segunda-feira, 17 de abril de 2017

Bolinhas de pelo curto

Texto adptado do original publicada em abril de 2009 com o título
"Seis pompons na beira da estrada"



Ouvi na rádio que a Câmara Municipal de Arouca, no distrito de Aveiro, está a projetar no terreno uma iniciativa fora do vulgar, tendo em vista dinamizar o turismo rural.
Recorro à página oficial da “ANCRA” - Associação Nacional dos Criadores da Raça Arouquesa” e fico a saber que “…as vacas adultas, de manhã são levadas para o monte onde passam todo o dia e só regressam já de noite. Os vitelos ficam na "corte". Mamam antes da vaca sair e quando ela regressa do monte…” .
Portanto, a estória que ouvi de fugida, tem a ver com esta espécie de gado bovino que se alimenta nos baldios da região, mas o que prendeu a minha atenção foi o pormenor da ideia: qualquer um de nós pode adquirir um animal desta raça (ou mais!), que terá um chip incorporado no dorso de modo a ser localizado com facilidade enquanto vagueia pelos montes. A entidade responsável pelos cuidados dos animais, sedeada no local, a qualquer hora do dia, pode ser contactada pelo proprietário e este, se desejar, pode visitar o seu animal no habitat natural. O dono também pode negociar a sua  vaca com quem entender, mediante certas regras, etc, etc.
Interessante, na minha opinião, a iniciativa, quase cópia do que o Jardim Zoológico pratica quando decidimos “apadrinhar” determinado animal, contribuindo para o seu sustento. 
Por falar em “apadrinhar” animais - agora começa outra estória, inspirada na iniciativa da Câmara de Arouca-, há uns tempos atrás dei de caras com duas raposas, ainda jovens, penso, que se cruzaram comigo quando ia para casa, noite alta. Apesar de conduzir devagar, diminuí ainda mais a velocidade do Renault e fiquei a vê-las, por segundos, numa “luta” sem intenções perigosas. Terminada a brincadeira, foram à vida, atravessando a estrada. A partir desse dia, pelo menos uma está “à minha espera”(?), e logo que a luz dos faróis a ilumina, levanta-se, olha para “mim”, e passa para o outro lado, perdendo-se no mato que, por ali, é rasteiro.
Acredito que os progenitores andem por perto, mas como as “nossas relações são pacíficas”, não creio que “aconselhem” os filhotes a mudarem de pouso.
O mesmo “dirão” os esquilos que, de quando em vez, vejo saltitar nos carvalhos, durante o dia, ou os “Saca Rabos” (espécie de gato bravo) quando procuram caça. 
Surpresa maior: há dois dias, depois de (mais) uma curva, reparei que estavam uns “pompons” enroscadinhos na berma da estrada. Parei, as bolinhas de pelo ganharam vida e, meio assustadas, esconderam-se na valeta pouco profunda. Contei quatro cachorrinhos matizados, entre o branco e o preto, alguns com tons de cinzento no pelo.
Como não tenho uma vaca “Arouquesa”, e como não sou “padrinho” de nenhum animal em cativeiro, assumi a responsabilidade de alimentar, pelo menos uma vez por dia, os “meus pompons” - que afinal são seis e não quatro! - mais a mãe, baixota e feia de tão magra, mas que “sorri” abanando o rabo quando me vê.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Possivelmente "sou daqui"...







Existe em mim tamanho encanto por este sítio que faço dele coisa minha, como se fosse mesmo minha e só minha. 

Alguma razão terá o meu subconsciente para reagir em total sossego quando encaminho os passos para o "meu" sítio. 


Se tenho sede de "música" nada melhor do que a estereofonia das águas do "meu" rio - confortam-me o espírito como só eu sei!


O Urtigal é pedaço de paraíso na Terra, mágico - não pelos ofícios humanos mas pela obra da mãe Natureza, tão pura e perfeita. Possivelmente "sou daqui", apesar de impuro e imperfeito...

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Albertina e Dionídio

“Para sempre – 50 cartas de amor de todos os tempos”, é uma pequena enciclopédia com mensagens, frases, reflexões e imenso romantismo


(Imagem recolhida na net)

O filósofo Jean Jacques Rousseau dizia que elas, as cartas, “começam sem saber o que se vai dizer, e terminam sem saber o que se disse". Álvaro de Campos, foi mais longe e deixou para a posteridade outra frase célebre: “todas as cartas de amor são ridículas…”!
O livro “Para sempre – 50 cartas de amor de todos os tempos”, reúne textos de várias personalidades, de Beethoven a Chopin, de Franz Kafka a Fernando Pessoa. Os homens não diferem muito nas questões do coração quando o descobrem apaixonado e, por vezes, retratam o sentimento de forma tão sublime quanto pueril…
Para lá das cartas trocadas pelos amantes, há estórias (de amor) cujos relatos nem sempre têm um final feliz: “Tristão e Isolda”, de autor desconhecido do século XII (?), ou “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, são disso exemplo. Felizmente, tal não aconteceu, em 1945, ao casal Albertina e Dionídio, residentes em Meda de Mouros.
A força da paixão dos jovens amantes levou de vencida as contrariedades ao muito bem-querer com que enfeitaram os sonhos, como adiante se conta ao correr da pena, surripiado o relato do livro “Meda de Mouros e as suas gentes”, de Salvador da Costa e Luís Castanheira.
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Albertina de Jesus e Dionídio Pereira namoriscavam-se e disso não guardavam segredo. O entusiasmo do primeiro amor, naquele tempo, era capaz de quase tudo, exceto contrariar interesses familiares.
Entretanto, Eduardo, viúvo, industrial de panificação, bastante mais velho, entendeu alargar os “apetites apaixonados” e declarou-os à Albertina e aos pais, que se mostraram “sensíveis” aos seus interesses…
- Nunca! – terá dito a conversada do Dionídio.
Porém, a insistência foi tanta que a pobre rapariga, por respeito (ou medo?) aos progenitores, acedeu. Ela e o Eduardo, o viúvo, à socapa, foram comprar o enxoval, mas não se rodearam de grandes cuidados e a notícia não tardou em chegar ao conhecimento do Dionídio que, “(…) perdido de amor, adoeceu, ficou acamado, recusou alimentar-se e dizia à mãe que morreria se não lhe fossem buscar a Albertina”! A senhora, perante a dor do seu amado filho, implorou aos pais da Albertina que tivessem em conta o amor de ambos, mas de nada valeram as lágrimas, que certamente terá enxugado com uma das pontas do xaile negro com que se cobria. Conta-se, na estória, que a senhora, “(...) com o espírito amargurado, caminhou em clamor pela rua acima…”.
Perante tamanha “safadeza”, dois amigos do apaixonado Dionídio convenceram-no a raptar a amada, e logo engendraram um plano, que passava pela ida da Albertina à fonte, ao anoitecer, onde havia de explicar-se, olhos nos olhos, ao seu Dionídio. Nada consta sobre os pormenores do “rapto”, mas sabe-se que ela deixou a rodilha e o cântaro na fonte e refugiou-se na casa de um dos mentores do ato, o Augusto Lopes.
Luís Pereira, pai da Albertina, quando soube da “tragédia” foi em busca da filha, na companhia de dois irmãos desta. Chegados ao refúgio, vem a Albertina e, com lágrimas a rolarem pela face, corajosamente enfrenta os familiares, afiançando-lhes que só se casaria com o Dionídio. Conformados, pai e irmãos, regressaram a casa….
Algum tempo depois realizou-se o casamento da Albertina e do Dionídio, que  foram felizes para sempre!...
Do viúvo Eduardo nada mais se sabe. Possivelmente, carpiu mágoas junto à ponte “romana” do Cadoiceiro, em Meda de Mouros…
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Publicado em junho de 2009 no "Correio da Beira Serra"

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Sinalzinho de trazer por casa

As pessoas mais chegadas, nos últimos tempos, iam dizendo
- mostra ao médico esse sinalzinho que tens na cara, já mostraste?
Respondia
- não, o sinalzinho é de estimação - atalhava, com o meio sorriso de quem está sem preocupação de maior.
Como o sinalzinho estava implantado junto à orelha, certo dia a escova de cabelo deu-lhe um "chega para lá" e ele, o sinalzinho, não gostou...
Ferido na honra, o sinalzinho nunca mais voltou ao que era antes, sossegado, arrumado. Uma lágrima de Betadine e pronto - cogitava, cioso do meu sinalzinho de trazer por casa.
Para o Doutor Gama, era um não assunto, "mas para ficar descansado vou marcar uma consulta num dermatologista". Chegou a confirmação da consulta, sim, para noventa dias depois!
... Até que entra em cena o "anjo da guarda" que dá pelo nome de Carla, a enfermeira (...) que se assume de corpo inteiro à arte sublime de cuidar do seu semelhante pelo gosto de gostar da sua profissão (...),
Primeiro a Carla, "anjo da guarda", depois o Doutor Eufrásio, o mestre, batizaram o meu sinalzinho com nome de "gente importante": Basalioma!
Importante, era - por ser chato. Só isso!
Depois dos indispensáveis procedimentos, na última segunda feira, no IPO de Coimbra, o meu sinalzinho entregou a alma ao criador - e foi muito bem feito: onde é que "já se viu" um simples sinalzinho dar ares de importante?
Agora, quem avista o penso que resguarda o local onde estava implantado o meu sinalzinho, questiona com riso malandro:
- "Arranjaste namorada com temperamento fogoso, "sem nenhum tipo de frescura" (ler com sotaque brazuca), ou quê?
- Ou quê - respondo!


quinta-feira, 6 de abril de 2017

sexta-feira, 31 de março de 2017

Um punhado de terra

…Dou comigo a reviver estórias vividas no “outro lado do mundo”.
Desse mundo sobram recordações do menino que aí cresceu e se fez homem entre “matateus e eusébios”, e partiu à descoberta do futuro nas asas do mítico concerto de Woodstock, em Agosto de 1969. 
No “outro lado do mundo” nasceram e morreram paixões - menos os sonhos da “Pedra Filosofal” de António Gedeão...
É por isso que guardo um punhado de terra “desse lado”; quando chegou, mergulhei nela o olfato e as duas mãos, quase em êxtase!

Quem cala a emoção?

 "(...) calar uma emoção tão salutar como a inveja, que é o desejo de estar melhor (e não necessariamente o desejo de o outro estar pior), leva a quê? Ao sufoco, à castração emocional…” -   Rui Zink.


quarta-feira, 29 de março de 2017

“Pronúncia do Norte”

Nascem sonhos durante o sono que “só visto”, 
quer dizer: 
- são mesmo sonhos, sem pitada de verdade. 
Os sonhos 
que surgem do nada, 
dependem das memórias que guardamos 
e  os sonhos trazem à luz do dia 
(neste caso, à “luz” da noite…). 
Guardamos memórias, 
é verdade, 
e sonhos que são autênticos sonhos, 
como ganhar um grande prémio  no euromilhões!
Na noite passada, 
de tantas rosas me passarem pelas vistas, 
tive um sonho lindo, 
lindo de sonhar 
– tão lindo que, 
quando acordei 
dentro dele, 
estava preso num abraço inteiro...
em que nada fica(va) de fora... 
(De beijos com sabor a “flor do jasmim (…),
“ à Clarck Gable e Vivian Leight”, 
silêncio absoluto).
Um abraço 
assim 
só pode ter 
“pronúncia do Norte”! 
Por mais voltas que dê à "moleirinha" 
não encontro a Sul, Este ou Oeste 
outro sonho com este perfume, 
que era autêntico 
- juro que era. 
Nada de Chanel, talvez Je Reviens, a fragrância dos meus vinte anos….
Há sonhos 
que nem sonhados 
são/foram “reais”!

segunda-feira, 27 de março de 2017

Cimbalino à moda do Porto

Mesmo por cima da minha cabeça, a quilómetros de altura, uns quantos aviões, diariamente, insistem em percorrer os mesmos caminhos, entre a partida e a chegada; eu estou no "meio" da provocação  dos meus sonhos: Açores e Maputo são os  "próximos destinos",  mas ninguém os adivinha. Como não tenho maneira de me fazer ouvir daqui de baixo, os aviões nem "param" para a boleia que lhes peço,  dedo grande no ar...
... O melhor é embarcar num "expresso"  e  sair no Porto. Tenho prometido um "cimbalino" para quando me der jeito a viagem.

(Adaptação de uma croniqueta publicada em outubro  de 2012)

segunda-feira, 20 de março de 2017

Uma flor - uma bela flor

Determinada flor é, em primeiro lugar, uma renúncia a todas as outras flores. E, no entanto, só com esta condição é bela.
Antoine de Saint-Exupéry