quinta-feira, 9 de março de 2017

O "Manel" do talho

O vendedor de automóveis mostrava um dos modelos do catálogo, com ele à mão de semear…
- Pode entrar, espreite, é extramente cómodo.
- Não vale a pena, estou muito bem servido com o meu Toyota…
- Isso é um carro que nunca mais acaba!
Concordei. Mais palavra, menos palavra, e chegámos à despedida, não sem antes ser presenteado com todos os contatos do meu ocasional parceiro de conversa -“se quiser dar uma volta…. não, não obrigado… “.
- Bom, tenho de ir -foi um prazer conhecê-lo. Até chegar à Lousã  ainda  vou visitar alguns clientes.
- Mora na Lousã?
- Moro. Não sou de lá, mas é como se fosse – casei lá.
- Sabe quem é o “Manel” do talho?
- Claro, quem não conhece o senhor “Manel”? É uma excelente pessoa, tem feito bem a muita gente. É uma figura muito estimada na Lousã. Esteve no clube, na Santa Casa...
O vendedor de automóveis ficou sem pressas e folheou memórias, com o “Manel” do Talho dentro delas…
- Também conhece o senhor “Manel”?
- Conheço, somos amigos. Tem toda a razão, é como diz - uma excelente pessoa. Aliás, toda família é excelente. Além de amigos, somos compadres….
O vendedor de automóveis, a esta hora, já deve ter chegado a casa …

quarta-feira, 8 de março de 2017

Torradinhas com manteiga


...por ser hoje e todos os outros dias 
o "dia universal de todas as mulheres"
*
Madrugou o dia tão sereno como a alma de qualquer justo. 
Abri as janelas  e deixei entrar o sol - está tudo  perfeito, até o mundinho minúsculo, que faço meu, como se fosse único. E é, só meu e único!
O galo dos vizinhos desperta a manhã silenciosa e faz dela, 
da manhã silenciosa,
um tempo perfeito - o canto do galo é perfeito. 
...Mais do que perfeito, sem silêncios, seria a voz dela ao pequeno almoço a dois, com torradinhas morenas barradas  com manteiga, servidas  em sorrisos de Lalique.
Sem ela, 
a voz, 
restam as torradinhas morenas barradas com manteiga.

terça-feira, 7 de março de 2017

"Que nunca mais pare quieto"


Por "defeito" vi a final do Festival da Canção da RTP e ainda bem - fiquei a conhecer o Salvador Sobral, o vencedor,  e fiquei fã. 
Depois, fui saber mais sobre  esta personalidade  que, goste-se ou não da canção "Amar Pelos Dois", do estilo e da voz do intérprete, fica na  história  dos festivais como "espécie rara" da simplicidade.Tiro o meu chapéu ao Salvador, como já inha feito à irmã Luisa...
Li no "Público" - com a devida vénia, faço das palavras coisa minha:
"Salvador Sobral é esse artista desde que o ouvi cantar pela primeira vez. Fez-me logo lembrar, pela sensibilidade e pela abertura musical, o jovem Frank Sinatra quando tinha a mesma idade.
Não é preciso acesso às gravações: basta vê-lo no YouTube em qualquer fase da carreira dele. Acompanhamo-la a apanhar as músicas e a torná-las dele e de quem as ouve. É maravilhoso ver como ele se surpreende com o próprio talento, deixando--se enlevar e levando-nos com ele.
Viva Salvador Sobral! Que nunca mais pare quieto".

sábado, 4 de março de 2017

Os "sete magníficos"

Longos meses tem o ano ...
Faço contas e,  incrédulo, concluo  que há mais de uma década  não partilhava o convívio fraterno de alguns  amigo, nem  a bebericar um simples café, como aconteceu esta tarde.
Do combinado encontro de hoje, vieram os abraços dos  "sete magníficos" Carlos Dias, Rodrigues Gonçalves, Jorge Passos, Francisco Garcia, Manuel da Costa, Alípio de Melo e Manuel Casimiro. Sem reservas, livres e de bons costumes, partilhámos memórias  e conversas de ocasião, recordámos os ausentes  e ficou a promessa  de que, não tarda, havemos de prolongar outra tarde, a começar  pelo almoço tertuliano e os "rituais da ordem" à sobremesa...

O segredo

Gabriel Garcia Márquez diz que o "segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão".
Nada é imutável, até os pactos com a solidão...

sexta-feira, 3 de março de 2017

Parabéns à Mata (da Margaraça)

Serra do Açor - Paisagem Protegida  

Hoje, sexta feira, 3 de Março, a chuva não permitiu que o programa comemorativo dos 35 Anos da Paisagem Protegida da Serra do Açor fosse cumprido na íntegra, com a participação das crianças do Agrupamento de Escolas de Arganil.

"A classificação da Paisagem Protegida da Serra do Açor (PPSA) em 1982,  teve como principal objetivo a proteção dos valores naturais, culturais, científicos e recreativos aí presentes.
(…) A sua criação resultou de um longo processo, em que o objetivo central foi a preservação da Mata da Margaraça, onde se inclui a Fraga da Pena - várias quedas de água ao longo de um curso de água permanente, constituindo um local de grande importância paisagística (…)".
-
Texto recolhido no portal do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)

quarta-feira, 1 de março de 2017

Ainda ontem era menino...


... apetece-me ser assim - eu no retrato

O peso dos anos tem a importância e o valor do trajeto que percorremos. O carrego pode ser pesado se a vida foi madrasta, leve se a fortuna teve sorrisos de boa vizinhança. A memória é o arquivo de todas as coisas - das brincadeiras com o pião aos futebois no largo da escola, das reguadas da professora Georgina aos seus preciosos ensinamentos, do liceu ao primeiro emprego, da primeira namoradinha ao grande amor adolescente, dos passarinhos presos nas armadilhas, aos mergulhos no rio, ao Américo Cigarrada (...os peixes que agarrava à mão, no "meu" rio, só para me satisfazer os desejos!...), à avó Virgínia, à mãe Natália, aos filhos, aos netos, à reforma….. uffffffffff, ainda ontem era menino…
*quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Uma menina chamada Laura


Sendo real, a estória tem tratamento de encantar…

Era uma vez uma menina chamada Laura, carinha de porcelana, cabelo aos caracóis e olhitos ladinos. 
Menina, sim, mas veloz nas palavras e nos passinhos miúdos, a Laura (talvez, Laurinha para os familiares e amigos…) gosta muito do Acácio - espécie de tio de quem todas as crianças gostam. O Acácio, “tio”, é assim, sempre foi assim - é por isso que está nesta estória, mas não faz pate dela.
Um dia, uma amiga da mãe da Laura, simpática e gentil, diz à menina com carinha de porcelana, cabelo aos caracóis e olhitos ladinos:
- Sabes, tens um cabelo muito bonito! Se eu pudesse tinha um cabelo como o teu… 
A Laura, menina, sim, mas rápida no pensamento, sorriu, arrancou um dos seus cabelos e ofereceu à Ivone, amiga da sua mãe. 
… Disse a Ivone que a Laura a " (…) deixou com lágrimas nos olhos"!

-Ilustração  de “A menina do Mar” de Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 25 de fevereiro de 2017

"Princesa bailarina"

- Nônô -

A bailarina

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meireles

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Carla...



movimenta-se pelos corredores do hospital  leve como uma pluma. 
A Carla espalha sorrisos e  palavras amigas, de conforto. 
A Carla, além dos sorrisos, das palavras 
e da leveza de movimentos, 
toca-nos a alma com as pontas dos dedos 
- massaja-nos o coração. 
A Carla assume-se de corpo inteiro  à  arte sublime de cuidar do seu semelhante pelo gosto de gostar da sua profissão de enfermeira...
... e nós ficamos assim, sem palavras no  momento de dizer obrigado.