quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Gargalhar, rir e sorrir faz bem à saúde

Os tempos vão maus, demasiado maus, queixamo-nos em grupo, carpimos mágoas unidos, juntinhos, como os pinguins no Ártico para suportar melhor as tempestades.
Os sorrisos são quase nenhuns, vive-se, sobrevive-se, não há humor de gargalhar - sobram algumas graças do Fernando Mendes no “Preço Certo”,  e no "5 p'ra meia noite", e isso é preocupante.
Não somos um povo alegre, mas temos queda para associar estórias ao anedotário nacional, mesmo agora, em tempos de crise. Valha-nos isso!
O meu amigo alentejano Davide (com "e" no fim…), de sotaque a preceito, é excelente contador de anedotas; algumas têm “barbas”, mas como faz a festa por inteiro, do princípio ao fim, sempre a rir e com gestos largos (é um homem sem “crises” - será?), as piadas cheiram a novo. Agora perdi-o de vista. 
O jeitinho para ator é inato; se eu “mandasse”, fazia do Davide um profissional à altura da melhor concorrência do Stand Up Comedy nacional!...
Não é por nada – minto, é por causa das crises! –, mas estamos necessitados de sessões de humor que aliviem a penúria da tristeza, mas não há volta a dar ao estado dos sorrisos. Convenhamos, em suma, que rir faz bem à saúde e, li há pouco, pode ajudar a curar certas doenças e aumentar a esperança média de vida, o que é ótimo.
Perante o que se lê e vê nos canais da TV, quem tem vontade de sorrir, rir ou gargalhar?
Resta o exercício de “estar vivo”, que, só por si, já é uma “dificuldade” que nem sempre temos capacidade para gerir a contento.
…Com urgência, tenho de localizar o meu amigo da Amareleja para ficar ao corrente das (suas) gargalhadas.

***

"Três alentejanos  tentam encontrar uma nova maneira de passar o
tempo.
Diz um: 
– Oh compadre, já chega de sueca e dominó. Tou farto disto!!
Diz outro: 
– Atão e se fossemos jogar golfi ?
Pergunta o primeiro: ~
– Atão, oh! compadri, com’é quisso se joga ?
- É c’um pau, umas bolas e um buraco.
Responde o outro : 
– Atão tá beim ; ê cá dou o pau.
Diz o segundo: 
– Prontos ê cá dou as bolas.Responde o terceiro : 
– Cumpadres, ê cá nã jogo!"


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Lulu, a raposa

Publicado no "Correio da Beira Serra" em 2008





La Fontaine não teria desdenhado juntar às suas fábulas a estória da raposinha que vem todos os dias – e à hora (quase) certa, mais minuto menos minuto! – “jantar” ao restaurante “Vale dos Amores”, perto de Fiais, na freguesia de Ervedal da Beira. Se os “animais falassem”, seria curioso conhecer de “viva voz” o que vai na cabeça da raposinha para se entregar de “corpo e alma” à gentileza da sua presença, que já se tornou um hábito.O proprietário do restaurante, Humberto Cerejeira, conta como tudo começou:
-“ Eu e a minha mulher, há uns quatro meses, começámos a notar que o saco do lixo aparecia rasgado. Pensávamos que era obra de algum cão que andasse por aí, de noite, mas um dia a minha esposa viu a raposa perto e não fez nada para a assustar; então, o animal foi aparecendo, dávamos restos de carne, e ela acostumou-se a nós”.
O Humberto, carinhosamente, batizou-a de “Lulu”.
No dia em que a equipa de reportagem do Correio da Beira Serra se deslocou ao Vale dos Amores, já a tarde caminhava para a noite, o restaurante tinha a esplanada bem composta de clientes, alguns deles, conhecedores da notícia, eram repetentes. A primeira surtida da raposinha tinha acontecido minutos antes, mas ficou a promessa do Humberto que “… não tarda por aí, é uma questão de esperarem um pouco mais, porque ela pega no pedaço de carne e vai esconder, nunca come perto de nós…”. Na verdade, daí a nada, os clientes mais atentos viram-na chegar; fez uma pausa a uns metros de distância, e como ninguém lhe fez negaças, aproximou-se devagar, orelhas levantadas e o olhar atento ao mais pequeno movimento.
-“Lulu”, toma – diz o Humberto – e o animal, sem pressas, aproximou-se por entre as mesas, abocanhou o seu quinhão de carne, e voltou, nas calmas, pelo mesmo caminho. A cena repetiu-se várias vezes, mesmo quando a ração era entregue por uma criança. Por vezes ficava parada perto da esplanada, como se esperasse que o “padrinho” a “convidasse” a entrar – só a ele e a mais ninguém a raposinha “respondia”. Numa floreira alta que fica perto, o Humberto escondeu um pedaço de carne; ela aproximou-se, um pequeno salto, farejou e levou o “petisco”!
-"Não pensem que a “Lulu” come de tudo, tem o gosto refinado – comenta o Humberto – pão, só se tiver manteiga, não gosta de sardinhas assadas, prefere carne, mas do que ela gosta mais é de camarão”!
O animal é, como se calcula, uma atração no restaurante. Como mais vale prevenir do que remediar, foi desparasitada e já “…falei com o médico veterinário para ver se a conseguimos vacinar e colocar-lhe uma coleira”, acrescenta o Humberto que, a talhe de foice, sempre vai passando palavra aos vizinhos – não vá alguém ter a infeliz ideia de fazer uma espera à “Lulu, de caçadeira na mão…
(...) O “padrinho” tornou-se responsável por ela, cativou-a, como na estória do “Principezinho”, de Saint-Exupéry.
-“ Lulu, toma”!

domingo, 29 de novembro de 2015

“Grande é a poesia, a bondade e as danças..."

... "Mas o melhor do mundo são as crianças…" (Fernando Pessoa) 


Um dia, a Margarida contou-me que o infante Guilherme só comia peixe se este lhe aparecer no prato, inteiro, da cabeça ao rabo - recusa-se a ingerir qualquer posta de “peixe mutilado”, que é como quem diz, na sua imaginação, retalhado aos pedaços, grandes ou pequenos. Mas do que o Guilherme não gosta mesmo nada é de “morangos mortos” nos gelados ou nos iogurtes ...
Uma vez, um dos meus filhos, o Carlo, resolveu semear um caroço de laranja num dos vasos com plantas
que ornamentavam a entrada do prédio onde habitávamos; a sua maior preocupação era, no futuro, o crescimento da árvore e os frutos que haviam de nascer - certamente os vizinhos iriam “roubar as suas laranjas” ...
Já o Hugo, quase a terminar a primeira parte de um jogo de futebol, farto de tanto pontapé numa bola, sem um golinho  dos "nossos", questionou:
- O jogo muda aos "quantos"?....



sábado, 28 de novembro de 2015

Bhav Gonzaga



Hoje, por ser hoje...




Entre a (minha) croniqueta que fiz publicar na “Plateia” sobre o “Tema para um Homem Só”, em 1979, e a “leitura” musical deste “Shangri-La Goa” acabado de nascer (2012), vai um mundo de emoções que não consigo traduzir em palavras - falta-me engenho e arte para juntar letras e construir frases inteiras, das que dançam embaladas pela cadência da (tua) música…
Lembro-me do festival RTP da canção, em 1979, e do teu nervoso miudinho antes de entrares em cena. Depois, não muito depois, o tempo fez com que partilhássemos os bastidores de múltiplos espetáculos.

Contas feitas, já passaram mais de trinta anos – tempo de uma vida à volta de outro tipo de emoções, com Moçambique a fazer a ponte entre as minhas e as tuas memórias, dos “meus” Night Star’s”, de mim para mim, tu e os outros com as lembranças felizes dos teus “Apaches”. Como o tempo passa…

Encantado com os temas de “Shangri-La Goa”, quero tornar público o abraço cordial e fraterno pelas lembranças do “outro lado do mundo”.~

 Kanimambo!
*
2012
 

    






quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Insónias e pesadelos

Vá lá saber-se porquê, uma noite destas tive uma insónia que me deixou mais cansado do que estava quando me deitei.
Dei conta disso depois das voltas nos lençóis; como se não bastasse o corpo maçado, também a alma ficou dorida pelo corrupio de ideias que durante todo esse tempo afloraram à mente, coisas parvas, estúpidas, algumas sem sentido, mas eram ideias e pronto - guardei-as para descodificar em melhor ocasião
Tenho para mim que a falta de sono surgiu na sequência de um daqueles pesadelos de que quase nunca nos lembramos ao acordar; coisa boa, no mínimo razoável, não terá sido...
Como é bom de imaginar, horas a fio naquele jeito incómodo de estar, deram-me a volta à cabeça. Ainda peguei num dos livros que tenho à cabeceira, “Rio das Flores”, de Miguel Sousa Tavares, mas a leitura não trouxe o resultado esperado; reconhece-se ao autor talento e qualidade na escrita e na palavra dita, mas este romance, a meu ver, peca pela minúcia de determinados relatos e esse pormenor enfadou-me, confesso.
A propósito do título, quando o li, pareceu familiar. Pelas dúvidas, fiz uma busca (abençoada Internet!) e encontrei: Rio das Flores é nome de cidade brasileira, pertence ao município do Rio de Janeiro! Mera coincidência, dirão, também creio…
A propósito, o Brasil é um país que me seduz por múltiplas razões; “sei” de um colibri, passarito simpático, de bico esguio e ágil, que suga o néctar das flores pairando no ar com as asitas em frenética velocidade, como todos fazem; este rodopiou uma, duas, vezes, à volta da “primavera” e quase a beijou, como se fosse flor.
Será – é! – uma imagem romântica, como outras que poderia surripiar da obra do poeta Mário Quintana, por exemplo, mas basta esta para ilustrar a poesia do gesto.
Obviamente, não é só o “beija-flor” que me fascina naquele país irmão Pouco amante da arte do samba, prefiro a dança do futebol, aprecio a paisagem “ africana” de que tenho saudade, e o quentinho do clima – outra saudade, agora ainda mais sentida pelo contraste do frio que vai fazendo por cá…
Volto à minha insónia.
É fantástico como no “silêncio do escuro” se pensa de forma profunda nos afrontamentos da vida e nas “soluções” para os problemas que carregamos diariamente! Porém, quando vem a luz do dia, ou se acendemos a lâmpada do candeeiro da mesinha de cabeceira, aquilo que parecia ter lógica, deixa de ter, e as soluções, quando muito não passam de hipóteses…remotas.
Quero dizer que devemos estar em permanente escuridão quando se procuram decisões para os problemas de vária ordem e qualidade? Nada disso - é importante que tudo seja feito às claras, sob pena de ficar alguma sombra incomodativa.
Se há uma solução para determinado coisa que atrapalha, vamos a ela!
O pior é quando não se consegue enxergar uma luz ao fundo túnel e as insónias se confundem com pesadelos…
Como sou um “sortudo” nestas coisas, ando por aí de “candeia acesa”, mas nada de avistar soluções para os meus achaques - só insónias e pesadelos.
Hoje vou jogar no euromilhões!
*

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A "rapariguinha"

Reescrever uma estória publicado em 21.11.06
*
A rapariguinha disse à amiga que estava grávida.
São demasiado jovens. Brincam com coisa séria, pensei.
- É verdade, estás mesmo grávida?
- Estou com um mês, é verdade.
- Que idade tens?
- 17.
- E o teu namorado?
- Tem a minha idade.
A amiga entra na conversa:
- Anda por cima esta parva engravidou de propósito!
- Foi? - quis saber, curioso.
- Foi, pois - respondeu de imediato, com ar feliz, como se tivesse subido ao Everest, e conta:
- O meu namorado enganou-me com outra e eu, como queria ficar com ele, engravidei para o prender. Em minha casa ninguém queria acreditar, nem ele, mas fui fazer os testes à farmácia, e quando os mostrei é que viram que não estava a brincar!
- És "muita stupida" - atira-lhe a amiga, com ar de desprezo.
A rapariguinha encolheu os ombros, continuou a sorrir e saiu do RiTuAl.


domingo, 22 de novembro de 2015

Por ser domingo...


Não é o domingo que me descansa mas, por ser domingo, liberto-me de alguns afazeres institucionais - sou dono absoluto das vinte e quatro horas  deste dia cinzento e frio, como estava anunciado.
De pijama vestido e  bem agasalhado, depois do pequeno almoço, acendi a lareira e decidi reservar a manhã para terminar a leitura  de "Mulheres de Cinza", de Mia Couto.
A obra é mais uma centelha do talento  do autor, a merecer público  louvor; por mim, leitor incondicional, não lhe "perdoo" que tenha deixado a esbelta e bonita Imani,  protagonista da estória, com água na boca por não consumar  o desejo de "(...)  ser mulher...|" nos braços do sargento Germano...
O pormenor que respigo do livro trouxe à minha memória passagens do tempo que vivi nas mesmas paragens, Inhambane e arredores, sendo certo que Mia Couto não exagera nos atributos físicos  com que desenhou a jovem Imani. Inhambane, além de ser "Terra da Boa Gente", como lhe  chamou Vasco da Gama, a caminho da India, é pátria de lindas mulheres. Perdi-me de amores por uma...
Hoje, por ser domingo, decidi-me por um "almoço à portuguesa": bacalhau com batatas e couve tronchuda. O bacalhau foi pescado nos mares da Islândia,  as batatas e a couve vieram do quintal do vizinho;  azeite novo (das minhas oliveiras)  e  dois dentes de alho (espanhóis)   condimentaram o prato. Para acompanhar, com requinte de escanção, escolhi um vinho alentejano de 2003 e  deixei-o "respirar"  a preceito...
Para sobremesa, uma fatia de queijo de Seia e uma banana do Equador...
De volta à lareira, fiz-me acompanhar de um café "Delta"  e  beberiquei  boa porção de medronheira,  do tempo da mãe Natália. 
- "Almoço à portuguesa", ou quase...
A tarde insiste na melancolia  dos dias tristes e as  gatas não "pedem" para ir ao quintal, como é hábito.

Sonhos do profeta com que me fiz



Guardo a recordação de largos minutos de conversa sem rumo certo, embora o motivo que nos levou à fala fosse de importância coletiva, de toda uma comunidade. 


Sem soluções no imediato, limitei-me aos argumentos de ocasião e fui deixando a promessa do meu empenho em levar a bom porto as justas reivindicações das duas senhoras, uma de cabelos da cor da neve, a outra com eles quase grisalhos.

Com a atenção dividida pelas duas, nem dei conta do tempo passar...

As conversas estavam servidas numa taça Lalique, como as cerejas à sobremesa; foi por isso que a uma se seguiu outra, e outra, e outra! Desfrutei, pois, o momento que era único - será único, digo eu, porque faço de profeta quanto ao futuro.

Horas depois, agora, noite alta a entrar na madrugada, continuo com a agradável sensação de que, como a Samaritana, que Coimbra canta, ( “… que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte”) , também eu fiz bem em aceitar a conversa “…a las cinco de la tarde”, (apetece-me citar Garcia Lorca pela coincidência da hora e não pelo conteúdo do poema!…) – e vou trauteando o fado coimbrão, cuja mensagem bem pode ter alguma analogia com o que me vai no pensamento  se uso o adjetivo “plebeu" e o associo à “redentora” de cabelos grisalhos – não por ser quem é ou pela imensidão do sorriso que redimiu o meu dia, mas pelo efeito circunstancial de me deixar acordado na sensação agradável… de um fado!

Grave, grave, é imaginar que o sono tardará, e quando vier… talvez carregue sonhos do profeta com que me fiz na estória. 

Como tomo umas quantas pílulas para manter o equilíbrio entre a “mínima e a máxima”, o ritmo cardíaco deve estar “normalizado” pela manhã, mas nunca fiando!

… Pelo sim, pelo não, uma médica à distância de uma consulta vinha mesmo a calhar!

sábado, 21 de novembro de 2015

"Memórias" de Gabriel Garcia Márquez


Reli "Memórias das minhas putas tristes", de Gabriel Garcia Márquez, colombiano, prémio Nobel da Literatura em 1982 com a obra "Cem Anos de Solidão".

Diz o autor, sobre o avanço da idade no homem maduro, que "...as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e continuamos a ver-nos de dentro como sempre tínhamos sido, mas os outros vêem-nos por fora...".

...Quem olha de "fora para dentro", de facto nem sempre se apercebe que o "interior" não é, necessariamente, o reflexo do "exterior".

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Mia Couto - "Mulheres de Cinza" ( ..."onde moram os feitiços")

Tenho à cabeceira  "Mulheres de  Cinza", de Mia Couto - muito mais do que um escritor universal, no meu conceito de, medulamente, o identificar como parte de mim. "Medulamente", sim - é seu o termo com que me honrou, autografando "A Confissão da Leoa", em 2012,  como um dos seus. 
Assim, somos gente dos mesmos lugares...
Mia Couto é  o instantâneo de uma viagem com  este "...primeiro livro de uma trilogia moçambicana". Preto no branco, em "Mulheres de Cinza", regresso a Inhambane, Inharrime, Marracuene...
Mia Couto enfeitiça-me com as palavras. Falta "olhos nos olhos" para confirmar, como diz, que é "... aí que gostam de morar os feitiços".