domingo, 11 de fevereiro de 2018

BC 20

In memoriam...


Passos... ruído...
e tudo num repente se transforma:
as sombras são homens
e a noite faz-se dia - é o céu que se ilumina
com o ribombar dos clarões;
eles caminham,
correm, caem, vêm aos trambolhões!

Eis que as trevas se desvanecem
e "eles" aparecem!!!
...
Aqui um ruído,
além um grito,
um corpo que cai
sem um gemido
sem um ai!



Vila Cabral/Niassa -BC 20
RECUAR MEIO SÉCULO

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

"Atirei o pau ao gato to - to / mas o gato to-to não morreu..."




Professora benfiquista muda 'Atirei o Pau no Gato' e gera polémica



"A inocente cantiga Atirei o Pau no Gato se transformou em mais um capítulo da acirrada rivalidade entre Porto e Benfica. A polêmica aconteceu em uma escola infantil de Ericeira, 35 km ao noroeste de Lisboa, em Portugal. Pai de uma menina de 4 anos, o encarregado de educação Eduardo Mendes apresentou queixa formal ao Ministério de Educação do país contra o estabelecimento por exaltar o Benfica em música adaptada para ser cantada pelas crianças.
Segundo a Agência Lusa, que teve acesso ao protesto, o trecho "Vai-te embora pulga maldita/batata frita/viva o Benfica" foi encaixado à música, cantada várias vezes ao dia na escola. O fato indignou Mendes, que se classificou como um torcedor "não muito fervoroso" do Porto.
Na queixa, o pai alega que tal influência compromete o respeito pela diferença, individualidade e civismo, lembrando que "a escola deve ser um espaço onde nem política, nem religião, nem clubismos desportivos devem ser alimentados". "O fato causou indignação ao próprio Porto, que publicou uma nota nesta quinta-feira saudando o "civismo" do torcedor e classificando, de acordo com o clube, o ativismo das escolas públicas aos feitos pelos aiatolás aos adeptos do islamismo, dizendo que o estabelecimento era uma madrassa -que ensina valores do Islã. O FC Porto saúda o civismo do pai e condena este proselitismo feito em escolas públicas, que em vez de ensinarem os valores da liberdade de escolha, ou de opinião, preferem ser uma espécie de "ayatollahs"(sic) das suas próprias preferências", opinou o Porto, que classificou os profissionais da escola como "fascistas". Procurado, o diretor das escolas de Ericeira, Alfredo Carvalho, preferiu não se pronunciar. Mendes afirma que chegou a falar com a professora da filha antes de fazer a queixa ao Ministério da Educação, ao perceber que a prática ocorria desde o início do ano letivo. Mas teria obtido apenas um "quem está mal, muda de escola", além da justificativa de que das 15 crianças da sala da filha, apenas duas não torcem para o Benfica. Por conta dos desdobramentos, Eduardo Mendes já cogita a possibilidade de mudar a filha de escola".
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Publicado em março de 2012

Surripiado daqui:
http://esportes.terra.com.br/futebol/europeu/2012/noticias/0,,OI5679782-EI18009,00-Professora+benfiquista+muda+Atirei+o+Pau+no+Gato+e+gera+polemica.html

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O amigo alentejano


Os tempos vão maus, demasiado maus, queixamo-nos em grupo, carpimos mágoas unidos, juntinhos, como os pinguins no Ártico para suportar melhor as tempestades.
Os sorrisos são quase nenhuns, vive-se, sobrevive-se, não há humor de gargalhar, nem na TV; para além do Herman José, sobram graças do Fernando Mendes no “Preço Certo” – é pouco.
Não somos um povo alegre, mesmo no Carnaval “abrasileirado”, que está por dias, mas temos queda para associar estórias ao anedotário nacional, mesmo agora, em tempos de crise. Valha-nos isso!
O meu amigo alentejano Davide (com "e" no fim…), com sotaque a preceito, é excelente contador de anedotas; algumas têm “barbas”, mas como faz a festa por inteiro, do princípio ao fim, sempre a rir e com gestos largos (é um homem sem “crises” - será?), as piadas cheiram a novo. O jeitinho para ator é inato; se eu “mandasse”, fazia do Davide um profissional à altura da melhor concorrência do Stand Up Comedy nacional!...
Não é por nada – minto, é por causa das crises! – mas estamos necessitados de sessões de humor que aliviem a penúria da tristeza, mas não há volta a dar ao estado dos sorrisos. Convenhamos, em suma, que rir faz bem à saúde e, li há pouco, pode ajudar a curar certas doenças e aumentar a esperança média de vida, o que é óptimo, a não ser que a pessoa com vontade de viver mais uns anitos esteja às portas da reforma; nesse caso, fique a saber que os pensionistas vão perder um quinto da dita (reforma) até 2050 – quanto maior for a esperança média de vida, menor será o valor da reforma!
Perante factos, quem tem vontade de sorrir, rir ou gargalhar?
Nada a fazer, é assim e… pronto.
Resta o exercício de “estar vivo”, que, só por si, já é uma “dificuldade” que nem sempre temos capacidade para gerir a contento.
…Com urgência, tenho de localizar o meu amigo da Amareleja!
...
Adaptação da crónica: " O amigo alentejano" - in "Correio da Beira Serra" - Janeiro/09

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Quando o telefone toca

Depois da calamidade de outubro, com  as chamas a lamberem as traseiras da minha casa, fiquei sem possibilidades de  continuar com a  ocupação dos "tempos livres", via internet, com mais ou menos tempo ligado à antena. Há  costumes assim, viciantes, assumo,  mas que fazer por aqui, no meu sítio, eu setentinha,  para além da leitura e da escrita e, vamos lá,  cuidar  do jardim (o resto da quinta está em permanente pousio) dos animais de companhia, da casa e de moi même?
Ao longo das estradas,  os cabos  "do sinal" do telefone ficaram  esturricados. Quilómetros e quilómetros de fio sem "vida", de mim para mim e para quem carpia comigo a mesma  desgraça,  ia dizendo  que   "... talvez em janeiro tudo voltasse  à normalidade". E foi.!
Neste espaço de tempo, perdi a conta aos telefonemas que fiz para a operadora com quem assinei determinada prestação de serviços; com mais ou menos dificuldades fui levando a carta a Garcia, os queixumes de  sempre, etc e tal,  do outro lado da linha   a simpatia  das palavras "... lamentamos, estamos no terreno, sim, sim - vamos enviar-lhe uma nota de crédito...".
Já com a comodidade da fibra óptica instalada, recebi um telefonema da operadora, voz de menina, gentil como convém, mas desta vez  ainda mais  simpática, a voz:  "pedimos desculpa pelo incómodo destes últimos meses, sem o nosso serviço,  esperamos o melhor, daqui para a frente e..."  a voz, a mando de quem dá ordens, excedeu as minhas expectativas -  gostei.


- É do "quando o telefone toca"? Posso pedir um disco?   Obrigadinho... não, é sem dedicatória, é "p'ra" mim...

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O bumerangue das memórias

Um dia recebi uma carta de amor, não a que imortalizei no longínquo ano de 1968, de mim para mim, num poema tão puro quanto singelo - como militar, na época, os malefícios  da guerra eram suportados pelo placebo das palavras de conforto  escritas nas  cartas e aerogramas vindos  de longe; a pureza dos sentimentos e a singeleza da escrita faziam de cada soldado um poeta - mas a que chegou a meio da tarde de um  dia distante do ano de 2009, era primavera. 
Esta foi a última carta de amor que o carteiro deixou na minha caixa do correio – a última, embora persistam os gestos românticos e fugazes paixonetas silenciosas, logo inconsequentes, sem direito a cartas de amor de cá para lá, de lá para cá.
Quando junto a saudade à nostalgia, não é ruim de todo: deixo voar o pensamento, que se transforma num veloz bumerangue  com retorno garantido “à minha mão”,  carregado  de memórias…

(…)
Ela veio, a tua carta,
(…)
Ela dizia-me as coisas de que eu gosto,
que tu me dizes
 (…)

*
Publicado no diário "Notícias", de Lourenço Marques, em outubro de 1968

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O "Carteiro"



...  é quase impossível recriar ao vivo “O Carteiro de Pablo Neruda” porque a poesia anda arredia dos amores, escritos a tinta e em maiúsculas, que tanto seduziam a bela Beatrice Russo – o melhor é ver o filme e deixar-se enamorar por ele.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Eu e o senhor Silva - amigos como dantes


Há um tempito zanguei-me por coisa pouca com o vizinho do terceiro esquerdo. Era chato porque o senhor cruzava-se comigo e eu ficava sem jeito: "olho para ele ou não, digo bom dia ou finjo que não o vejo"? Estas dúvidas atormentavam-me com frequência, ou com a frequência com que passávamos um pelo outro, para ser sincero. Então, resolvi fazer as pazes com o senhor Silva (é o último nome do meu vizinho...) e agora, pelo Natal, desejei-lhe "boas festas", estendendo a mão. Retribuição da praxe, que agradeci. Simpático, este senhor Silva!... - Pronto, pensei, assim é que é bonito, os vizinhos não devem andar desavindos, ainda nos cruzamos em algum sítio público com mais pessoas por perto, e continuaria a ser chato alguém notar a indiferença mútua... 
Confesso que fui um pouco agressivo com ele no dia em que decidi virar-lhe as costas - até fiz por esquecer o seu nome próprio, com o intuito claro de o desconsiderar aos ouvidos de quem estava. Errei, dou a mão à palmatória da professora Georgina, que já morreu, por isso descanse em paz, por mim está perdoada (as reguadas nem sempre eram justas, mas o que lá vai, lá vai). Como se vê, tenho esta mania de esquecer e perdoar os arrufos, as injustiças, etc, etc... 
Entretanto, o senhor Silva candidatou-se ao lugar de presidente do condomínio do prédio que habitamos e não está de modas: organiza um comício junto à porta do elevador, no rés do chão, com a intenção de explicar aos restantes inquilinos as razões da sua candidatura (um ritual de todos os comícios, digo eu...) ! Ainda lhe zumbi ao ouvido que sem um "bebício" era difícil juntar as pessoas, o senhor Silva concordou e deu, de imediato, ordens à técnica da limpeza das escadas para comprar bifanas, "minis" e sumos sem gás. Como sou presidente do clube do bairro e tenho alguma influência (modéstia à parte) junto dos vizinhos do primeiro andar e não só, o senhor Silva, sem qualquer intenção de se aproveitar da minha posição social, é preciso que se diga, convidou-me para estar ao seu lado no dia da festança. E assim foi! Até usei da palavra para afiançar que a nossa desavença foi coisa de putos, hoje somos grandes amigos, enfim.... disse o que a ocasião pedia, do alto meu havano, num jeito tipo democrata: eu é que sei, eu é que mando - essas coisas que sempre se dizem quando se tem um estatuto social como o meu! Agora é esperar pelo dia das eleições, que estão para breve.
...
Publicado em junho de 2009, com o título 

"Amigos para sempre"

sábado, 20 de janeiro de 2018

As "grandes pessoas"

Na ânsia de sermos grandes pessoas, por vezes crescemos vaidosos, arrogantes, “únicos”! E também um pouco mauzinhos - depende dos afrontamentos dos dias ou dos tons acinzentados das horas; o ideal seria “praticar a maldade” por breves segundos, rapidinho e de soslaio, para que poucos dessem conta… de quanto crescemos!

Fernando Vale, o Mestre, dizia que (…) os graus de decadência que a Humanidade atingiu são tão elevadas que o futuro só pode ser melhor – nunca pior do que está!

sábado, 13 de janeiro de 2018

A derradeira carta de amor

Todas as Cartas de Amor são Ridículas
Todas as cartas de amor são 
Ridículas. 
Não seriam cartas de amor se não fossem 
Ridículas. 
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras, 
Ridículas. 
As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser 
Ridículas. 
Mas, afinal, 
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 
Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso 
Cartas de amor 
Ridículas. 
A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 
(Todas as palavras esdrúxulas, 
Como os sentimentos esdrúxulos, 
São naturalmente 
Ridículas.) 

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa 

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"(...) Tua... ( era assim que se velavam as cartas de amor)"