segunda-feira, 2 de março de 2015

Uma gota de bom cheiro

Barbeei o  rosto  e apliquei a loção indicada para  pele macia e sedosa, no  embalo da publicidade do rótulo do frasco  redondo, branco e esguio.
Assim, de bom  cheiro e   agasalhado no tom do inverno, já na rua, saboreei o vento com receio do retorno dos espirros amadurecidos  em janeiro...
O vento tocava-me a face, antipático e agreste, logo hoje - pensei -,  dia da estreia de uma nova Gillette e do abuso na quantidade da loção indicada para pele macia e sedosa, carente, isso sim, das carícias dos ventos  do norte e nada mais do que ventos do norte,  como uma gota de  Chanel 5 de bom cheiro.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Quando Deus murmura ao ouvido...


         
Fátima Campos Ferreira 
entrevista Lobo Antunes:
(...)
- Qual é o seu Deus?
- ... É aquele que às vezes me diz ao ouvido que gosta de mim!
                                                                   
 RTP 1, terça feira, 20 de Janeiro de 2015 -21 h e 25 m

domingo, 7 de dezembro de 2014

(...) estupidamente jovem de sonhos a superlotar uma "valise de carton"...

O sol que entra filtrado pela janela da sala com quarenta e dois metros quadrados de espaço útil é insuficiente para me aquecer, sentado no sofá com anos de uso mas com os pés assentes no granito do chão da lareira; quando chega o frio gelado da Estrela, ela, a lareira, renasce das cinzas depois do milagre da chama de um fósforo em comunhão  com  uma acendalha.
Como sempre, em horas do mesmo estilo e feitio, pela manhã, ouço  rádio - não uma estação qualquer, as minhas preferências vão por inteiro para a Smooth FM, que reservo em tudo quanto é aparelho  de companhia nos silêncios das  ausências físicas de filhos e netos. Se me apetece, coloco um LP de vinil no gira discos e transporto o pensamento para tempos de glória, quando se é estupidamente jovem de sonhos a superlotar  uma "valise de carton", que é o local próprio para guardar  os sonhos em qualquer idade - eu que o diga: amante do "tango", por ser tosco no ritmo, fiquei-me pelo "baile mandado"... 
Levanto-me do sofá, curvo-me para chegar à prateleira mais baixa da estante  e com a mão direita retiro à sorte, não um LP, mas o "Single" "O Tango dos Barbudos"! Coincidência... 
-  Agora vou  rodopiar na cadência da dança - sempre movimento as pernas abraçado à nostalgia de uma "matinée"  nos "Velhos Colonos", de preferência  ao som dos "Night Stars" , "Renato Silva", "Corsários", ou  dos "I Cinque di Roma" numa "soirée" do Hotel Polana...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Posso Ajudar?

Repete-se  a croniqueta e acrescento estória com final  semelhante e outra protagonista,  como se fosse um "tango" ( ou outra dança...) com dedicatória  anunciada no silêncio das meias palavras. 
Da Mariana, conheci-lhe o sorriso;  do "tango", apenas palavras - das que alimentam o espírito...

A Mariana trabalhava na Livraria Académica e usava os cabelos compridos.
Perdi o conto às visitas que fiz à livraria, na esperança de ser ela a ouvir os meus pedidos de coisas simples: lápis, borrachas, papel cavalinho, aguarelas...
Quando não estava necessitado de nada, teimava em continuar cliente de leituras, embora curtas. Foi assim que conheci Mário Sá Carneiro, António Botto, Alves Redol e tantos outros autores portugueses
A estratégia era simples: para que a Mariana viesse ter comigo, entrava na loja e ia direitinho à estante das obras menos procuradas. E ela vinha, mesmo depois de se ter apercebido da marosca, com um sorriso malandro.
- Posso ajudar?
Poder, podia, mas a ajuda necessária não tinha nada a ver com esclarecimentos sobre as obras expostas. Talvez se falasse do tempo que fazia lá fora, do single musical em voga ou de qualquer coisa que me fizesse ganhar coragem, eu teria saído do canto da minha timidez e declarava-me... "apaixonado"!
A Mariana foi sempre muito profissional no seu papel de balconista e nunca passou do cumprimento de circunstância e da frase sempre igual:
-Posso ajudar?
Eu, como não tinha asas para voar para outras conversas, fiquei cativo da timidez e ela nunca soube da minha "paixoneta"... adolescente.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

"Arte de Furtar"

Veio parar-me às mãos uma edição gráfica da Gulbenkian, onde se podem ler alguns textos escritos no Século XVII. Um deles, sem nome do autor, intitula-se a “ Arte de Furtar”.

Ficam os títulos que encimam alguns capítulos  "...da graça literária..."(1), para merecimento da atenção do leitor:

“Como para furtar há arte, que é ciência verdadeira”; 
“Como a arte de furtar é muito nobre”; 
“Como os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar-nos de outros ladrões”;
“Como se furta a título de benefício”, etc.

“… Assim se prova que há arte de furtar; e que esta seja ciência verdadeira é muito mais fácil de provar, ainda que não tenha escola pública, nem doutores graduados que a ensinem em universidade, como têm as outras ciências...” – anotou o escrevinhador, ilustre desconhecido.

... O livrinho parece ter saído agora do prelo...
___

(1) Sobre o eventual autor da obra e outros apontamentos, ler:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_de_Furtar

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

As últimas telhas da CARRIÇA




A CARRIÇA tinha a morte anunciada!
Hoje foi o dia - o derradeiro dia para imaginar  a última viagem das telhas a caminho dos fornos, agora adormecidas nos leitos. Quem tivesse a carteira mais recheada, podia chamar-lhes suas. Preço base para o lote: oitocentos euros !
- Quem dá mais... quem dá mais? , perguntava  o leiloeiro obstinado.
Subiram as ofertas, o negócio fez-se por quatro mil e duzentos euros, "...para aquele senhor com a chapa número "tal"...".
Mais lotes, peças individuais, mobiliário de escritório, pá carregadeira, empilhador, caterpillars, laboratório,  linhas de produção...
- Duas linhas de produção por setecentos mil euros. Quem oferece mais?
Plateia muda, burburinho na sala...

Antigos funcionários da CARRIÇA estão perplexos com os silêncios - um, de cabeça baixa, por certo negava as evidências do momento que lhe entristecia a alma...
Sem ofertas, o leiloeiro cumpre a lei e pede aos interessados que se pronunciem.
Agora sim, era chegada a hora do "banquete". 
Animaram-se as vozes - a mais sonante ficou-se por menos de metade da base  da proposta inicial.
- Vendidas àquele senhor, com a placa "x",  por trezentos e dez mil euros!
A CARRIÇA tinha a morte anunciada! Hoje foi o"último suspiro"...
Antes, durante e depois do leilão do património da "CARRIÇA", Gabriel García Márquez, escritor colombiano, Nobel da Literatura em 1982, permaneceu vivo nas memórias das minhas leituras - não pelo best seller "Cem Anos de Solidão" ou "Memórias de Minhas Putas Tristes", por exemplo, mas pelo título com que batizou uma das suas laureadas obras: "Crónica de uma Morte Anunciada".
 Surrupio a ideia, não o conteúdo da estória...
 - "Tenho uma tristeza profunda pelo esbanjamento deste património (...), vendido ao desbarato..." . O  funcionário com "...  dezenas de anos de casa", meneou a cabeça, desabafou mágoas   e virou-me as costas. Por certo nem reparou no sujeito da chapa número "tal" quando retirou um "braçado" de notas do bolso das calças ... 

domingo, 31 de agosto de 2014

E o rio, senhores?


"Na serra mais alta de Portugal continental nasce num murmúrio o Rio Alva, que corre devagar e manso a caminho da foz no Rio Mondego, em Porto da Raiva, perto de Penacova, às portas de Coimbra.
O fio de água transforma-se em ribeiro quase à nascente, mas à medida que recebe suores de outras fontes, depressa se assume como rio pujante de vida, sem quedas ou desvios - os que existem são obra do Homem, que desde sempre usou o caudal para seu benefício, dos moinhos de moagem às “rodas de alcatruzes” que, nos estios, durante semanas, noite e dia, despejavam cântaros de seiva nas levadas e estas, serpenteando, alimentavam os milheirais e outras culturas de ocasião...".

Tem anos este texto sintetizado sobre o "meu" rio - rio de todos nós, afinal, porque não desejo assenhorear-me dele, como coisa minha.

Ontem, em Côja, tarde fora, de forma pública  e a céu aberto para levar (mais) gente à Praça, a iniciativa  para "turistificar" "Côja e a Região"  foi a debate. Debate suave, acrescento eu, a mando das regras do saber ouvir mais e melhor os ensinamentos de três engenheiros e dois doutores, segundo o  grau e qualidade dos ditos, que se mostraram à altura do raro acontecimento vespertino.
Lindo de ouvir, para regalo dos interessados em matérias específicas, "turistificou-se" a marca  que há-de ser patenteada com a intenção de divulgar  e promover "Côja e a Região". Assim seja, tão depressa quanto possível!
Na esperança de ouvir meia dúzia de palavrinhas sobre o "meu" rio - sobre o rio de todos nós! - mantive-me atento,  mas nada foi dito sobre a limpeza das margens do rio de todos nós  e, mais grave ainda, a ausência de  debate sobre a diminuição do caudal do Alva  no verão, ao que se diz, da responsabilidade das mini hídricas existentes a montante de Côja...
Estivesse eu mais falador e havia conversa animada, mas não, não estava nos "meus dias" - mantenho o assunto agendado para quando for chamado a depor  ( se for!) sobre a "galinha dos ovos de ouro"...
-  Com  "pouco rio", nem a roda de alcatruzes cumpre a sua missão!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Sempre "fixe", giro e vivaço

O Renato é este jovem  "fixe, giro e vivaço" com quem me cruzei um dia em Oliveira do Hospital, na Livraria Apolo. Era estudante, mais tarde  seria engenheiro, confessou...
 Nasceu em Côja.
- Ai sim? - disse eu, alegre de mim  para mim, por ser conterrâneo de tão garboso jovem, rodeado de "miúdas", colegas da  Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital.... 
- Pertences a que família? , quis saber...
- Sou filho do Orlando.
- ... Castanheira?...
- Sim!
- Ohhh, sou amigo do teu pai há imensos anos, desde o tempo do conjunto musical  "pop king's". Grandes farras, Renato, podes crer...
Sorrimos ambos, partilhei confidências...
A conversa pode não ter sido textualmente  assim, mas andou perto - tão perto que me recordo de certos pormenores  sobre uma "tal miúda", cliente do RiTuAl Bar do meu tempo...
Depois, em Côja, eu e o Orlando falámos várias vezes sobre a vida académica do Renato...
Continuei a encontrar o meu jovem amigo, sempre "fixe", giro e vivaço, no bar  da Livraria Apolo, local de eleição da "malta" da ESTGOH, ou em Côja, na Boutique da Tuxa. Foi   aí que soube da sua intenção de seguir a carreira militar...
Às vezes, quando rodeado amigos,  não dava pela presença do Renato e era ele, sorridente  e simpático, que tomava a iniciativa do cumprimento - sempre "fixe", giro e vivaço!
Hoje, a meio da tarde, eu e o pai, chegámos ao mesmo tempo à ponte velha de Côja; parámos as viaturas, demos prioridade  a quem vinha em sentido contrário, o Orlando saudou-me num gesto largo e seguiu viagem, muito, muito  apressado...




terça-feira, 8 de julho de 2014

Dois euros e dez


 "...subi a margem até à muralha que insiste em prender o rio sem  resultados  visíveis - bem pelo contrário: acelera as águas que se despenham  em espuma no leito"!






Hoje, como estava  sem pão, decidi  comprar uma broa de milho (tenho sardinhas para o almoço de amanhã, e a broa faz parte da ementa...). Para que conste: da minha casa à padaria mais próxima  a distância é "curta" : três quilómetros!
Com a viagem a meio,  cruzo-me com um jovem casal estrangeiro que fazia o mesmo percurso a pé no sentido inverso ao meu; a senhora  conduzia  um carrinho de bébé e o homem seguia alguns metros adiante.
- Com este tempo quente, uma caminhada de  três quilómetros  não é nada agradável - comentei com os meus botões...
Ocupei-me cerca de uma hora com outros afazeres e, à volta, fui à padaria:
- Uma broa e um pão de mistura, se faz favor - pedi à balconista,
- Quanto lhe devo? - perguntei.
- Dois euros e dez - respondeu a balconista.
Retirei da carteira o dinheiro certo, paguei, e fiz-me ao caminho.
Antes de regressar a casa, decidi ir ao Urtigal - espécie de placebo e refúgio de múltiplos sons com que descanso o espírito sempre que anda inquieto; da paisagem reservo  todos os olhares e fico cheio de  belezas infinitas ...
Quase duas horas depois, muito próximo do "paraíso", encontro a mesma família. Perguntei  em português se iam para o Urtigal - que sim,  respondeu o homem em espanhol e assim nos entendemos.
Ofereci boleia: a mãe subiu com o   filho para o  banco de trás,  o marido para o da frente.
Poucos metros adiante caminhavam duas jovens  conhecidas . Como de costume, em tempo de férias, a meio da tarde, os estudantes têm encontro marcado no Urtigal. Nova paragem e mais duas "passageiras"!
Chegados ao destino, os ocupantes ocasionais agradeceram a boleia, eu segui o meu caminho solitário, subi a margem até à muralha que insiste em prender o rio sem  resultados  visíveis - bem pelo contrário: acelera as águas que se despenham  em espuma no leito! -  e voltei à minha 4X4.
Estacionei a viatura à porta de casa, procurei por "tudo quanto é sítio" , mas nem o cheiro agradável do pão a sair do forno pairava no ar...
Retornei à padaria, repeti a encomenda pelo mesmo preço de dois euros e dez, e contei a estória à balconista.
- Deixe lá, sempre matou a fome a alguém - disse, sorrindo,  a simpática funcionária da "Boutique da Tuxa".

domingo, 11 de maio de 2014

... Como se estivesse em São Carlos




No âmbito das comemorações do Foral Manuelino atribuído a Côja, em 1514, anunciava-se o trio Prestige "...que alia o piano de Tito Tavares e o violino de Mário Siegle à voz lírica de Carla Bernardino, (que) prima pela beleza das interpretações musicais e pela dedicação com que encara a música clássica, tornando-a aprazível aos ouvidos de quem ouve".
Quando nos deixamos transportar nas asas das melodias durante uma "viagem de ida e volta", ficamos com a sensação de que nos roubam minutos ao tempo estipulado para o serão. Começa-se na expectativa do reportório, termina-se nos encores, que foram dois - sinal de agrado, amplamente manifestado pelo público. Foi assim esta noite na Igreja Matriz de Côja...
Por mim,  "estive no Teatro Nacional de São Carlos"! !