segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Na trincheira com Ricardo Chibanga

Ricardo Chibanga

 


 Morei num primeiro andar de uma rua perpendicular à Rua do Porto, em Lourenço Marques (Maputo), junto à sede do Clube Atlético e a poucos metros do Largo do Minho.

Lembro-me de, certa vez, eu e outros rapazes termos ido a “corta-mato” até à zona conhecida por Alagoas, onde existia a Praça de Touros. Olhámos para o imponente edifício e, como nenhum de nós tinha assistido a uma tourada, concluímos que o espetáculo deveria ser emocionante, pelo perigo e pelo brilho dos trajes.

Voltei lá mais vezes nos tempos livres, sobretudo ao fim de semana.

Certo dia, eu e um amigo entrámos pela porta principal e vimos um rapaz a empurrar uma geringonça composta por uma roda de bicicleta e uma armação com dois chifres, conhecida como “tourinha”. O condutor da geringonça era Ricardo Chibanga, que viria a ser um dos maiores profissionais da sua geração; do aprendiz a toureiro já não me recordo do nome.

Um sujeito que ali dava as ordens olhou para mim e perguntou se eu queria experimentar. Tímido, mas como estava acompanhado, fiz do medo coragem e lá fui, armado em “aluno da matéria”, a voltear uma muleta desbotada na mão direita segundo as instruções do “mestre”. Outros aprendizes — dois ou três, mais experientes — tinham um certo jeito para aquele jogo de pernas, quase como se fosse uma dança. Eu nem por isso, mas gostei da experiência.

Voltei mais umas duas vezes. Como se dizia que ia chegar um bezerro para levar o treino mais a sério, o grupinho de quatro a seis corajosos ansiava pela hora da “tourada”. Esta, contudo, nunca aconteceu, pelo facto de o animal nunca ter posto as patas no recinto.

Quase como rotina, regressei à praça. O Chibanga e outro rapaz negro, mais ou menos da nossa idade, estavam sempre por ali a conversar. Alguém responsável pelo recinto, que já me conhecia, perguntou-me se eu queria aprender a construir bandarilhas. Disse que sim, dado que em breve iria acontecer uma corrida e eu queria estar presente pela primeira vez… sem pagar bilhete!

Devo ter sido um bom aluno a ornamentar os ferros curtos e compridos, a tal ponto que fui um dos escolhidos para entregar as bandarilhas aos artistas durante a lide, o que fiz por várias vezes.

Tive a ocasião de assistir às atuações de grandes toureiros e cavaleiros, como Manuel dos Santos, Diamantino Viseu e Amadeu dos Anjos. Entre os cavaleiros, recordo David Ribeiro Telles como um dos mais elegantes e destemidos da profissão.

A lei proibia a morte dos touros na arena, mas certo dia, depois de uma atuação que levantou os espectadores dos seus lugares, o povo começou a gritar: — Mata! Mata!

E eu ali na trincheira, desconfortável e nervoso…

(Voltarei ao assunto e ao final da história.)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

"Casamento por procuração"




Para contar a história da fotografia, que é o pretexto desta croniqueta, temos de recuar aos anos sessenta, época em que foi tirada.

Naquele tempo, em Moçambique — e presumo que em todos os territórios sob administração portuguesa —, estava muito em voga o "casamento por procuração". Por norma, os rapazes residentes nas colónias, ou aqueles que cumpriam o serviço militar na guerra, recorriam a este método por várias razões.

(Devo acrescentar que o meu sentido de humor é ocasional e vem sempre acompanhado por um sorriso...adiante.)

Durante largos anos fiz "graça" com esta fotografia, surpreendendo amigos e familiares ao afirmar que, em tempos, tinha casado por procuração com uma bonita donzela. Perante a "prova", todos acreditavam:

— Ah, não sabia! E não deu certo? Isso de casar por procuração nem sempre resulta, sobretudo quando as pessoas não se conhecem pessoalmente...

Eu fazia cara de pesaroso, por vezes acrescentava pormenores à "estória", mas depois abria um sorriso e desvendava o segredo — para alívio e gargalhadas de todos.

Eu e a Lita  em Almada
- ano de 1951(?)
A imagem, na verdade, mostra uma noiva: a minha prima-irmã Lita, no dia do seu casamento com o Branco, de quem me tornei grande amigo quando regressei a Portugal após o 25 de Abril. Na altura, a Lita vivia em Almada e eu em Moçambique; esta pose fraterna foi a forma gentil e carinhosa que encontrou de me fazer presente e partilhar comigo um dos dias mais importantes da sua vida. Confesso que me comoveu.

Sessenta anos volvidos, recordo os noivos e, de forma singela, presto homenagem ao Branco, que infelizmente já não está entre nós — restando a saudade e as bonitas memórias, sempre presentes.

À minha prima-irmã Lita, desejo as maiores venturas, muita saúde e  vida longa.

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Afinal, sou um contador de histórias

 

Lourenço Marques, 1970

Sou reformado e tenho 80 anos. Tenho tempo — e aprendi a gostar de o usar à minha maneira.

Leio e escrevo. Não por obrigação, nem com a preocupação de me tornar mais erudito, de saber mais ou de provar alguma coisa a alguém. Faço-o por prazer, por curiosidade e, sobretudo, porque gosto de contar histórias.

Sou, afinal, um contador de histórias.

Tenho este blogue, “Estórias de Trazer por Casa”, onde vou juntando memórias, episódios, pessoas, lugares e acontecimentos, sobretudo da minha aldeia. Não pretendo fazer História com letra grande. Quero antes preservar pequenas histórias que, se não forem contadas, provavelmente desaparecerão com aqueles que as viveram.

A minha aldeia é uma das minhas grandes preocupações. Vou estando atento ao que nela acontece, à forma como é administrada a coisa pública e, quando alguém entende que os meus limitados préstimos podem ser úteis, estou disponível para ajudar. Sem grandes pretensões e sem grandes cuidados: apenas com a vontade de ser útil enquanto puder.

Também continuo atento ao mundo que me rodeia. À família, naturalmente, que é a coisa mais importante. Às alegrias — e algumas tristezas — da vida. Às vitórias do Benfica, que também fazem parte das minhas alegrias. E à política do meu país, que acompanho com atenção e alguma inquietação. Gostaria de não ver Portugal entregue à extrema-direita. A esquerda, entretanto, parece-me já suficientemente enfraquecida para que os receios que outrora provocava sejam hoje outros.

Cheguei a esta idade trazendo comigo alguns ensinamentos que começaram muito cedo.

A minha mãe Natália e a minha avó Virgínia ensinaram-me, quando era criança na minha aldeia e depois adolescente em Lourenço Marques, coisas simples que ficaram para a vida: honrar a família, aprender, estudar, ser honesto e trabalhador.

Mais tarde, em Lourenço Marques, o destino colocou no meu caminho Agostinho Vilaça, uma espécie de tutor, que me ensinou, entre outras coisas, que nunca esqueci: “o pecado era — e é! — a minha consciência!”

Talvez seja essa a minha verdadeira regra de vida.

Honrar a família. Ser honesto. Dedicar-me ao trabalho. Aprender aquilo a que me dedico, umas vezes pelo estudo, outras pelo empirismo pragmático da vida. E, sobretudo, obedecer à minha própria consciência.

Caí e levantei-me muitas vezes. “Renasci” em 1975 quando eu e a família regressámos a Portugal. Continuei a cair e a levantar-me. Voltei a “renascer” em 2007 depois de um enfarte agudo do miocárdio, felizmente sem sequelas.

Foi então que percebi que o meu lado espiritual era talvez muito mais profundo do que qualquer crença religiosa.

Acredito em Deus?

- Sim,  no Deus de Spinoza.

 Família -7 de novembro de 2025 - aniversário

E continuo por aqui: a ler, a escrever, a observar, a recordar, a pensar, a preocupar-me com os meus e com a minha terra — e, enquanto tiver vontade e memória, a contar histórias.


Porque talvez seja isso que faço melhor: conto histórias para que as pequenas coisas da vida não desapareçam  sem deixar rasto.