segunda-feira, 29 de setembro de 2014
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
As últimas telhas da CARRIÇA

A CARRIÇA tinha a morte anunciada!
Hoje foi o dia - o derradeiro dia para imaginar a última viagem das telhas a caminho dos fornos, agora adormecidas nos leitos. Quem tivesse a carteira mais recheada, podia chamar-lhes suas. Preço base para o lote: oitocentos euros !
- Quem dá mais... quem dá mais? , perguntava o leiloeiro obstinado.
Subiram as ofertas, o negócio fez-se por quatro mil e duzentos euros, "...para aquele senhor com a chapa número "tal"...".
Mais lotes, peças individuais, mobiliário de escritório, pá carregadeira, empilhador, caterpillars, laboratório, linhas de produção...
- Duas linhas de produção por setecentos mil euros. Quem oferece mais?
Plateia muda, burburinho na sala...
Antigos funcionários da CARRIÇA estão perplexos com os silêncios - um, de cabeça baixa, por certo negava as evidências do momento que lhe entristecia a alma...
Sem ofertas, o leiloeiro cumpre a lei e pede aos interessados que se pronunciem.
Agora sim, era chegada a hora do "banquete".
Animaram-se as vozes - a mais sonante ficou-se por menos de metade da base da proposta inicial.
Animaram-se as vozes - a mais sonante ficou-se por menos de metade da base da proposta inicial.
- Vendidas àquele senhor, com a placa "x", por trezentos e dez mil euros!
A CARRIÇA tinha a morte anunciada! Hoje foi o"último suspiro"...
Antes, durante e depois do leilão do património da "CARRIÇA", Gabriel García Márquez, escritor colombiano, Nobel da Literatura em 1982, permaneceu vivo nas memórias das minhas leituras - não pelo best seller "Cem Anos de Solidão" ou "Memórias de Minhas Putas Tristes", por exemplo, mas pelo título com que batizou uma das suas laureadas obras: "Crónica de uma Morte Anunciada".
Surrupio a ideia, não o conteúdo da estória...
Surrupio a ideia, não o conteúdo da estória...
- "Tenho uma tristeza profunda pelo esbanjamento deste património (...), vendido ao desbarato..." . O funcionário com "... dezenas de anos de casa", meneou a cabeça, desabafou mágoas e virou-me as costas. Por certo nem reparou no sujeito da chapa número "tal" quando retirou um "braçado" de notas do bolso das calças ...
domingo, 31 de agosto de 2014
E o rio, senhores?
"Na serra mais alta de Portugal continental nasce num murmúrio o Rio Alva, que corre devagar e manso a caminho da foz no Rio Mondego, em Porto da Raiva, perto de Penacova, às portas de Coimbra.
O fio de água transforma-se em ribeiro quase à nascente, mas à medida que recebe suores de outras fontes, depressa se assume como rio pujante de vida, sem quedas ou desvios - os que existem são obra do Homem, que desde sempre usou o caudal para seu benefício, dos moinhos de moagem às “rodas de alcatruzes” que, nos estios, durante semanas, noite e dia, despejavam cântaros de seiva nas levadas e estas, serpenteando, alimentavam os milheirais e outras culturas de ocasião...".
Tem anos este texto sintetizado sobre o "meu" rio - rio de todos nós, afinal, porque não desejo assenhorear-me dele, como coisa minha.
Ontem, em Côja, tarde fora, de forma pública e a céu aberto para levar (mais) gente à Praça, a iniciativa para "turistificar" "Côja e a Região" foi a debate. Debate suave, acrescento eu, a mando das regras do saber ouvir mais e melhor os ensinamentos de três engenheiros e dois doutores, segundo o grau e qualidade dos ditos, que se mostraram à altura do raro acontecimento vespertino.
Lindo de ouvir, para regalo dos interessados em matérias específicas, "turistificou-se" a marca que há-de ser patenteada com a intenção de divulgar e promover "Côja e a Região". Assim seja, tão depressa quanto possível!
Na esperança de ouvir meia dúzia de palavrinhas sobre o "meu" rio - sobre o rio de todos nós! - mantive-me atento, mas nada foi dito sobre a limpeza das margens do rio de todos nós e, mais grave ainda, a ausência de debate sobre a diminuição do caudal do Alva no verão, ao que se diz, da responsabilidade das mini hídricas existentes a montante de Côja...
Estivesse eu mais falador e havia conversa animada, mas não, não estava nos "meus dias" - mantenho o assunto agendado para quando for chamado a depor ( se for!) sobre a "galinha dos ovos de ouro"...
- Com "pouco rio", nem a roda de alcatruzes cumpre a sua missão!
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Sempre "fixe", giro e vivaço
O Renato é este jovem "fixe, giro e vivaço" com quem me cruzei um dia em Oliveira do Hospital, na Livraria Apolo. Era estudante, mais tarde seria engenheiro, confessou...
Nasceu em Côja.
- Ai sim? - disse eu, alegre de mim para mim, por ser conterrâneo de tão garboso jovem, rodeado de "miúdas", colegas da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital....
- Pertences a que família? , quis saber...
- Sou filho do Orlando.
- ... Castanheira?...
- Sim!
- Ohhh, sou amigo do teu pai há imensos anos, desde o tempo do conjunto musical "pop king's". Grandes farras, Renato, podes crer...
Sorrimos ambos, partilhei confidências...
A conversa pode não ter sido textualmente assim, mas andou perto - tão perto que me recordo de certos pormenores sobre uma "tal miúda", cliente do RiTuAl Bar do meu tempo...
Depois, em Côja, eu e o Orlando falámos várias vezes sobre a vida académica do Renato...
Continuei a encontrar o meu jovem amigo, sempre "fixe", giro e vivaço, no bar da Livraria Apolo, local de eleição da "malta" da ESTGOH, ou em Côja, na Boutique da Tuxa. Foi aí que soube da sua intenção de seguir a carreira militar...
Às vezes, quando rodeado amigos, não dava pela presença do Renato e era ele, sorridente e simpático, que tomava a iniciativa do cumprimento - sempre "fixe", giro e vivaço!
Hoje, a meio da tarde, eu e o pai, chegámos ao mesmo tempo à ponte velha de Côja; parámos as viaturas, demos prioridade a quem vinha em sentido contrário, o Orlando saudou-me num gesto largo e seguiu viagem, muito, muito apressado...
terça-feira, 8 de julho de 2014
Dois euros e dez

"...subi a margem até à muralha que insiste em prender o rio sem resultados visíveis - bem pelo contrário: acelera as águas que se despenham em espuma no leito"!
Hoje, como estava sem pão, decidi comprar uma broa de milho (tenho sardinhas para o almoço de amanhã, e a broa faz parte da ementa...). Para que conste: da minha casa à padaria mais próxima a distância é "curta" : três quilómetros!
Com a viagem a meio, cruzo-me com um jovem casal estrangeiro que fazia o mesmo percurso a pé no sentido inverso ao meu; a senhora conduzia um carrinho de bébé e o homem seguia alguns metros adiante.
- Com este tempo quente, uma caminhada de três quilómetros não é nada agradável - comentei com os meus botões...
Ocupei-me cerca de uma hora com outros afazeres e, à volta, fui à padaria:
- Uma broa e um pão de mistura, se faz favor - pedi à balconista,
- Quanto lhe devo? - perguntei.
- Dois euros e dez - respondeu a balconista.
Retirei da carteira o dinheiro certo, paguei, e fiz-me ao caminho.
Antes de regressar a casa, decidi ir ao Urtigal - espécie de placebo e refúgio de múltiplos sons com que descanso o espírito sempre que anda inquieto; da paisagem reservo todos os olhares e fico cheio de belezas infinitas ...
Quase duas horas depois, muito próximo do "paraíso", encontro a mesma família. Perguntei em português se iam para o Urtigal - que sim, respondeu o homem em espanhol e assim nos entendemos.
Ofereci boleia: a mãe subiu com o filho para o banco de trás, o marido para o da frente.
Poucos metros adiante caminhavam duas jovens conhecidas . Como de costume, em tempo de férias, a meio da tarde, os estudantes têm encontro marcado no Urtigal. Nova paragem e mais duas "passageiras"!
Chegados ao destino, os ocupantes ocasionais agradeceram a boleia, eu segui o meu caminho solitário, subi a margem até à muralha que insiste em prender o rio sem resultados visíveis - bem pelo contrário: acelera as águas que se despenham em espuma no leito! - e voltei à minha 4X4.
Estacionei a viatura à porta de casa, procurei por "tudo quanto é sítio" , mas nem o cheiro agradável do pão a sair do forno pairava no ar...
Retornei à padaria, repeti a encomenda pelo mesmo preço de dois euros e dez, e contei a estória à balconista.
- Deixe lá, sempre matou a fome a alguém - disse, sorrindo, a simpática funcionária da "Boutique da Tuxa".
domingo, 11 de maio de 2014
... Como se estivesse em São Carlos

No âmbito das comemorações do Foral Manuelino atribuído a Côja, em 1514, anunciava-se o trio Prestige "...que alia o piano de Tito Tavares e o violino de Mário Siegle à voz lírica de Carla Bernardino, (que) prima pela beleza das interpretações musicais e pela dedicação com que encara a música clássica, tornando-a aprazível aos ouvidos de quem ouve".
Quando nos deixamos transportar nas asas das melodias durante uma "viagem de ida e volta", ficamos com a sensação de que nos roubam minutos ao tempo estipulado para o serão. Começa-se na expectativa do reportório, termina-se nos encores, que foram dois - sinal de agrado, amplamente manifestado pelo público. Foi assim esta noite na Igreja Matriz de Côja...
Por mim, "estive no Teatro Nacional de São Carlos"! !
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Amigo de Einstein
Apresso-me para o serão quando acontece alguma coisa do meu agrado num dos canais da televisão - pode ser um jogo de futebol, um concerto musical, uma fita de cinema ou as conversas do Professor Marcelo. Novelas, não, obrigado - vejo teatro no canal memória, em memória das minha andanças pelos bastidores de algumas salas de Lisboa, e ainda em memória dos tempos em que fui "aprendiz de artista" na minha cidade de Lourenço Marques.
Se me apresso, quero o tempo corrido, com os ponteiros do relógio a trote. Em bom rigor, o tempo escorre pela ampulheta dos segundos em velocidade de cruzeiro - não me adianto ( nem atraso!) no tempo!
"...Para Einstein, o tempo não existe de fato, ou melhor, não existe um “Tempo real, ou um tempo absoluto”, como afirmava Newton".
Pronto, o "tempo não existe"! Tenho uma sorte "bestial" por ser "amigo de Einstein"...
domingo, 30 de março de 2014
A dona Irene partiu
É domingo e ainda não alterei a hora - continuo nas 10 e 40.
Pela minha hora, 10 e 40, traço planos para o almoço - carne ou peixe, mas como me esqueci de descongelar qualquer coisa para grelhar, o melhor é olhar as reservas enlatadas.
...A Smooth FM faz-me companhia, como em todas as manhãs, muito antes das 10 e 40.
A Ivânia acaba de telefonar.
- Olá senhora/menina engenheira - brinco - bom dia! Estás bem, filhota? E o João? ( O João é o marido da Ivânia, que entrou para a família pela porta grande - não há ninguém que não goste dele, incluindo a mãe Natália; as patilhas do João é que não eram muito do seu agrado...).
Por minutos, continuou o diálogo; falei do tempo frio desta manhã - se calhar vou acender a lareira, disse eu. A minha filha concordou:
- Aqui (nas Caldas da Rainha) também está frio, o tempo está cinzento..
- Olha pai, estou a ligar para dizer que a avó Irene morreu esta noite!
A avó Irene, minha sogra, foi uma senhora de coração enorme - maior do que o país que abraçámos como nosso: Moçambique. Foi aí, em Moçambique, na noite passada, que a dona Irene Fonseca fechou os olhos para sempre. Tinha oitenta e mais uns anos...
Agora, que passa das 11 ( pelo meu relógio...), enquanto escrevo saltam vivas as memórias de um tempo em que a dona Irene era a matriarca da família, sempre apaziguadora de pequenas divergências.
Senhora com mãos de oiro na arte de costurar lindos vestidos de noiva ou um enxoval inteiro para a criança que ia a batizar - tivesse ela a cor que tivesse! - estou em crer que vai ter muitos afilhados no funeral...
A minha sogra, dona Irene, juntou-se à minha mãe Natália no Oriente eterno.
Ai... as recordações que tenho de ambas!...
Vou acrescentar mais uma hora aos ponteiros dos relógios.
Vou acrescentar mais uma hora aos ponteiros dos relógios.
sexta-feira, 14 de março de 2014
A jogar "em casa"

"A Bola" - Imagem surripiada esta manhã
Andar por cá, enquanto tenho vida para viver, é um gosto emocional sem palavras para o definir de forma precisa e concreta. Gosto, e pronto...
Este viajar por dentro de mim é nunca estar só - de lembrança em lembrança, tanto posso "estar" num ponto de Moçambique, dos que aprendi a amar, ou em Toronto, no Canadá. por terras de França ou da Suiça, da Holanda, Inglaterra, Espanha...
Nesta Europa onde nasci, encontrei compatriotas amantes da Pátria, sem olhar às cores clubistas - assistir a um jogo de futebol na Alemanha com o Benfica a "jogar em casa", é como se estivesse na Luz!
O serão da noite passada trouxe à minha memória a imagem única de um desses dias.
E como o Benfica ganhou, adormeci assim, "feliz da vida"...
sexta-feira, 7 de março de 2014
Esplanada do Café Central
Há
cinquenta e sete anos, num dia qualquer de março, ao começo da noite, assisti a
uma das primeiras emissões da RTP através de um aparelho estrategicamente
colocado na esplanada do Café Central, em Almada. Lembro-me das imagens a preto
e branco da Orquestra Ferrer Trindade e da imensa gente que lotava a esplanada.
Depois, sempre que estava de regresso a casa, no Barril de Alva, ia ver
televisão à casa do senhor Abílio Figueiredo, ou do senhor Abílio Quaresma…
Há
cinquenta e sete anos, deram-me a conhecer um mundo novo - sou desse tempo novo
e dos tempos que se seguiram, sempre novos, como o aniversário da RTP ao serão com gente nova e os outros, sempre novos nas minhas lembranças…
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