domingo, 19 de fevereiro de 2017

"Branco é, galinha o põe" - a curva da vida

Este texto  foi partilhado por um amigo que muito estimo, Luís Moura. Agora, faço dele "coisa minha" - cá por coisas, coisas minhas, de  quem "se/tenta"  na curva da vida.
Ao que presumo,  é de autor desconhecido, o que não invalida  que confirme em absoluto esta  "verdade de La palice". 
"Branco é, galinha o põe" - para citar um provérbio "tuga"  -   fiquemos por aqui, pelas palavras...
- Há  lá coisa mais "perfeita" ?



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Fiança



Entra-me o sol a rir pela janela.
Traz notícias bem-vindas lá de fora.
Diz que não há sombra agora
No mundo que me espera e que receio.
Que posso, confiado,
Num pégaso sem freio,
Ir cumprir mais um dia do meu fado.
*
Miguel Torga

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Afetos

Brindaram-me  com dois bombons,  um sorriso  e frase curta :
- Hoje é dia dos afetos.
Retribuí com "... uma lágrima ao canto do olho (...)" e disse:
- Obrigado...
- Pelos bombons.
- Pelo sorriso.
- Pela frase do tamanho do Universo!

domingo, 12 de fevereiro de 2017

"Portas do Açor"

A tarde de ontem, sábado, estava fria e cinzenta, nada convidativa a passeios pela serra.
No largo da Ponte, no Barril de Alva, contavam-se pelos dedos de uma mão os mirones da paisagem e conversa de ocasião - gasta-se o tempo a gosto, pelo gosto do convívio.
Entro na conversa sem o ritmo da dita. Digo que o tempo está desagradável (como se ninguém tivesse dado conta) - o rio não transborda, é certo, digo eu, mas a bica do pipo anuncia a  força da nascente (como se ninguém tivesse dado conta, enfim…).
Num instante aproxima-se um jeep e estaciona, outro, e outro - trinta, ou mais!
Ausento-me da conversa de ocasião e questiono um dos ocupantes da primeira viatura sobre o passeio. Que vêm de longe, do norte, centro e sul – diz, simpático. Olhe, fale ali com o “chefe”, ele é que organiza estas passeatas…
O “chefe” é o responsável por um clube (lamento, não fixei o nome); informa que o dia começou em Arganil, andaram pela serra, almoçaram em Fajão, e  a concentração  de viaturas “4X4” termina ali mesmo, no largo da Ponte, mas não é obra do acaso...
Diz o “chefe”:
- Organizamos passeios destes, de vez em quando, mas antes  venho fazer o reconhecimento dos sítios a  visitar. Passei por aqui num dia em que havia uma “feira  dos estrangeiros”, achei interessante, gostei do movimento, do local e das pessoas com quem falei. A terra também me pareceu simpática, por isso  decidimos que  este  seria o melhor sítio para terminarmos o convívio - agora, cada um segue o seu destino, uns para lisboa, outros para o Porto, Braga…
Um dos convivas pergunta onde pode  comprar queijo da serra, do bom, claro. Indico-lhe o “Vira Milho”….
Quem segue para sul adianta despedidas.
- Boa viagem, digo eu, e até à próxima.
- Sim, sim,  esta região é muito bonita, vou voltar.
Diz o “chefe”:
- Claro, havemos de voltar, não é a primeira vez que andamos por aqui, mas é sempre agradável conhecer outros lugares.
Digo-lhe que, “para a próxima”, nada melhor do que  entrar por “esta Porta  do Açor”, ou pela outra "Porta do Açor", Coja – conhecem? Ainda não, andámos lá por cima, pela serra – fica para outra ocasião.
Prolongou-se a conversa com assunto a condizer com  a próxima ocasião...


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Sonhos

Pode sonhar-se acordado ou a dormir. Se os primeiros "comandam a vida", os outros, pelo contrário - "descomandam"... quando chegam travestidos de pesadelos.
Dos tipos de sonhos que sei de mim, na imaginação do que mais quero, escolho sonhar acordado. Dos outros, não me é permitido o livre arbitrio - se pudesse, ausentava-os em definitivo. Sempre tinha sono capaz, descansado,,,

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Confraria das palavras

De forma involuntária (?), nas últimas croniquetas, tenho dito coisas sobre a (minha) saudade de um tempo, o que não abona grande coisa, ou mesmo nada, a disponibilidade da  inspiração para outras estórias, antes e depois desse período...
Agora fui "desafiado" pela Helena para uma diversão facebookiana: 
- (...) Faz um comentário usando uma única palavra sobre como nos conhecemos!
E eu escrevi: PALAVRAS! 
Na verdade, ao longo de vários anos, têm sido as palavras que mantêm viva uma amizade impar. Eu e a Helena Maria usamos a "mesma linguagem" sobre a estética do belo, o que permite ausentar o "espírito de eremita" em que me trasnformei - pelo querer da minha vontade e não por imposição de terceiros...
Ao joguinho de palavras, pé ante pé, juntou-se a gentil Lyla Seixas com outras palavras, nem minhas nem suas, mas nossas, de todos - de quem as quiser no modo de se dar ao próximo. 
Não sendo de "ninguém", as palavras usadas pela Lyla têm dono: Dostoievski!
- A beleza salvará o mundo !
Bem-vinda, Lyla,  à "confraria das palavras" - destas palavras, "porto seguro" de quem veste  fatiota de bons costumes.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Arrepios no corpo, dentro e fora dele

Foto:  The Delagoa Bay World

Certo dia entrei num barco grande, enorme, que cheirava a novo, não por ter saído da fábrica nas vésperas, mas pelas tintas usadas para esconder as rugas da idade. Nesse tempo, outros barcos grandes, enormes, eram velozes a cruzar a linha do Equador; este, que me calhou em sorte, não, molengão que só visto, com o pormenor do cheiro a tinta provocar náuseas e vómitos aos passageiros, eu incluído - eu, criança, sem hábitos de viajante, exceto as idas às vilas das redondezas em dia de feira, e por uma vez à Romaria de Nossa Senhora d'Agonia, em Viana do Castelo, a Almada para visitar parte da família  e o mar, grande, enorme, inimaginável, e a Coimbra, grande, enorme, cidade que me foi destinada para cumprir os desígnios da família: um dia, talvez um dia, seria doutor ….
O Portugal que me foi dado conhecer na escola - lia nos livros - alongava-se para lá dos oceanos. Longe, muito longe daqui, da minha aldeia, havia mais Portugal - “outro Portugal” - com outras gentes, falas e costumes.
Eu, a “caminhar para doutor”, com “muito bom” nos exercícios da nossa História, acreditava nesse Portugal  - ”tratava por tu” Vasco da Gama, Cabral, Diogo Cão e tantos outros almirantes dos setes mares.
A família decidiu, estava decidido: o futuro passaria por Moçambique, onde o avô Pereira procurava fortuna.
O “Quanza”, pintado de fresco, levou uma eternidade, mas chegou, ronceiro, à Baia do Espírito Santo e ao cais Gorjão.
Finalmente, Lourenço Marques!
"AQUI É PORTUGAL"! - gravado  na calçada... arrepios no corpo, dentro e fora dele, emoções que não se explicam - nem agora nem antes.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O "jogo das cartas"

Se me perguntarem se sou feliz, respondo com naturalidade: sim e não – tudo depende do momento em que a pergunta é feita.
Sendo certo que a felicidade chega em pequenas doses e pelas mais diferenciadas vias, quando menos se espera… bate à porta: “…será chuva? Será gente? Gente não é certamente e a chuva não bate assim…” – Augusto Gil.
- “Nem é vento com certeza…” mas pode ser a felicidade porque tem um “bater” suave e inebriante...
Dizer que estou “moderadamente feliz” implica assumir que, apesar de tudo, alguns pensamentos preocupantes estão adormecidos e talvez despertem, “travestidos em fantasmas”, antes do primeiro sono. Se isso acontecer, conto carneiros – dizem que é remédio santo para adormecer –, bem melhor do que somar fantasmas. 
“Não podemos escolher as cartas que nos são distribuídas, a nossa liberdade reside em saber jogá-las” – Randy Pausch, professor de Ciência Computacional.
Morreu no dia 25 Julho, 2008, com 46 anos, vítima de um cancro no pâncreas
Aconselho vivamente a leitura da sua “ A última aula”. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

A "medronheira" da mãe Natália

Nas feiras de artesanato degustam-se doces e pinguinhas de licores caseiros.
Certa vez, o artesão da deliciosa  aguardente de medronho, afiançou que apanhava os frutos silvestres nos "...montes do Barril"! 
- No Barril de Alva? - perguntei.
- Sim, quando se vai para Lourosa - esclareceu.
- Ah, seu "malandro", que me vai ao Calvino! - disse eu, com aparência de zangado.
Como resposta, veio o sorriso simpático e um desconto na garrafa de "sete e meio" do precioso líquido... 
Talvez pelas características do solo, o medronheiro bravo nasce e cresce em determinadas zonas e em áreas reduzidas. O Calvino é um desses espaços bem definidos: mato, pinhal e ...medronheiros. É aí que a minha família possui um extenso terreno. 
Há mais de vinte anos, num "cofre forte",  guardo reservas da minha aguardente favorita, fruto do trabalho e saber da mãe Natália que, se fosse viva, no próximo dia 1 de fevereiro  seria uma "jovem" com 91 primaveras.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Já se vai embora?

A tia Deolinda era  senhora de gentileza sublime. Tinha sentido de humor e até os queixumes sobre a sua avançada idade vinham envolvidos em sorrisos. 
Alegre e divertida na mocidade, por razões que nunca questionei, não chegou a constituir família.
Durante os anos em que privámos, sobretudo durante as visitas de cortesia, recebia com requinte: chá, café e bolinhos servidos em louça ”de marca”, toalhas bordadas à mão, mas o melhor de tudo eram as conversas sobre as suas memórias…
Não sendo senhora de frequência diária, sempre que podia assistia à Missa. Um dia, contava a tia Deolinda, estava tão absorvida nos seus pensamentos que não deu conta que se aproximava o momento da saudação. De repente, a pessoa que estava a seu lado, cumprimentou-a com um aperto de mão e ela, sem saber muito bem que dizer, possivelmente a pensar nas despedidas, continuou, como sempre, a ser gentil e fina no trato com palavras de circunstância, enquanto mantinha a mão que lhe era estendida apertada na sua:
- Já se vai embora? Fique mais um bocadinho…
*
Editado de outra edição - 10.2011