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| Lourenço Marques, 1970 |
Sou reformado e tenho 80 anos. Tenho tempo — e aprendi a
gostar de o usar à minha maneira.
Leio e escrevo. Não por obrigação, nem com a preocupação
de me tornar mais erudito, de saber mais ou de provar alguma coisa a alguém.
Faço-o por prazer, por curiosidade e, sobretudo, porque gosto de contar
histórias.
Sou, afinal, um contador de histórias.
Tenho este blogue, “Estórias de Trazer por Casa”, onde vou
juntando memórias, episódios, pessoas, lugares e acontecimentos, sobretudo da
minha aldeia. Não pretendo fazer História com letra grande. Quero antes
preservar pequenas histórias que, se não forem contadas, provavelmente
desaparecerão com aqueles que as viveram.
A minha aldeia é uma das minhas grandes preocupações. Vou
estando atento ao que nela acontece, à forma como é administrada a coisa
pública e, quando alguém entende que os meus limitados préstimos podem ser
úteis, estou disponível para ajudar. Sem grandes pretensões e sem grandes
cuidados: apenas com a vontade de ser útil enquanto puder.
Também continuo atento ao mundo que me rodeia. À família,
naturalmente, que é a coisa mais importante. Às alegrias — e algumas tristezas
— da vida. Às vitórias do Benfica, que também fazem parte das minhas alegrias.
E à política do meu país, que acompanho com atenção e alguma inquietação.
Gostaria de não ver Portugal entregue à extrema-direita. A esquerda,
entretanto, parece-me já suficientemente enfraquecida para que os receios que
outrora provocava sejam hoje outros.
Cheguei a esta idade trazendo comigo alguns ensinamentos
que começaram muito cedo.
A minha mãe Natália e a minha avó Virgínia ensinaram-me,
quando era criança na minha aldeia e depois adolescente em Lourenço Marques,
coisas simples que ficaram para a vida: honrar a família, aprender, estudar,
ser honesto e trabalhador.
Mais tarde, em Lourenço Marques, o destino colocou no meu
caminho Agostinho Vilaça, uma espécie de tutor, que me ensinou, entre outras coisas, que nunca esqueci:
“o pecado era — e é! — a minha consciência!”
Talvez seja essa a minha verdadeira regra de vida.
Honrar a família. Ser honesto. Dedicar-me ao trabalho.
Aprender aquilo a que me dedico, umas vezes pelo estudo, outras pelo empirismo
pragmático da vida. E, sobretudo, obedecer à minha própria consciência.
Caí e levantei-me muitas vezes. “Renasci” em 1975 quando
eu e a família regressámos a Portugal. Continuei a cair e a levantar-me. Voltei
a “renascer” em 2007 depois de um enfarte agudo do miocárdio, felizmente sem
sequelas.
Foi então que percebi que o meu lado espiritual era talvez
muito mais profundo do que qualquer crença religiosa.
Acredito em Deus?
- Sim, no Deus de Spinoza.
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| Família -7 de novembro de 2025 - aniversário |
E continuo por aqui: a ler, a escrever, a observar, a
recordar, a pensar, a preocupar-me com os meus e com a minha terra — e,
enquanto tiver vontade e memória, a contar histórias.
Porque talvez seja isso que faço melhor: conto histórias
para que as pequenas coisas da vida não desapareçam sem deixar rasto.