segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sonoridades






Tenho quarenta minutos para escolher as palavras com que espero construir esta croniqueta, certamente curta, longa nas pausas não programadas – depende das emoções partilhadas com o mágico (Antoninho) Travadinha que faz “ (…) soar a sua rabeca de forma nunca ouvida (…)”, embalando-me com mornas e coladeras fora de horas.

Quarenta minutos é a soma do “tamanho” das melodias interpretadas pelo mestre, masterizadas em CD.

Cabo Verde festeja a sua independência e é pelas memórias de África que caminho nestes quarenta minutos de deliciosas sonoridades: Cesária Évora, primeiro, agora Travadinha, inigualável, “(…) como só ele sabe tocar (…)” o seu violin du Cap Vert  - palavras de João Freire, ao jeito de comentário sobre a curta obra discográfica do mágico da rabeca.

 Das minhas memórias de África guardo as de Moçambique, ao  sabor da irreverência da juventude...

Tenho a alma cheia das “marrabentas” do conjunto João Domingos, mas o que me faz falta é o piano do Renato Silva e a guitarra do Mário, dos Night Stars, rapazes do meu tempo, com quem convivi alegremente fora e dentro dos palcos, como “testemunha esta preciosidade” fotográfica…
Só por hoje, sou cabo-verdiano… 


quarta-feira, 17 de junho de 2015

"A última aula” de Randy Pausch





Se me perguntarem se sou feliz, respondo com naturalidade: sim e não – tudo depende do momento em que a pergunta é feita.
Não é necessária definição filosófica para termos a consciência do nosso estado de alma: contentamento, sensação de bem-estar, prazer, e um sem número de nadas que consubstanciam as emoções. Sendo certo que a felicidade chega sempre em pequenas doses e pelas mais diferenciadas vias, quando menos se espera…bate à porta: “…será chuva? Será gente? Gente não é certamente e a chuva não bate assim…” – Augusto Gil.
“Nem é vento com certeza…” mas pode ser a felicidade porque tem um “bater” suave e inebriante, assim:
Decide-se um primeiro encontro e, a páginas tantas, descobrem-se empatias nos olhares que sobram de cada conversa…
Espera-se o conhecimento das feições da pessoa que se adivinha espiritual e sensível na poesia das palavras que junta – o momento de satisfazer a curiosidade é sublime!...
Se “ela” diz que sim, como canta o poeta Viriato da Cruz no “Namoro” (que não me canso de citar!), aquele instante é divino…
A visita inesperada, o aumento de ordenado, uma agradável conversa, um opíparo jantar, uma noite de amor, o nascimento de um filho, … quanta felicidade – até no gesto de um cativante sorriso! 
Há, pois, em cada dia – mesmo que a vida se mostre “madrasta” – segundos de prazer que não contabilizamos por manifesta ganância: foi pouco, quase nada – queríamos mais, quase tudo, um “jackpot” constante e permanente! 
Se me perguntassem sobre a última vez em que fui feliz, diria: há pouco, quando li um belíssimo texto, embora curto, escrito na sombra do anonimato. Estou como certo sujeito que ia ouvir a “Flauta Mágica”, de Mozart. e abandonava a sala de seguida: ficava “saciado” para o resto do serão – assim estou eu neste principio de noite… 
Pensando bem… continuo moderadamente feliz porque a dor que tinha nas costas já não me apoquenta, a música que ouço “descansa-me” em absoluto, há pouco espreitei pela janela e vi o céu estrelado, o chá de cidreira fumega na chávena, e daqui a nada tentarei adormecer depois de ler umas quantas páginas de um dos livros que tenho à cabeceira, talvez…“A última aula”, de Randy Pausch. 
Dizer que estou “moderadamente feliz” implica assumir que, apesar de tudo, alguns pensamentos preocupantes estão adormecidos e talvez despertem, “travestidos em fantasmas”, antes do primeiro sono. Se isso acontecer, conto carneiros – dizem que é remédio santo para adormecer –, é melhor do que somar fantasmas. Acordar depois de uma noite de sobressaltos, não augura nada de bom para as primeiras horas do dia seguinte, o que não impede de sonhar com um bonito dia, mesmo que o céu esteja tapado por nuvens negras e a chuva persista, teimosa… 
“Não podemos escolher as cartas que nos são distribuídas, a nossa liberdade reside em saber jogá-las” – Randy Pausch, professor de Ciência Computacional. 
Morreu no dia 25 Julho, 2008, com 46 anos, vítima de um cancro no pâncreas 
Aconselho vivamente a leitura da “ A última aula”. 
… E, por favor, sejam felizes.
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Escrito no dia 10 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Na soleira de um número redondo

Estou na soleira de um número redondo, como determina  o calendário. Veremos se  franqueio a entrada às minhas memórias. Tenho a intenção de  consultar o deve e haver do livro caixa e conferir   o saldo do saco azul...
Há documentos  por arquivar, como estes, que registam outro número redondo: dez anos de utopias!
Feito de cobre, o baú das grandes memórias rebenta pela solda das costuras

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sábado, 30 de maio de 2015

"Primeiro estranha-se, depois entranha-se"

Quando somos confrontados com surpresas, de todo inesperadas, boas ou más, bonitas ou feias, amores ou desamores, amigos que foram inimigos e/ou inimigos que agora são amigos, fidelidades ou traições, pessoas que foram gordas e agora são magras e/ou magras que já foram gordas (...), trago à ideia a "Coca Cola", de Fernando Pessoa...

A ”praça pública”, onde se esgrimem argumentos


Ao longo de quase setenta anos (melhor: sessenta - desconto dez para me situar em Coimbra, no falecido Liceu D.João III, depois no Externato Alves Mendes, em Arganil, e mais tarde no colégio Luís de Camões, em Lourenço Marques...) procurei formatar o caráter e, como qualquer estudante da época, li os clássicos e construi o meu jeito de estar entre os iguais do meu tempo. Hegel, marcou-me de uma forma tão "sublime" que, de quando em vez, volto à leitura de coisas suas, como é caso da obra Estética - “A ideia e o Ideal” (mas posso citar outras mais, "coisas minhas" escritas por Hegel, quando me situo no etéreo das dúvidas sobre o meu eu absoluto: existo? 

Do empirismo das (minhas) teorias com que me dou inteiro, à assunção de um certo romantismo de cavalheiro, em desuso nos tempos de agora, não ouso definição capaz de me aproximar do mestre da Estética – “A Arte Simbólica”. Hegel é difícil de entender. “Teimoso” na defesa das (suas) ideias, imagino-o na “praça pública” a esgrimir argumentos sobre a “estética” da mistura de estilos e volumetria de determinadas peças, brancas e cinzentas, e sua utilidade… 

Por mim, a escolher, a ”praça pública” onde se esgrimem argumentos seria pintalgada de outras cores, com a predominância do vermelho dos campeões – e um pouco de verde, pronto, para satisfação dos meus conterrâneos, nada contentes com a “medalha de bronze”…

“…  Chamamos ao belo ideia do belo. Este deve ser concebido como ideia e, ao mesmo tempo, como a ideia sob forma particular; quer dizer, como ideal. O belo, já o disse, é a ideia; não a ideia abstracta, anterior à sua manifestação, não realizada, mas a ideia concreta ou realizada” - Hegel


quarta-feira, 20 de maio de 2015

João Soares - o contador de "estórias"

Ao João Soares, mestre e companheiro de incontáveis serões, na hora da sua passagem ao Oriente Eterno


Havia um amigo comum e foi por essa via que eu e o “contador de estórias” chegámos à fala. Das conversas simples passámos à discussão de temas importantes (ou nem por isso…).
Debatemos ideias e encontramos pontos comuns no modo como nos revemos na comunidade.Se nos entendemos nos ideais, naturalmente procuramos nos “bons costumes” o equilíbrio entre a “sabedoria, a força e a beleza” dos nossos actos. Infelizmente, continuamos a “anos-luz” da “perfeição”, mas acreditamos que virá “um tempo de amor e fraternidade total” para que se cumpra o vaticínio do tal amigo comum: Fernando Vale.
O “meu contador de estórias” tem tanto de desportista como de boémio, mas não são apenas as memórias desses tempos, com o requinte do pormenor, que fazem de si a melhor das companhias numa tertúlia ao serão…Como gestor e autarca, recolheu fama de “pessoa séria, competente e rigorosa”. Agora, diz ter atingido a “reforma sem vencimento”, e fica longe dos encómios, de modo próprio.Para mim, basta que remexa nas suas lembranças - fico de imediato preso às circunstâncias de cada momento vivido na irreverência da juventude, mas não desdenho uma boa “estória” dos seus tempos de homem feito.Aprecio, sobretudo, a brejeirice com que envolve cada conto, talvez pelas gargalhadas que arranca à plateia da qual faço parte. Gabo-lhe o talento.
Peço-lhe para rabiscar as memórias, e a resposta vem sempre a meias com um sorriso, que não, “são coisas minhas” – diz.Perante isto, “ameaço-o” de gravar os seus contos, à socapa, e um dia ainda vou enricar à sua custa – garanto-lhe!
O meu amigo e “contador de estórias” volta a sorrir, sorri sempre, porque está de bem com a vida e consigo próprio.….
(Publicado em 23 de Março de 2009)

segunda-feira, 2 de março de 2015

Uma gota de bom cheiro

Barbeei o  rosto  e apliquei a loção indicada para  pele macia e sedosa, no  embalo da publicidade do rótulo do frasco  redondo, branco e esguio.
Assim, de bom  cheiro e   agasalhado no tom do inverno, já na rua, saboreei o vento com receio do retorno dos espirros amadurecidos  em janeiro...
O vento tocava-me a face, antipático e agreste, logo hoje - pensei -,  dia da estreia de uma nova Gillette e do abuso na quantidade da loção indicada para pele macia e sedosa, carente, isso sim, das carícias dos ventos  do norte e nada mais do que ventos do norte,  como uma gota de  Chanel 5 de bom cheiro.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Quando Deus murmura ao ouvido...


         
Fátima Campos Ferreira 
entrevista Lobo Antunes:
(...)
- Qual é o seu Deus?
- ... É aquele que às vezes me diz ao ouvido que gosta de mim!
                                                                   
 RTP 1, terça feira, 20 de Janeiro de 2015 -21 h e 25 m

domingo, 7 de dezembro de 2014

(...) estupidamente jovem de sonhos a superlotar uma "valise de carton"...

O sol que entra filtrado pela janela da sala com quarenta e dois metros quadrados de espaço útil é insuficiente para me aquecer, sentado no sofá com anos de uso mas com os pés assentes no granito do chão da lareira; quando chega o frio gelado da Estrela, ela, a lareira, renasce das cinzas depois do milagre da chama de um fósforo em comunhão  com  uma acendalha.
Como sempre, em horas do mesmo estilo e feitio, pela manhã, ouço  rádio - não uma estação qualquer, as minhas preferências vão por inteiro para a Smooth FM, que reservo em tudo quanto é aparelho  de companhia nos silêncios das  ausências físicas de filhos e netos. Se me apetece, coloco um LP de vinil no gira discos e transporto o pensamento para tempos de glória, quando se é estupidamente jovem de sonhos a superlotar  uma "valise de carton", que é o local próprio para guardar  os sonhos em qualquer idade - eu que o diga: amante do "tango", por ser tosco no ritmo, fiquei-me pelo "baile mandado"... 
Levanto-me do sofá, curvo-me para chegar à prateleira mais baixa da estante  e com a mão direita retiro à sorte, não um LP, mas o "Single" "O Tango dos Barbudos"! Coincidência... 
-  Agora vou  rodopiar na cadência da dança - sempre movimento as pernas abraçado à nostalgia de uma "matinée"  nos "Velhos Colonos", de preferência  ao som dos "Night Stars" , "Renato Silva", "Corsários", ou  dos "I Cinque di Roma" numa "soirée" do Hotel Polana...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Posso Ajudar?

Repete-se  a croniqueta e acrescento estória com final  semelhante e outra protagonista,  como se fosse um "tango" ( ou outra dança...) com dedicatória  anunciada no silêncio das meias palavras. 
Da Mariana, conheci-lhe o sorriso;  do "tango", apenas palavras - das que alimentam o espírito...

A Mariana trabalhava na Livraria Académica e usava os cabelos compridos.
Perdi o conto às visitas que fiz à livraria, na esperança de ser ela a ouvir os meus pedidos de coisas simples: lápis, borrachas, papel cavalinho, aguarelas...
Quando não estava necessitado de nada, teimava em continuar cliente de leituras, embora curtas. Foi assim que conheci Mário Sá Carneiro, António Botto, Alves Redol e tantos outros autores portugueses
A estratégia era simples: para que a Mariana viesse ter comigo, entrava na loja e ia direitinho à estante das obras menos procuradas. E ela vinha, mesmo depois de se ter apercebido da marosca, com um sorriso malandro.
- Posso ajudar?
Poder, podia, mas a ajuda necessária não tinha nada a ver com esclarecimentos sobre as obras expostas. Talvez se falasse do tempo que fazia lá fora, do single musical em voga ou de qualquer coisa que me fizesse ganhar coragem, eu teria saído do canto da minha timidez e declarava-me... "apaixonado"!
A Mariana foi sempre muito profissional no seu papel de balconista e nunca passou do cumprimento de circunstância e da frase sempre igual:
-Posso ajudar?
Eu, como não tinha asas para voar para outras conversas, fiquei cativo da timidez e ela nunca soube da minha "paixoneta"... adolescente.