quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Memórias de um "Cokuana": entre a nostalgia e o presente



Dezanove "anitos de bom rapaz"😄
Não sei bem como definir os sentimentos que nos invadem quando partilhamos memórias. Agora que chegámos à idade dos "cokuana", confesso que o que me move é a curiosidade: o desejo de descobrir quem se junta a nós nos comentários de cada post e a esperança renovada de reencontrar pessoas do meu tempo.
Procuro por aqueles que cruzaram o meu caminho na JOC da Malhangalene, nos campos de futebol, ou nas tardes e noites vibrantes dos "Night Stars". Lembro-me com nitidez das montras da Casa Vilaça, que eu próprio decorava, e de tantas outras andanças da minha adolescência.
Guardo com carinho a memória da minha primeira paixão — cujo nome omito por profundo respeito à senhora que é hoje — e de outros "namoricos" passageiros, como a Amélia, que morava ali junto ao Largo do Minho. Por feliz golpe de sorte, reencontrei a Isolina, com quem partilho agora palavras de ocasião.
A minha geografia emocional passa por ruas e locais que ficaram gravadas na pele:
- Rua do Porto;
- Rua do Caramulo;
- Rua Heróis de Marracuene;
- Avenida de Lisboa;
- Servviço Militar: Maxixe, Inhambane e Vila Cabral ;
- João Belo, depois do casamento.
 Tenho cinco filhos e seis netos. Fiz 80 anos - é "maningue" tempo para um "rapaz" que teima em habitar a nostalgia. As memórias, essas, já as sabemos de cor; o presente, vamos vivendo, cada um à sua maneira. Quanto ao futuro... não vale a pena tentar adivinhar. Sabemos apenas que, um dia, faremos todos uma "viagem para parte incerta", sem bilhete de retorno.
Até lá, deixo-vos sorrisos e votos de saúde. E um pedido: façam o favor de não terem pressa nessa viagem. Cuidem-se.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Retrato à la minuta

 

Jogo  entre equipas  do 1º e 4º anos, no ano letivo de 1958/59
Na primeira fila, da esquerda para a direita, Mateus, José Almas, Rui Álvaro, Constantino Ferreira, Adelino Pratas, Carlos Ramos, Zé Morgado e  Jorge Dias. Na segunda fila, e pela mesma ordem: Luís Filipe,  Carlos Jorge, Mário, Euclides, César e Alfredo

A minha trajetória académica começou entre o Liceu D. João III, em Coimbra, e o Externato Alves Mendes, em Arganil. Foi, contudo, um percurso breve: Moçambique atravessou-se no meu caminho. Já em Lourenço Marques, e após um hiato de um ano longe dos livros, a família tomou as rédeas do meu destino — como era costume — e encaminhou-me para o Colégio Camões e, depois, para o Externado Marques Agostinho.

Com o 5.º ano concluído e a sentir-me um homem feito, decidi afastar-me do "doutor" idealizado pela família. Procurei antes uma formação prática que me segurasse o futuro. Dotado de uma certa inclinação artística, estreei-me como decorador de montras na emblemática Casa Vilaça, antes de ingressar na Aeronáutica Civil como funcionário público, já com o curso de ajudante de guarda-livros na bagagem.

Vivi intensamente esses anos: entre o teatro amador e a militância na Juventude Operária Católica (JOC), o futebol no “meu” Benfica de Lourenço Marques e a escrita na página juvenil do diário Notícias. Colaborei em eventos musicais  com os "Night Stars" e vivi o primeiro amor. Em 1966, aos 21 anos, a história chamou-me e "fui para a guerra". Felizmente, as armas nunca passaram de um adereço: nunca disparei uma "a sério" até aos dias de hoje.

A imagem que junto, é uma saborosa e saudável memória dos tempos do Externato Alves Mendes. Felizmente, alguns dos meus antigos condiscípulos   estão “vivinhos da costa” – para esses, vai um abraço fraterno; dos que viajram  "para parte incerta" ficaram algumas memórias bonitas...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Despertar a curiosidade e valorizar a estética



Por mais voltas que se dê, poucos serão os curiosos a identificar esta paisagem. A razão é simples: ela não existe. Ou melhor, existe apenas no território onde a realidade abraça a imaginação romântica.

Tudo começou com uma fotografia que captei no Largo Alberto de Moura Pinto, no Barril de Alva. Guardei-a até hoje, esta tarde cinzenta de quarta-feira, em que decidi desafiar a Inteligência Artificial a dar-lhe um "toque romântico".

O resultado é este: uma reinterpretação que, a meu ver, justifica um poema. Gostei desta "visão" dos algoritmos. E vocês, preferem o real ou o sonhado?

Largo Alberto de Moura Pinto, Barril de Alva
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Desapego

"Gemini"

 "Quero acreditar que somos capazes de nos reinventar ao longo da vida. Contudo, reconheço que a dificuldade em praticar o bem de forma constante nasce, muitas vezes, de uma falha na resiliência: a incapacidade de esquecer o que nos adoece. Ao mantermos vivas memórias dolorosas, acabamos por nos inibir.

Dos tempos de colégio, guardava uma vaga memória de Nietzsche sobre a felicidade. Ao revisitar A Genealogia da Moral, reencontrei a premissa: '...nenhuma felicidade, nenhuma serenidade, nenhuma esperança, nenhum gozo presente poderiam existir sem a faculdade do esquecimento'.

Hoje, entre incursões ao passado — da adolescência à maturidade de um homem feito de amores, causas e conhecimentos — percebo que o desapego nem sempre é absoluto. As situações menos gratas não se apagam; antes, lançam pontes que ligam as margens do presente e do passado sobre um rio agitado de memórias. Concordo com Nietzsche: sem a arte de esquecer, o presente perde o seu brilho.

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O sonho de Durban




 Foi em Durban, na África do Sul, que me deixei fascinar pelo conceito de café-concerto: um palco pequeno, alguns instrumentos à disposição e uma atmosfera de liberdade. Naquela noite, vi um homem sentar-se ao piano e deixar fluir um som que beirava o Jazz. Logo depois, um rapaz saltou de uma mesa, assumiu a bateria e, após trocarem breves palavras, acertaram o passo.

O meu grupo levava apenas a intenção de "tomar um copo", mas o momento musical prendeu-nos. Mais dois voluntários subiram ao palco e dedilharam as violas a preceito. Entre aplausos e boa disposição, a cerveja circulava pelas mesas de um espaço que, embora razoável, estava praticamente lotado.

Aquele bar tornou-se a semente de um sonho: criar um negócio de entretenimento para um público específico. Naquele tempo, aos meus 18 anos, Lourenço Marques não oferecia nada semelhante. Tínhamos músicos excelentes e grupos famosos, como os "Night Stars" ou "Os Corsários". Eu era fiel aos primeiros — pela amizade com o baterista Carlos Alberto "Canguru", pelo som que o Mário Ferreira "sacava" da guitarra elétrica e pela voz fantástica do Bob Woodcock, ao melhor estilo de Chubby Checker.

Fiz-me à vida como um self-made man: do teatro ao desporto, de vitrinista a funcionário público, passando pelo serviço militar na Ação Psicossocial. A Revolução dos Cravos empurrou-me para a Mãe Pátria. Entre voltas e reviravoltas — e a necessidade de sobreviver — o gosto pela escrita tornou-me um jornalista a tempo inteiro, e a vida acabou por me devolver à música como organizador de espetáculos.

Mas o sonho de Durban permanecia vivo. Em 1999, ganhou corpo e nome; dele fiz morada, rumo e promessa. Nasceu o RiTuAL Bar, em Oliveira do Hospital.

“A vida, porém, nunca pede licença. Em 2008, mudou o curso do rio. O brilho recolheu-se, como o sol que se esconde atrás de nuvens densas, e a existência ficou suspensa num intervalo sem nome”

domingo, 21 de dezembro de 2025

"Em Casa d'Amália" - Fado ao serão

 

Lina



Por vezes, “vou aos fados” às sextas-feiras sem sair de casa. Faço-o comodamente instalado numa poltrona, no aconchego da sala, com a lareira acesa e uma bebida quente como companhia.
A RTP cumpre com distinção o seu papel ao oferecer estes serões dedicados à nossa música nacional — um dos maiores símbolos culturais do país e Património Cultural Imaterial da Humanidade. Ainda bem que assim é.
Quem aprecia o género encontra no programa argumentos para todos os gostos: desde a vertente mais tradicionalista até às estéticas mais vanguardistas. Foi o que aconteceu na última sexta-feira, na Casa d’Amália, num serão que reuniu as vozes de Lina e Maria Ana Bobone, a guitarra de Pedro Viana, o piano do espanhol Marco Mezquida e o talento multifacetado da russa Ianina. Desde 2020 que José Gonçalez se afirma como o anfitrião de excelência; a sua longa experiência ao serviço da cultura e do fado é a garantia de qualidade de que o formato precisa.


*** Imagens do programa da RTP, com a devida vénia

domingo, 7 de dezembro de 2025

Papillon

 "...Podia rebobinar “outros filmes” desse tempo em que  os sonhos tinham asas de condor e voavam"



A tarde deste sábado foi talhada à medida das minhas preferências outonais: chuva moderada e frio suportável lá fora, dentro de casa a lareira acesa – além do calor, o crepitar da lenha a arder é uma excelente companhia. É bom de ver que, num dia assim, uso o “fato dos octogenários”, de trazer por casa – prevenir é o melhor remédio, não estou nem um pouco interessado numa gripe,  das que aconselham uma ida às urgências da Unidade de Cuidados de Saúde Primários de Arganil, no mínimo.

Aconchegado o corpo, aproveito e alimento o espírito com música. Para começar Nat King Cole, figura indelével da minha adolescência, como Nana Mouskouri, por exemplo – roda a seguir, o LP está à espera de vez. Entretanto, passo a vista pelas  notícias do dia, desligo o portátil e ligo a TV – são tantas  as ofertas disponíveis mas  nenhuma seduz o meu estado de espírito, talvez um filme, quem sabe… talvez , talvez …

Leio o título :“Papillon”! Já vi o filme - conheço a história pela  leitura do livro, adquirido em 1970 (?) na Livraria  Académica, em Lourenço Marques,  a minha livraria preferida desde os verdes anos, quando a Mariana balconista me deu voltas  à cabeça. Foi na Académica que adquiri grande parte da obra de Alves Redol e de outros autores portugueses, alguns estrangeiros. Foi na Académica que descobri Mário de Sã Carneiro, autor de “Fim”, o poema que, vá lá saber-se  porquê , “mexeu”  com as minhas inseguranças existenciais…

Fico na TV e  revejo  a "fita",  baseada na autobiografia do condenado francês Henri Charrière . A história é dramática, pesada - não é um tipo de cinema do meu agrado, mas… “Pappilon” tem muito a ver com as memórias da minha adolescência. Podia rebobinar “outros filmes” desse tempo em que  os sonhos tinham asas de condor e voavam…


sábado, 6 de dezembro de 2025

Carlos Gouveia - um dos nossos!

  Anos atrás, no jornal "Correio da Beira Serra", assinei uma rubrica denominada "Figuras". Certo dia reencontrei um jovem conterrâneo, com origens no Barril de Alva e no Pinheirinho, como eu. Da conversa breve publiquei o "retrato escrito" do Carlos Gouveia - prometeu e cumpriu!

Vénia ao Carlos pela sua sensibilidade estética, como se verá em breve...



sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Olga Cardoso na Filarmónica Barrilense - gentilezas que não se esquecem

Lenita Gentil e Olga Cardoso
no sarau da SFB
                                                           


 A "amiga" Olga "viajou para parte incerta"


A Sociedade Filarmónica Barrilense comemorou o 101º aniversário nos dia 4 e 5 de novembro de 1995 com pompa e circunstância.
O multifacetado serão do dia 4, além da eleição da “MISS S.F.B.” juntou no palco as cantoras Manuela Bravo, Lenita Gentil e a grande senhora da Rádio, Olga Cardoso, desta vez como intérprete de duas canções inéditas: “O Último A Rir” e “ Bom Dia (Amor)”, single gravado no ano anterior, 1994.
A grandeza do espetáculo superlotou o enorme salão multiusos da coletividade.
Se a talentosa Manuela Bravo, na época, fazia parte da “família barrilense", a grande fadista Lenita Gentil era figura de proa, a que se juntava Olga Cardoso, a “amiga” Olga, que a Rádio Renascença popularizou, e mais tarde a TVI consagrou.
Olga Cardoso, naquela noite, fechou o espetáculo depois das duas horas da madrugada; no camarim, sem dar nota do incómodo pela longa espera, a dado passo manifestou o receio de “… as pessoas, às tantas vão para casa – é tão tarde!”.
Mal sabia a minha querida amiga Olga que o público (também) estava na festa… para a ouvir cantar, o que raramente acontecia!
Deve ser dito que, tarde na noite, Olga Cardoso foi a “grande vencedora” do magnifico serão, com o público de pé, manifestando-lhe carinho com a constância dos aplausos.
Naqueles tempos, os artistas de renome e outros menos conhecidos mas de reconhecido valor artístico que participavam nos espetáculos organizados pela Filarmónica Barrilense, prestavam os serviços profissionais “pro bono” (gratuitamente), dadas as circunstâncias da instituição necessitar de fundos para fazer face às despesas da manutenção das suas imponentes instalações - únicas ma região! - e aquisição de instrumentos.
As notícias da “viagem sem retorno” da “amiga Olga” citaram com pormenor as suas virtudes – faltou acentuar que Olga Cardoso era uma mulher solidária, de palavra franca e assertiva…
Como “Os Barrilenses são Assim”, ficava de mal com a minha consciência se não trouxesse a público esta “estória de trazer por casa” com a intenção de uma vénia a uma senhora que muito estimei e admirei.
- Obrigado, “amiga” Olga!
Carlos A. Ramos






quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Mães "foram duas"!

 



Graças à IA foi possível recuperar esta fotografia da minha "segunda mãe" - a avó Virginiia, que me ajudou a ccrescer "por dentro e por fora" com ensinamentos sobre a honra , seriedade e benevolência nas palavras - os mesmos da mãe Natália.

Ao longo de toda uma vida procurei seguir os seus conselhos - é por isso que, aos oitenta, continuo "de cabeça erguida", sempre que possível com um sorriso no rosto. rodeado pela melhor "família do Universo" !