terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Com um pastor "assim"...

Subi a rua e fui ao Café Portugal apostar coisa pouca no “euromilhões”.
-Boas tardes! – disse eu à chegada.
-Boas tardes, amigo Carlos! – respondeu o Sr. Carlos, dono do café.
Àquela hora, encostados ao balcão, estavam num colóquio dois presumíveis clientes; um, deu dois passos, estendeu-me a mão e foi simpático e gentil no cumprimento. O outro, olhou de soslaio, e por aí se ficou, disposto a voltar à conversa, entretanto interrompida.
Reconheci a figura pelo porte, mas como o cavalheiro nunca me foi apresentado, não dei importância à falta do institucional e politicamente correto “boa tarde”, embora entenda que um autarca, deve conhecer as "ovelhas do seu rebanho”, repartindo os mimos, sejam elas, as "ovelhas", de cor branca, preta, vermelha ou laranja!...Com um “pastor” assim, longe da simpatia, é natural que algumas andem tresmalhadas…
Paguei a aposta do jogo, dei meia volta, saí calado, e só parei na “Silmoda” - está na montra um “pólo” vermelho que trago “atravessado na carteira”; infelizmente a “Lacoste”  não foi de férias e quanto a saldos …
Se me sair o “euromilhões”, compro a peça de roupa e volto ao Café com ela vestida à hora da tertúlia. Sempre quero ver se o “ pastor” me reconhece pela cor do “pólo”, que é vermelho.
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Texto adaptado  de uma corniqueta publicada em agosto de 2006

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Prazeres implícitos

Há dias em que baralho as ideias de tal forma que me obrigo a reflexão mais ou menos minuciosa, muito ao estilo de um seguidor de Buda…
O mundo, na verdade, não fica de “pernas para o ar” pelo simples facto de um mortal assumir que em certas horas se confunde…
Depois do almoço, vou ao café. Enquanto espero pela bica passo a vista pelo jornal à disposição dos fregueses, leio os desenhos dos títulos, faço pausa circunstancial nas fotografias, viro as páginas sem atenção aos “classificados” – entretanto, tenho a chávena à minha frente…
Um dia destes, o jornal ficou como estava, com uma das páginas dos anúncios aos olhos de quem vê. E li que determinada senhora oferece os seus préstimos para acalmar o stress dos leitores. Em meia dúzia de linhas apresenta o seu currículo físico e deixa adivinhar nos três pontos do final do texto prazeres implícitos - o normal, com o pormenor acrescido de, dizia ela, ter sido namorada de um futebolista!
No reino da publicidade há palavras “plebeias” que empurram o (possível) cliente para o consumo de determinado produto; no caso, o facto (?) da referida dama ter namorado com um fulano que ganha a vida ao chuto (numa bola), acrescenta mais valia ao “artigo” do anúncio – terá pensado a autora.
Apesar de óbvia, a informação peca pela escassez de pormenores e de um  título a condizer:
- “Fulana de tal, ex namorada do futebolista Y, assume-se como prostituta”.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Jovial e cómodo nas memórias




São dois os artistas, dois os instrumentos: uma Fender e uma Ovation que se completam como amantes apaixonados; à suavidade das cordas de nylon sobrepõe-se o timbre do aço no solo de peças musicais, tão clássicas quanto a minha mente consegue catalogar no tempo: "Guitar Tango", "Apache", "The Savage"... e mais e mais!!!
Os " Shadows" foram e são o meu grupo musical de eleição,  deles guardo "quase tudo", desde os primórdios dos seus verdes anos à década de oitenta - outra época de ouro nos arranjos de "Themes & Dreams", por exemplo.
No meu "universo", de teto negro e paredes claras, onde repousam quadros do Wil de Wildt, Frenk Steffens e Rui Monteiro, iluminados por luz branca e directa, o som que me chega aos ouvidos vem do dedilhar das cordas das violas. Por sorte da imaginação fértil, o Hank Marvin faz  com que me sinta jovial  e cómodo nas memórias...













terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O homem do realejo





Enquanto esperava  o cortejo
o homem do realejo
trocava olhares misturados com sorrisos
com a boneca das pernas compridas, grandes, enormes.
Veio a turba a reboque das sardinhas assadas,
dos couratos e pasteis,
do bucho e da chanfana.
A boneca ganhou vida - cresceu em altura,
o realejo tocou,
o homem sorriu;
o povo sorriu,
o presidente sorriu – todos os presidentes sorriram,
os confrades sorriram,
o emplastro sorriu,
os homens da segurança, não.
A boneca desceu das pernas altas, o homem pousou a mão no realejo - tinha passado o cortejo!













 Publicado em junho/2011 - visita do Presidente da República a Arganil

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Rosa cor de rosa



Gosto de todas as rosas, mas aprecio sobremaneira o tom vermelho escuro das que crescem no meu quintal no tempo próprio, não agora, nascem tardias, quase a medo, não vá a geada uma noite destas reduzi-las à lembrança da Primavera, o que acontecerá mais cedo ou mais tarde…
Um dia destes  surrupiei uma dessas rosas de outono com a intenção de a colocar numa jarra, como sempre faço – um luxo a que me dedico com inusitado prazer.
Dada a fragilidade das pétalas, coloquei-a com muito cuidado no banco do "pendura" e fiz-me à estrada sob chuva forte. Os pensamentos teriam pouco sentido porque concentrava toda a atenção no tráfego, apesar de pouco intenso.
Na "estrada real", próximo do "sítio do costume", disse de mim para mim: "com este tempo, não há rameira que aguente a espera de eventuais interessados na aquisição dos seus serviços"!
Puro engano. Depois de uma curva, na berma da estrada, uma figura feminina, esguia, de minissaia, acoitava-se sob um guarda-chuva. Do outro lado, estava outra, sujeita ao mesmo desconforto. Travei suavemente, o carro continuou a marcha mais devagar, e ao passar por aquela que estava estática junto à minha faixa de rodagem, cruzámos os olhares por breves segundos – "mais um que se limitou a olhar ", terá pensado  a senhora esguia vestida com uma minissaia.
Embora frágeis, as pétalas da minha rosa cor de rosa mantiveram-se harmoniosamente juntas.
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Resumo de uma croniqueta publicada em 2009

domingo, 6 de dezembro de 2015

À boleia - dedo grande no ar

Por cima da minha cabeça, mas a muitos metros de altura, uns quantos aviões, diariamente, insistem em percorrer os mesmos caminhos, entre a partida e a chegada; eu estou no "meio" da provocação dos meus sonhos: Açores e Maputo são os "próximos destinos", mas ninguém os adivinha, e como não tenho maneira de me fazer ouvir daqui de baixo, os aviões nem "param" para a boleia que lhes peço, dedo grande no ar..

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Brinquedo de corcódea


Era uma quinta enorme, no Calvino, com terreno de cultivo bordejado de macieiras. E tinha uma casa de arrumos onde guardava as minhas construções de corcódea; a última foi uma miniatura de um carro de bois ( o transporte da época para o renovo da quinta, onde se "dava de tudo", como se fala por aqui...).
Em fevereiro de um ano, as terras estavam de pousio e eu também, sem grandes quereres nos meus treze anos, mas fui de "livre vontade" até onde o navio me deixou, quase um mês depois do adeus a Lisboa.
Lourenço Marques era uma cidade linda, tão linda que me prendeu nos seus encantos - ainda morro de amores por ela!
Um dia, homem feito, regressei ao meu sítio e voltei à quinta, de visita, para procurar o meu carrinho de corcódea, com duas rodas minúsculas e duas figurinhas que em nada se assemelhavam a animais de carga, sem chifres - lembro-me bem do feitio da minha "escultura"!
Tinha a certeza de que a deixara numa prateleira, ao alcance da minha mão... mas a prateleira estava vazia!
Da casa restam duas meias paredes e, aberta numa delas, a prateleira "guarda a alma" do meu brinquedo... 
março, 2009

- Ai credo !....

(...) Seis horas numa sala de espera, dão para imensa coisa: ler o jornal, partes de um livro, ouvir as conversas dos vizinhos, ou passear o olhar pelos rostos de quem está por ali… à espera. Aproveitei o tempo consoante o cansaço que proporciona a incómoda cadeira; se me concentrava na leitura, de quando em vez, ficava em alvoroço com uma voz de mulher que vinha do altifalante. Era timbrada, e os decibéis, acima da média para o local, preenchiam “violentamente” o espaço.
Ao meu lado, uma senhora, entrada na idade, “ passava pelas brasas”. Tantas vezes se sentiu incomodada com as chamadas, do estilo “António Francisco Simões, sala cinco” (aquilo era rápido, questão de segundos!), entre tremores e um ressonar “simpático”, a dado momento, talvez por estar a meio de um sonho bonito, deu um salto na cadeira e soltou um sonoro desabafo:
-“Ai credo, porra que me assustei”!
Nessa altura estava  preso à leitura das últimas sobre o “meu” Benfica, depois de ter mergulhado numa crónica do Miguel Esteves Cardoso.
-“Carlos Alberto Ramos, gabinete dois” – chegou a minha vez!
Eram três da tarde.

Posso ajudar?

A Mariana trabalhava na Livraria Académica e usava os cabelos compridos.
Perdi o conto às visitas que fiz à livraria, na esperança de ser ela a ouvir os meus pedidos de coisas simples: lápis, borrachas, papel cavalinho, aguarelas...
Quando não estava necessitado de nada, teimava em continuar cliente de leituras, embora curtas. Foi assim que "conheci" Mário Sá Carneiro, António Botto, Alves Redol e tantos outros autores portugueses.
A estratégia era simples: para que a Mariana viesse ter comigo, entrava na loja e ia direitinho à estante mais afastada do balcão. E ela vinha, apesar de se ter apercebido da marosca, com um sorriso maroto.
- Posso ajudar?
Poder, podia, mas a "ajuda" não tinha nada a ver com esclarecimentos sobre as obras expostas. Talvez se falasse do tempo que fazia lá fora, da música em voga ou de qualquer coisa que me fizesse ganhar coragem e eu teria saído do canto da minha timidez ... 
A Mariana foi sempre muito profissional no seu papel de balconista e nunca passou do cumprimento de circunstância e da frase sempre igual:
-Posso ajudar!
Eu, como não tinha asas para voar para outras conversas, fiquei cativo da timidez e ela nunca soube da minha "paixoneta"... adolescente.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Fim de festa



Depois de uma relação mal resolvida, em 1967,  raivinha miúda, felizmente passageira e sem efeitos colaterais...

*
Queria ver-te nua
e da alma despida
na rua,
perdida...
Em gozos celestiais,
êxtases de loucuras
e orgias de entontecer,
banais seriam as tuas graças
- desventuras talvez!
E eu, rosto enxuto,
braços cruzados,
a ver morrer aos poucos,
de vez,
a alma,
o corpo,
a tua imagem,
sem coragem
de oscular em fim de festa
o pouco que de ti resta....