domingo, 18 de outubro de 2015

Exercício sobre dois búzios ( de Sophia de Mello Breyner)

O acaso devolveu-me à leitura de “Contos Exemplares”, de Sophia de Mello Breyner. O livro, que descobri numa arca no sótão, editado em 1971, tem as folhas amarelecidas pelo tempo - nunca as palavras imortais da autora.
Nesta edição (a 4ª), o então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, assina o prefácio e é pela leitura das páginas que escreveu - mais de cinquenta! - que D. António nos remete para a excelência da obra de Sophia, apontando a sua enorme espiritualidade como referência a ter em conta.À genialidade do conhecimento de D. António Ferreira Gomes junte-se o talento da maior poetisa portuguesa, e ficamos com uma “peça rara” do nosso património cultural.
Qualquer português minimamente culto conhece alguma coisa de Sophia de Mello Breyner. Particularmente, creio que “A Viagem” é uma espécie de catecismo pelo facto de dimensionar a esperança de qualquer humano, entre o “Alfa e o Ómega”, até aos limites do quase impossível!Na estória de ficção, além do mais, a autora desenha poesia e poetiza a música das palavras, como sempre fez, com sensibillidade ímpar.Não admira que a saudade de si, por tudo quanto legou à Humanidade, regresse nas asas do tempo, como a excepcional voz da cantora brasileira Maria Bethânia deixa transparecer no álbum "Mar de Sophia", editado, salvo erro, o ano passado, onde o mar e os seus símbolos, a partir da poesia de Sophia de Mello Breyner, nos transportam para viagens de completo encantamento.Para meu regalo, a comunhão do belo (as palavras da Sophia na voz da Bethânia) chegou aos meus ouvidos numa tarde calma, bem longe do mar que a poetisa amava como se fosse coisa sua – somente sua!
A “minha serra” sempre foi o lugar perfeito para a poesia que me enche a alma – por vezes descubro por cá, no silêncio, oceanos de emoções que nem a morte há-de apagar da memória dos vivos!… E hei-de “voltar à minha serra”, como a Sophia ao seu mar:-“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não passei ao pé do mar”!Ainda nos “Contos Exemplares”, num deles (Homero) a autora retrata “… um velho louco e vagabundo a quem chamam Búzio…”. Obviamente, o texto mantém o estilo e a arte poética de Sophia...
De novo e sempre o mar:-”O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas…”.Em Junho passado, depois das férias, conheci outro búzio: “ O Búzio de Cós e outros poemas” – novas imagens de outros mares que Sophia não precisa mencionar – basta uma simples e bela concha fusiforme e fica perfeito o cenário de Cós, ilha do mar Egeu, onde Sophia comprou o búzio “numa venda junto ao cais…”.
Às suas epopeias, Sophia de Mello Breyner, agrega dois búzios impregnados de simbologia que tocaram a minha sensibilidade: a um faltava o aconchego de uma “concha”: “ O Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada. Vivia com a terra toda que era ele próprio...”; ao outro não ouvia “ … nem o marulho de Cós nem de Egina…”.

Por mais que me deleite nas marés dos seus poemas, fico sem saber quantos mares formam o caleidoscópio da áurea de Sophia de Mello Breyner…
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"estórias de trazer por casa"/14.02.09

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

As saudades são como as cerejas (1)

...Uma das prerrogativas de quem guarda memórias é ter saudade de qualquer coisa, de alguém, de um tempo. Se ouço um fado de Coimbra – um que seja! -tenho saudade das serenatas que, durante um ano, em Coimbra, me libertavam do sono, noite após noite, porque tive a sorte de morar num apartamento paredes-meias com outro, onde havia uma "república" feminina – era por elas, as residentes do segundo andar, que os estudantes faziam trinar as cordas das guitarras e sobressair as vozes potentes, entoando melodias românticas: eles, “perdidamente apaixonados”; elas, “…bate, bate coração/ louco, louco de ilusão…”, quais Cinderelas, que o Paião havia de imortalizar anos mais tarde...
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"estórias de trazer por casa" / 11-07.09

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Pensando bem...

Pensando bem, o melhor é assumir desde já a minha aversão à violência – seja ela física ou verbal.
Da primeira quero distância, e da segunda  às vezes aproximo-me - aguento-a com tento na língua e  vou à luta quando o opositor justifica que esgrima argumentos.
No confessionário admito as minhas fraquezas e a ignorância do desconhecido; apenas sei  “ ler e escrever”, e a inteligência não me presenteou com a erudição dos predestinados.
O caráter, esse desejo-o firme quando vacilo, não importa quando, onde e porquê – sendo humano, caio e levanto-me as vezes que forem precisas. Obviamente, recuso-me a existir de joelhos no limbo da minha consciência, que morrerá  inteira se para tanto o juízo não me atraiçoar um dia destes …
Aprecio o belo de cada coisa e olho o horizonte com a atenção que é devida ao Universo. Mais perto, à distância dos sentidos, a sensibilidade de que sou capaz permite a paixão do amor - de todo o amor! Assim sendo, insisto na denúncia da minha teimosia: gosto, por que sim, sem nenhuma explicação adicional para este mau feitio de quem permanece fiel à estética do amor.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sonoridades






Tenho quarenta minutos para escolher as palavras com que espero construir esta croniqueta, certamente curta, longa nas pausas não programadas – depende das emoções partilhadas com o mágico (Antoninho) Travadinha que faz “ (…) soar a sua rabeca de forma nunca ouvida (…)”, embalando-me com mornas e coladeras fora de horas.

Quarenta minutos é a soma do “tamanho” das melodias interpretadas pelo mestre, masterizadas em CD.

Cabo Verde festeja a sua independência e é pelas memórias de África que caminho nestes quarenta minutos de deliciosas sonoridades: Cesária Évora, primeiro, agora Travadinha, inigualável, “(…) como só ele sabe tocar (…)” o seu violin du Cap Vert  - palavras de João Freire, ao jeito de comentário sobre a curta obra discográfica do mágico da rabeca.

 Das minhas memórias de África guardo as de Moçambique, ao  sabor da irreverência da juventude...

Tenho a alma cheia das “marrabentas” do conjunto João Domingos, mas o que me faz falta é o piano do Renato Silva e a guitarra do Mário, dos Night Stars, rapazes do meu tempo, com quem convivi alegremente fora e dentro dos palcos, como “testemunha esta preciosidade” fotográfica…
Só por hoje, sou cabo-verdiano… 


quarta-feira, 17 de junho de 2015

"A última aula” de Randy Pausch





Se me perguntarem se sou feliz, respondo com naturalidade: sim e não – tudo depende do momento em que a pergunta é feita.
Não é necessária definição filosófica para termos a consciência do nosso estado de alma: contentamento, sensação de bem-estar, prazer, e um sem número de nadas que consubstanciam as emoções. Sendo certo que a felicidade chega sempre em pequenas doses e pelas mais diferenciadas vias, quando menos se espera…bate à porta: “…será chuva? Será gente? Gente não é certamente e a chuva não bate assim…” – Augusto Gil.
“Nem é vento com certeza…” mas pode ser a felicidade porque tem um “bater” suave e inebriante, assim:
Decide-se um primeiro encontro e, a páginas tantas, descobrem-se empatias nos olhares que sobram de cada conversa…
Espera-se o conhecimento das feições da pessoa que se adivinha espiritual e sensível na poesia das palavras que junta – o momento de satisfazer a curiosidade é sublime!...
Se “ela” diz que sim, como canta o poeta Viriato da Cruz no “Namoro” (que não me canso de citar!), aquele instante é divino…
A visita inesperada, o aumento de ordenado, uma agradável conversa, um opíparo jantar, uma noite de amor, o nascimento de um filho, … quanta felicidade – até no gesto de um cativante sorriso! 
Há, pois, em cada dia – mesmo que a vida se mostre “madrasta” – segundos de prazer que não contabilizamos por manifesta ganância: foi pouco, quase nada – queríamos mais, quase tudo, um “jackpot” constante e permanente! 
Se me perguntassem sobre a última vez em que fui feliz, diria: há pouco, quando li um belíssimo texto, embora curto, escrito na sombra do anonimato. Estou como certo sujeito que ia ouvir a “Flauta Mágica”, de Mozart. e abandonava a sala de seguida: ficava “saciado” para o resto do serão – assim estou eu neste principio de noite… 
Pensando bem… continuo moderadamente feliz porque a dor que tinha nas costas já não me apoquenta, a música que ouço “descansa-me” em absoluto, há pouco espreitei pela janela e vi o céu estrelado, o chá de cidreira fumega na chávena, e daqui a nada tentarei adormecer depois de ler umas quantas páginas de um dos livros que tenho à cabeceira, talvez…“A última aula”, de Randy Pausch. 
Dizer que estou “moderadamente feliz” implica assumir que, apesar de tudo, alguns pensamentos preocupantes estão adormecidos e talvez despertem, “travestidos em fantasmas”, antes do primeiro sono. Se isso acontecer, conto carneiros – dizem que é remédio santo para adormecer –, é melhor do que somar fantasmas. Acordar depois de uma noite de sobressaltos, não augura nada de bom para as primeiras horas do dia seguinte, o que não impede de sonhar com um bonito dia, mesmo que o céu esteja tapado por nuvens negras e a chuva persista, teimosa… 
“Não podemos escolher as cartas que nos são distribuídas, a nossa liberdade reside em saber jogá-las” – Randy Pausch, professor de Ciência Computacional. 
Morreu no dia 25 Julho, 2008, com 46 anos, vítima de um cancro no pâncreas 
Aconselho vivamente a leitura da “ A última aula”. 
… E, por favor, sejam felizes.
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Escrito no dia 10 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Na soleira de um número redondo

Estou na soleira de um número redondo, como determina  o calendário. Veremos se  franqueio a entrada às minhas memórias. Tenho a intenção de  consultar o deve e haver do livro caixa e conferir   o saldo do saco azul...
Há documentos  por arquivar, como estes, que registam outro número redondo: dez anos de utopias!
Feito de cobre, o baú das grandes memórias rebenta pela solda das costuras

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sábado, 30 de maio de 2015

"Primeiro estranha-se, depois entranha-se"

Quando somos confrontados com surpresas, de todo inesperadas, boas ou más, bonitas ou feias, amores ou desamores, amigos que foram inimigos e/ou inimigos que agora são amigos, fidelidades ou traições, pessoas que foram gordas e agora são magras e/ou magras que já foram gordas (...), trago à ideia a "Coca Cola", de Fernando Pessoa...

A ”praça pública”, onde se esgrimem argumentos


Ao longo de quase setenta anos (melhor: sessenta - desconto dez para me situar em Coimbra, no falecido Liceu D.João III, depois no Externato Alves Mendes, em Arganil, e mais tarde no colégio Luís de Camões, em Lourenço Marques...) procurei formatar o caráter e, como qualquer estudante da época, li os clássicos e construi o meu jeito de estar entre os iguais do meu tempo. Hegel, marcou-me de uma forma tão "sublime" que, de quando em vez, volto à leitura de coisas suas, como é caso da obra Estética - “A ideia e o Ideal” (mas posso citar outras mais, "coisas minhas" escritas por Hegel, quando me situo no etéreo das dúvidas sobre o meu eu absoluto: existo? 

Do empirismo das (minhas) teorias com que me dou inteiro, à assunção de um certo romantismo de cavalheiro, em desuso nos tempos de agora, não ouso definição capaz de me aproximar do mestre da Estética – “A Arte Simbólica”. Hegel é difícil de entender. “Teimoso” na defesa das (suas) ideias, imagino-o na “praça pública” a esgrimir argumentos sobre a “estética” da mistura de estilos e volumetria de determinadas peças, brancas e cinzentas, e sua utilidade… 

Por mim, a escolher, a ”praça pública” onde se esgrimem argumentos seria pintalgada de outras cores, com a predominância do vermelho dos campeões – e um pouco de verde, pronto, para satisfação dos meus conterrâneos, nada contentes com a “medalha de bronze”…

“…  Chamamos ao belo ideia do belo. Este deve ser concebido como ideia e, ao mesmo tempo, como a ideia sob forma particular; quer dizer, como ideal. O belo, já o disse, é a ideia; não a ideia abstracta, anterior à sua manifestação, não realizada, mas a ideia concreta ou realizada” - Hegel


quarta-feira, 20 de maio de 2015

João Soares - o contador de "estórias"

Ao João Soares, mestre e companheiro de incontáveis serões, na hora da sua passagem ao Oriente Eterno


Havia um amigo comum e foi por essa via que eu e o “contador de estórias” chegámos à fala. Das conversas simples passámos à discussão de temas importantes (ou nem por isso…).
Debatemos ideias e encontramos pontos comuns no modo como nos revemos na comunidade.Se nos entendemos nos ideais, naturalmente procuramos nos “bons costumes” o equilíbrio entre a “sabedoria, a força e a beleza” dos nossos actos. Infelizmente, continuamos a “anos-luz” da “perfeição”, mas acreditamos que virá “um tempo de amor e fraternidade total” para que se cumpra o vaticínio do tal amigo comum: Fernando Vale.
O “meu contador de estórias” tem tanto de desportista como de boémio, mas não são apenas as memórias desses tempos, com o requinte do pormenor, que fazem de si a melhor das companhias numa tertúlia ao serão…Como gestor e autarca, recolheu fama de “pessoa séria, competente e rigorosa”. Agora, diz ter atingido a “reforma sem vencimento”, e fica longe dos encómios, de modo próprio.Para mim, basta que remexa nas suas lembranças - fico de imediato preso às circunstâncias de cada momento vivido na irreverência da juventude, mas não desdenho uma boa “estória” dos seus tempos de homem feito.Aprecio, sobretudo, a brejeirice com que envolve cada conto, talvez pelas gargalhadas que arranca à plateia da qual faço parte. Gabo-lhe o talento.
Peço-lhe para rabiscar as memórias, e a resposta vem sempre a meias com um sorriso, que não, “são coisas minhas” – diz.Perante isto, “ameaço-o” de gravar os seus contos, à socapa, e um dia ainda vou enricar à sua custa – garanto-lhe!
O meu amigo e “contador de estórias” volta a sorrir, sorri sempre, porque está de bem com a vida e consigo próprio.….
(Publicado em 23 de Março de 2009)

segunda-feira, 2 de março de 2015

Uma gota de bom cheiro

Barbeei o  rosto  e apliquei a loção indicada para  pele macia e sedosa, no  embalo da publicidade do rótulo do frasco  redondo, branco e esguio.
Assim, de bom  cheiro e   agasalhado no tom do inverno, já na rua, saboreei o vento com receio do retorno dos espirros amadurecidos  em janeiro...
O vento tocava-me a face, antipático e agreste, logo hoje - pensei -,  dia da estreia de uma nova Gillette e do abuso na quantidade da loção indicada para pele macia e sedosa, carente, isso sim, das carícias dos ventos  do norte e nada mais do que ventos do norte,  como uma gota de  Chanel 5 de bom cheiro.