a beijou, como se fosse flor. Será – é! – uma imagem romântica, como outras que poderia surripiar da obra do poeta Mário Quintana, por exemplo, mas basta esta para ilustrar a poesia do gesto.
Obviamente, não é só o “beija-flor” que me fascina naquele país irmão. Pouco amante da arte do samba, prefiro a dança do futebol, aprecio a paisagem “africana” de que tenho saudade, e o quentinho do clima – outra saudade, agora ainda mais sentida pelo contraste do frio que vai fazendo por cá (...). 
- Saudades da “primavera” brasileira, isso sim!
*
Pedaço da croniqueta  publicada  em março de 2009, intitulada "Insónias e Pesadelos"

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

...Foi então que descobri Coimbra

(... ) E havia o campo de futebol, bem junto ao jardim da Sereia, o Santa Cruz, para onde corria sempre que a ausência de um ou outro professor o permitia. Se havia jogo combinado, aprendi com os outros: fazia gazeta à última aula!...
Na casa ao lado daquela onde morava,  rua Dr. João Jacinto, havia um lar de raparigas, das crescidas, adiantadas nos estudos. Certa noite, acordei com o som das guitarras; depois, uma voz timbrada de homem feito trouxe aos meus ouvidos estranha melodia . Foi então que descobri Coimbra nunca vista pelos olhos da alma de um "puto"de dez anos, nascido e criado na aldeia...
-
Excerto do texto publicado em maio de 2012

domingo, 24 de janeiro de 2016

Bilene dos meus amores...

Cansados do inverno? Um saltinho  à terra  dos meus amores, Bilene, em Moçambique ( logo ali, "a dois passos" de Maputo), é o "remédio santo" - bem melhor do que caldos de galinha: cura viroses, enxaquecas, gripes e afins, neuroses, borbulhas,.... a saudade! Não esquecer  o fato de banho...


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

"Esta palavra saudade"...

Ilha de Moçambique

A saudade é um “sentimento” semelhante ao amor, paixão ou ódio ?

Será (a saudade) sinónimo de nostalgia?
Leio no dicionário que tenho à mão : saudade - sentimento melancólico causado pela ausência ou pelo desaparecimento de pessoas ou coisas a que se estava afetivamente muito ligado, pelo afastamento de um lugar ou de uma época, ou pela privação de experiências agradáveis vividas anteriormente; nostalgia - sentimento de tristeza motivado por profunda saudade, especialmente de quem se sente estranho, longe da pátria ou do seu lar.
Diz o escritor checo Milan Kundera, a propósito da nostalgia e da tristeza : “(…) Para esta noção fundamental, a maior parte dos europeus pode utilizar uma palavra de origem grega e, além disso, outras palavras com raízes na sua língua nacional: añoranza, dizem os Espanhóis; saudade, dizem os portugueses. Em cada língua, estas palavras possuem um matiz semântico diferente…”.
Ora, de longe, o prestigiado Kundera aproxima-se com realismo do “fado português” (com toda a carga poética que lhe queiramos transmitir) e da palavra saudade que, segundo alguns tradutores britânicos, está classificada em sétimo lugar na tabela das mais difíceis de traduzir! Temos outra com as mesmas características?
Para os nosso irmãos de Cabo Verde, ficou sodade, ou sodadi, tal a influência linguística, e é assim, com sodade, que os emigrantes cabo-verdianos sentem a ausência, tal como nós, da Pátria, da família, dos amigos, dos cheiros e sabores, paisagens – de tudo o que existe na memória, até dos sonhos!
De Moçambique guardo cheiros, sabores, gentes, paisagens – tudo o que existe na minha memória, até os sonhos!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

David Bowie: "um trabalho de arte"

David Bowie

A notícia chegou de chofre, fora de tempo para incluir no meu "cestinho de cerejas" a saudade David Bowie. Melhor assim - os fãs incondicionais ganharam mais algumas  horas de ilusão: seria eterno? Diz quem pensa saber o bastante sobre desígnios do destino, que o génio "adivinhou" o ponto final da sua existência terrena, deixando-nos  'Blackstar'  como prenúncio do último adeus. 
"A morte dele não foi diferente da vida dele - um trabalho de arte", disse o seu amigo Tony Visconti. Paz à sua alma...

sábado, 9 de janeiro de 2016

Cestinho de cerejas

Uma das prerrogativas de quem guarda memórias é ter saudade de qualquer coisa, de alguém, de um tempo. 
Se ouço um fado de Coimbra – um que seja! – vem a saudade das serenatas que, durante um ano letivo,  ausentaram o meu sono noites sem conta. Ao lado da casa onde morava havia uma república feminina – era por elas, as meninas  do segundo andar, que os estudantes faziam trinar as cordas das guitarras e sobressair as vozes potentes, entoando melodias românticas: eles, “perdidamente apaixonados”; elas, “…bate, bate coração / louco, louco de ilusão…”, quais Cinderelas, que o Paião havia de imortalizar anos mais tarde.
O Carlos Paião - algumas pessoas, como o Paião, deviam ser eternas, não pelas memórias que guardamos de si, mas “vivinhas da silva”, em carne e osso, para podermos usufruir do seu talento com deleite. Por exemplo: “apetece-me” ter saudade do Elvis Presley e da sua música Gospel com que enfeitei a minha juventude. O Elvis nunca deveria ter “entregue a alma ao Criador”, depois dele foi o vazio; apareceram cópias sem importância de maior, o “rei”, na verdade, era – e continua a ser – “único”!
Outra saudade: o “divino” Michael Jackson “abandonou o barco” sem um adeus! O choque foi brutal, até para mim que sou mais Elvis do que Michael, e muito mais Paião do que os outros dois. E outros da arte de cantar como Amália, Vasco Rafael, Cândida Brancaflor, que me chegam à memória de uma vez só…
Citei o Carlos Paião: “apetece-me” (também) ter saudades dele por razões que vão para além do talento do músico, poeta e intérprete: como eu, ser adepto  do Benfica!
Já se sabe que as saudades, quando arrumadas num cestinho, são como as cerejas: atrás de umas, vêm outras...
-
Texto adaptado de uma croniqueta publicada em julho de 2009

domingo, 29 de novembro de 2015

“Grande é a poesia, a bondade e as danças..."

... "Mas o melhor do mundo são as crianças…" (Fernando Pessoa) 


Um dia, a Margarida contou-me que o infante Guilherme só comia peixe se este lhe aparecer no prato, inteiro, da cabeça ao rabo - recusa-se a ingerir qualquer posta de “peixe mutilado”, que é como quem diz, na sua imaginação, retalhado aos pedaços, grandes ou pequenos. Mas do que o Guilherme não gosta mesmo nada é de “morangos mortos” nos gelados ou nos iogurtes ...
Uma vez, um dos meus filhos, o Carlo, resolveu semear um caroço de laranja num dos vasos com plantas
que ornamentavam a entrada do prédio onde habitávamos; a sua maior preocupação era, no futuro, o crescimento da árvore e os frutos que haviam de nascer - certamente os vizinhos iriam “roubar as suas laranjas” ...
Já o Hugo, quase a terminar a primeira parte de um jogo de futebol, farto de tanto pontapé numa bola, sem um golinho  dos "nossos", questionou:
- O jogo muda aos "quantos"?....



domingo, 22 de novembro de 2015

Sonhos do profeta com que me fiz



Guardo a recordação de largos minutos de conversa sem rumo certo, embora o motivo que nos levou à fala fosse de importância coletiva, de toda uma comunidade. 


Sem soluções no imediato, limitei-me aos argumentos de ocasião e fui deixando a promessa do meu empenho em levar a bom porto as justas reivindicações das duas senhoras, uma de cabelos da cor da neve, a outra com eles quase grisalhos.

Com a atenção dividida pelas duas, nem dei conta do tempo passar...

As conversas estavam servidas numa taça Lalique, como as cerejas à sobremesa; foi por isso que a uma se seguiu outra, e outra, e outra! Desfrutei, pois, o momento que era único - será único, digo eu, porque faço de profeta quanto ao futuro.

Horas depois, agora, noite alta a entrar na madrugada, continuo com a agradável sensação de que, como a Samaritana, que Coimbra canta, ( “… que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte”) , também eu fiz bem em aceitar a conversa “…a las cinco de la tarde”, (apetece-me citar Garcia Lorca pela coincidência da hora e não pelo conteúdo do poema!…) – e vou trauteando o fado coimbrão, cuja mensagem bem pode ter alguma analogia com o que me vai no pensamento  se uso o adjetivo “plebeu" e o associo à “redentora” de cabelos grisalhos – não por ser quem é ou pela imensidão do sorriso que redimiu o meu dia, mas pelo efeito circunstancial de me deixar acordado na sensação agradável… de um fado!

Grave, grave, é imaginar que o sono tardará, e quando vier… talvez carregue sonhos do profeta com que me fiz na estória. 

Como tomo umas quantas pílulas para manter o equilíbrio entre a “mínima e a máxima”, o ritmo cardíaco deve estar “normalizado” pela manhã, mas nunca fiando!

… Pelo sim, pelo não, uma médica à distância de uma consulta vinha mesmo a calhar!

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Mia Couto - "Mulheres de Cinza" ( ..."onde moram os feitiços")

Tenho à cabeceira  "Mulheres de  Cinza", de Mia Couto - muito mais do que um escritor universal, no meu conceito de, medulamente, o identificar como parte de mim. "Medulamente", sim - é seu o termo com que me honrou, autografando "A Confissão da Leoa", em 2012,  como um dos seus. 
Assim, somos gente dos mesmos lugares...
Mia Couto é  o instantâneo de uma viagem com  este "...primeiro livro de uma trilogia moçambicana". Preto no branco, em "Mulheres de Cinza", regresso a Inhambane, Inharrime, Marracuene...
Mia Couto enfeitiça-me com as palavras. Falta "olhos nos olhos" para confirmar, como diz, que é "... aí que gostam de morar os feitiços".