quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Bodas de Ouro com "Glamour à Mesa"



Quando se avança na idade e se opta por um recolhimento no silêncio, longe dos convívios sociais que cansam e obrigam a gentilezas seja qual for o estado de espírito, é natural que, ao participar num evento organizado com requinte — como foi o caso do convite para partilhar da felicidade dos amigos Carlos Leal e Helena —, sejamos surpreendidos pela cordialidade reinante entre os convivas, na sua maioria desconhecidos.

As memórias da juventude do casal Helena e Carlos Leal continuam profundamente enraizadas e ligadas à paisagem imutável da aldeia, ao curso do rio Alva e às fragas de xisto que definem o território. As datas marcantes das suas vidas também o estão — como aquele dia em que decidiram juntar oficialmente “os trapinhos” e disso deram fé na Igreja Matriz do Barril de Alva. Cinquenta anos depois, entenderam que a data merecia honras de celebração digna. E assim foi, para regalo de familiares e dos amigos mais chegados.

Uma festa assim pede cuidados acrescidos na organização, incluindo nos “comes e bebes”! É por aqui que faço um “saboroso” desvio gastronómico a esta croniqueta de “trazer por casa”, para enaltecer o serviço da empresa Glamour Catering, sediada em Arganil. Comida excelente, confecionada no momento com apurada competência e sem temperos nem a mais nem a menos, somada à gentileza de quem a serviu e à amabilidade dos proprietários, foram os ingredientes que nos deixaram a todos plenamente saciados.

Helena e Marco Lopes
Glamour Catering
Muitos parabéns pelo serviço, a condizer com o glamour da festa e, já agora, com o magnífico salão de festas (e com a sua espaçosa e funcional cozinha) da Associação Filarmónica Barrilense, batizado com o nome do fundador da instituição: José Monteiro de Carvalho e Albuquerque.


 



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O DIA SEGUINTE


A alegria de quem participou no evento das Bodas de Ouro da Helena e do Carlos Leal será, por certo, lembrada por muito tempo: os pormenores dos "miminhos" com que os convidados foram presenteados, o convívio salutar, o serviço de catering, a animação... tudo perfeito!

A cerimónia religiosa foi, na verdade, a "cereja no topo do bolo". Destacaram-se as palavras de excelência do nosso Padre Albino, a harmoniosa participação do coro e as comoventes intervenções musicais da "nossa" Cláudia Leal, que tocaram a sensibilidade de todos os presentes.

No dia seguinte, quem teve disponibilidade temporal visitou a Casa-Museu do Barril de Alva, prolongando a convivência num ambiente calmo e cultural. Foi o remate perfeito para um fim de semana inesquecível, onde o amor, a família e a amizade brilharam em cada momento. Parabéns ao casal por estes 50 anos de vida em comum!

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Barril de Alva - a cor e o tempo


Por mais que os meus olhos vejam e o coração sinta os encantos da minha aldeia, Barril de Alva, nada me cansa. Há, porém, um cansaço subtil — aquele que nasce da contemplação do desgaste do património, público e privado, que o tempo insiste em consumir. A Natureza, essa não se rende: surpreende-me diariamente com as múltiplas nuances da sua paleta. Basta estar atento para perceber que ela nunca se repete.

À medida que a minha viagem no tempo se aproxima do seu final, sinto que é justo alimentar o espírito, a alma, a mente — seja lá o que for que permanece, se permanecer, para além do desenlace do corpo. Não possuo dons que garantam eternidade a coisa alguma; por isso, enquanto a lucidez me acompanha, repito com Descartes: "penso, logo existo".

E penso, sim, em como seria belo ver a minha aldeia pujante de vida, vestida com as tonalidades do arco‑íris, segundo a Estética do Belo de Hegel: “O belo artístico criado pelo ser humano é superior ao belo natural, pois resulta do pensamento e da consciência espiritual, tornando-se uma expressão mais real da verdade do que a própria natureza inata.” Se o belo artístico é fruto da consciência, então o meu desejo é simples: que Barril de Alva volte a ser obra consciente, cuidada, pensada, amada — e não apenas cenário entregue ao tempo.

Nas horas paradas dos meus dias, leio e escrevo. Procuro identificar-me — ou afastar-me — daquilo que existe para além do espaço físico das minhas deambulações, onde pouco ou nada acontece de extraordinário. Leio por isso, e por mais nada: entretenimento mental, sem ambição de saber mais, salvo o mínimo necessário para dominar os aconchegos — sempre lúdicos — deste vasto mundo da Inteligência Artificial.

A IA fascina-me ao ponto de eu responder com um “obrigado” quando os algoritmos reconhecem padrões e melhoram o meu desempenho semi‑analfabeto nestes oceanos onde, admito, posso naufragar. Com algum tento, porém, posso sobreviver no meu pequeno paraíso — o Barril de Alva — rodeado de beleza infinita, ao estilo de Roque Gameiro, o maior aguarelista português.

"Penso, logo existo". E existo melhor quando a imaginação pinta o que a realidade ainda não alcançou.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A vaidade em mim


Peço licença para escancarar a porta do meu ego e permitir a quem o desejar — talvez movido pela curiosidade — entrar numa das vaidades que mais prezo: a que sinto pela minha terra natal.

Tenho outras vaidades, é certo — a família que a vida me deu, a companheira que escolhi quando a solidão se tornava mais pesada e o percurso de uma existência feita de resiliência.

Hoje, a minha vaidade tem um nome: Barril de Alva.

Não me canso de contemplar a imagem da Praça Dr. Alberto Martins de Carvalho. Há nela um enquadramento perfeito e uma beleza rara, capaz de prender o olhar e despertar a emoção. Orgulhosamente barrilense, orgulhosamente arganilense, atrevo-me até a desafiar quem quiser encontrar um reflexo fotográfico que traduza, com maior fidelidade e encanto, a alma da terra onde nasceram os meus conterrâneos.

O meu ego insiste em transformar em palavras o amor que sinto pelo Barril de Alva. Faço-o de forma simples, sem pretensões. Outros celebraram a sua terra através de grandes feitos; eu limito-me, com a humildade de quem conhece as suas limitações, a preservar e enaltecer as suas memórias.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A "conversa" do João Baião

 


 Os jogos de sorte e azar nunca me deram para o vício. Nem pequeno, nem grande. Vício, dos grandes, durante anos, foi o cigarro — esse companheiro teimoso — intercalado, na minha “idade de armar aos cucos”, com as fumaradas lentas e saborosas dos meus cachimbos. Ainda guardo, como relíquia, uma embalagem virgem de “Clan”, que alternava com o “May Flower”...

Quanto aos jogos da Santa Casa de Lisboa, a relação sempre foi moderada: aqui e ali uma raspadinha das baratas, o Euromilhões para manter a esperança acesa, e pouco mais. “Vamos lá a ver se hoje é o meu dia de sorte” — nunca foi, mas continuo amigo do Jorge, da Vitocális de Côja, que não tem culpa nenhuma de eu não ser bafejado pela fortuna.

Já os concursos televisivos de valor acrescentado… confesso que nunca me seduziram. Por mais simpáticos que sejam os apresentadores — como a dupla João Baião e Diana Chaves — aquelas chamadas insistentes às “donas Maria” e “Etelvina” nunca me convenceram a largar o telefone. “Ligue agora, dona Maria… faça uma pausa no almocinho, dona Etelvina…”, e por aí fora.

Até que, num destes dias de canícula, estava eu resguardado em casa, a televisão ligada na SIC, mas sem grande atenção ao programa, quando o “nosso amigo” João Baião soltou uma das suas tiradas de ocasião:

— “Ó senhor Carlos, deixe lá o computador e faça uma chamadinha… pode ser hoje que a sorte lhe bate à porta. Ligue, já!”

A conversa era comigo? Por acaso, eu estava mesmo com o portátil. E, por acaso, sou Carlos.

Fiz a chamada, como o João Baião tinha “pedido”. Esperei, esperei… e nada. Silêncio. Nem um toque de esperança.

Lá se foram os 3.500 euros, que vinham mesmo a calhar para eu e a Lurdes voltarmos aos Açores. Já me imaginava a aterrar na Terceira com aquele sorriso de quem ganhou a batalha à má sorte.

Mas não. A sorte ficou na SIC.

Isso não se faz, amigo.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A minha terra é uma moldura perfeita...


Barril de Alva, a minha terra natal, padece da maleita invisível que corrói, em silêncio, o peito de todo o interior de Portugal: a lenta agonia da ausência. É um declínio manso, que não faz barulho; acontece na penumbra, no espaço exato entre o último bater de uma porta e o eco vazio que se lhe segue.

Caminhar por estas ruas é pisar a nostalgia. Há um lamento mudo nas paredes de pedra que outrora guardavam o calor das vozes, o rumor dos passos apressados e o riso das crianças que desafiavam o tempo. Hoje, as gentes partiram, e com elas rastejou a própria vida, deixando para trás chaminés frias e janelas que olham o infinito como olhos cansados de esperar.

Ficámos nós, as memórias suspensas no ar e a certeza dolorosa de que a terra só é verdadeiramente viva quando tem quem a sinta, quem a cultive e quem a ame. Sem o seu povo, a minha terra é uma moldura perfeita, mas despida de tela."

terça-feira, 19 de maio de 2026

Por causa de uma dor de dentes...


Mãe Natália, "madrinha de guerra",
uma conterrânea e dois amigos do grupo "Os Metralhas"

 Em 1968, ainda a cumprir a tropa em Inhambane, Moçambique, o médico da CCS (Companhia de Comando e Serviços) deu-me guia de marcha para o Hospital Militar em Lourenço Marques, com a intenção de ser debelada uma dor chata num dos meus dentes. Fiquei por lá durante alguns dias, à espera de vaga na longa lista de internados — alguns com problemas bem mais graves do que uma simples dor de dentes.

Certa manhã, o meu vizinho do lado direito, igualmente acamado, entre uma chalaça e um recado sério, diz-me:

 — Eh, pá, estás todo amarelo! Tens de ir mijar...

Não me recordo da minha reação exata, mas pela certa respondi-lhe com um pequeno palavrão. Ainda assim, fiquei a pensar no assunto. Sem dar nas vistas, fui mesmo à casa de banho... e apanhei um susto tremendo quando o espelho devolveu a imagem dos meus olhos, "pintados" de um amarelo-torrado!

Fim da história: fui apanhado pelo vírus da hepatite. Mudaram-me imediatamente para o isolamento da enfermaria e por lá fiquei, mimado pelas senhoras do Movimento Nacional Feminino e com direito a visitas da família, de amigos e de uma ou outra "madrinha de guerra".

Recuperei e fiquei como novo! E o dente? Foi coisa de que me esqueci completamente. Das "férias", disso não me esqueço mais!

terça-feira, 12 de maio de 2026

Parque U.P.B.A.



(


(Dito  no dia 17 de maio de 2025)

- Senhoras e senhores, caros conterrâneos:

Saúdo este encontro público das nossas memórias junto à antiga escola primária, onde os nossos pequenos cérebros receberam o brilho cintilante da instrução, fazendo mais tarde dessas crianças cidadãos úteis aos seus semelhantes e aptos para honrarem a terra que os viu nascer” – palavras de circunstância inseridas no texto sobre este magnifico edifício, inaugurado  a 8 de junho de 1913, dia de domingo.

De facto, a vossa visita tem tudo a ver com a referência que nos é devida enquanto cidadãos úteis aos seus semelhantes que honram a terra que os viu nascer.

Permitam-me esta analogia entre a nossa escola e a União e Progresso do Barril de Alva pelo facto de estarmos junto ao elegante obelisco, inaugurado no longínquo ano de 1965, que homenageia o bairrismo e a benemerência dos barrilenses (e dos amigos do Barril de Alva) e de todos os outros que não tendo o mesmo enquadramento nos termos atrás mencionados, pelo merecimento das suas elevadas qualidades académicas, ouso o destaque da minha intervenção.

A importância da cultura da palavra e da ciência na construção do conhecimento promove o desenvolvimento intelectual. A personalidade e o destaque universal das competências do barrilense Alberto Martins de Carvalho, antigo aluno desta escola, pedagogo, autor de inúmeros artigos, prefaciando, traduzindo e anotando outras obras, além de ter exercido o alto cargo de diretor do Centro de Estudos Pedagógicos do Instituto Gulbenkian de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, justificaram a sua escolha para dar nome  a esta praça…

- que também poderia chamar-se José Quaresma Nunes dos Santos, igualmente antigo aluno deste escola - cursou Matemáticas Puras, e Engenharia Geográfica, entre outras especializações académicas…

- ou poderia ser batizada  com o nome  de José Custódio Gomes,  irmão de António, Manuel, Albano e Adriano, todos barrilenses. Jovem na idade, foi para Cacilhas. Como republicano, desde 1884, e depois como socialista, foi um dos fundadores do Centro Republicano de Cacilhas e fundou a Associação dos Corticeiros. Fez parte de diversas vereações, antes e depois da proclamação da República, tendo sido também, em determinado período, administrador de concelho.

Sobre esta figura pouco se sabe quanto aos seus graus académicos – nem importa conhecer – era barrilense,  como nós:  A sua memória ocupa lugar de destaque na História do concelho de Almada e, porque não, na história da nossa terra” - escreveu AIACO.

 

Dos três, no meu entender, Alberto Martins de Carvalho, é a figura maior da intelectualidade do povo que somos, pelos cursos superiores que completou e dos altos cargos que ocupou. É do conhecimento de alguns dos seus seguidores a sua recusa para abraçar uma pasta ministerial no Governo de Salazar, que lhe reconhecia superiores qualidades intelectuais e humanas. Martins de Carvalho escusou-se com a elegância das palavras, usando uma metáfora ao argumentar que a sua indisponibilidade se devia ao facto de não “fazer parte da mesma religião” do chefe do Governo…

- Um pequeno aparte: Martins de Carvalho foi destacado membro da Maçonaria, instituição filosófica, filantrópica, educativa e progressistaque Salazar proibiu, daí a analogia da expressão que nada tinha a ver com o catolicismo, que ambos professavam…

 

Convido os barrilenses para uma visita pormenorizada à Casa/Museu, onde poderão conhecer, de forma sucinta, estas e outras figuras ligadas à arte de bem-fazer junto da comunidade, encontrar referências de louvor e imagens que retratam ligações fraternas ao associativismo regionalista pela via do amor pátrio à aldeia de onde partiram - homens e mulheres à conquista dos  seus sonhos, numa viagem com noventa anos de História e estórias sem fim para contar...

 

É tudo isto que a UPBA deixa escrito em letras douradas. É sobre tudo isto que a nossa consciência nos alerta quanto ao futuro desta nobre instituição.

 

Miguel Torga, amigo de Alberto Martins de Carvalho, citava vezes sem conta, segundo Fernando Vale, amigo dos dois, a seguinte frase: 

 

"Quem faz o que pode, faz o que deve"!

 

 Durante noventa anos, os associados e amigos da UPBA fizeram o quedevia ter sido feito” para bem do Barril de Alva e das suas instituições.

 

Os tempos não sopram de feição para o associativismo. A UPBA vai mantendo a dinâmica possível graças à devoção de alguns seguidores de AIACO, como o presidente TONECAS, a quem faço vénia, e a todos os seus colaboradores mais próximos, pelo esforço e dedicação à causa comum – infelizmente, ”AIACOS” contam-se pelos dedos de uma mão, lá como cá…

 

Com o mesmo espírito solidário, alguns de nós, já entrados na idade, e outros ainda com o ”sangue na guelra”, estamos prontos para manter acesa a chama da UPBA, que tanto deu de si ao Barril de Alva. Agora, é a nossa vez de citar Miguel Torga:

 

"Quem faz o que pode, faz o que deve"!

 

Enquanto houver vida e a União e Progresso do Barril de Alva plantar uma árvore, não se apagam as memórias e cresce o Parque  UPBA na margem direita do rio Alva, junto à ponte.

Avivando memórias: foi exatamente aí, no Parque de Merendas, que a União e Progresso se “emancipou” e contraiu “matrimónio” com o Barril de Alva!

- É o que diz a História!

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CAR – 17 de maio de 2025

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Memórias de Moçambique: A Viagem de um "Homem Inteiro"




Possivelmente não faz sentido “voltar a Moçambique” apenas com imagens da recruta da especialidade IOR (Informações, Operações e Reconhecimento) do ano de 1966. Vivi intensamente esse curso, e alguns dos conhecimentos adquiridos foram aplicados na área da “Ação Psicossocial” junto das comunidades locais — sem tiros ou qualquer outro tipo de violência.

Recordo esse tempo de “bem-fazer” ao serviço do Exército Português com um certo orgulho. Os meus oitenta “outonos”, de quando em vez, recuperam a nostalgia da minha vivência juvenil no Bairro da Malhangalene e os tempos em que me senti um “homem inteiro” em Moçambique. É por isso que faço da minha “tropa” um motivo para uma “nova viagem” à nossa terra amada.


Junto  a Boane

Vila Cabral, Niassa - “Ação Psicossocial”