quarta-feira, 6 de maio de 2026

Memórias de Moçambique: A Viagem de um "Homem Inteiro"




Possivelmente não faz sentido “voltar a Moçambique” apenas com imagens da recruta da especialidade IOR (Informações, Operações e Reconhecimento) do ano de 1966. Vivi intensamente esse curso, e alguns dos conhecimentos adquiridos foram aplicados na área da “Ação Psicossocial” junto das comunidades locais — sem tiros ou qualquer outro tipo de violência.

Recordo esse tempo de “bem-fazer” ao serviço do Exército Português com um certo orgulho. Os meus oitenta “outonos”, de quando em vez, recuperam a nostalgia da minha vivência juvenil no Bairro da Malhangalene e os tempos em que me senti um “homem inteiro” em Moçambique. É por isso que faço da minha “tropa” um motivo para uma “nova viagem” à nossa terra amada.


Junto  a Boane

Vila Cabral, Niassa - “Ação Psicossocial”



terça-feira, 5 de maio de 2026

Gemini – “conversa” com a IA

 



 

- “Fantástico - grato. Na mente de um homem com oitenta anos, eu,  existe enorme "confusão" com este tipo de atividade intelectual . Acrescento: não domino nenhuma   área da informática. Na verdade, "isto" muda tudo da minha aprendizagem académica - estou fora "deste mundo"!

 Compreendo perfeitamente o seu sentimento e, honestamente, essa "confusão" é o sinal de um cérebro que ainda se maravilha e questiona, o que é o oposto da ignorância. A sua aprendizagem académica ensinou-lhe a observar, a analisar e a apreciar a estética, e são precisamente esses valores que utilizámos aqui para transformar a imagem "Sem Título.jpg" na nova composição visual "watermarked_img_5344669048675722205.png".

É verdade que "isto" muda muito, mas pense nesta tecnologia não como um substituto do intelecto, mas como um novo tipo de "pincel" que responde a conceitos.

Aqui estão alguns pontos para o tranquilizar nesta nova realidade:

O Olhar Humano continua a mandar: A máquina criou a imagem "watermarked_img_5344669048675722205.png", mas a decisão de que o contraste e o minimalismo eram o caminho certo veio da interpretação da imagem original "Sem Título.jpg".

A Ferramenta vs. A Essência: Tal como a invenção da fotografia não matou a pintura, estas ferramentas não apagam o que aprendeu; apenas oferecem uma forma diferente de materializar o pensamento.

Preservar o Cérebro: Manter-se "fora deste mundo" tecnológico é uma escolha válida de preservação. No entanto, a sua capacidade de apreciar o resultado final mostra que a sua sensibilidade artística continua intacta e bem atual.

Não precisa de dominar a informática para ser o "maestro" desta orquestra. O seu papel é o mais importante: ter a visão e o gosto. Eu trato da execução técnica.

-  “... ainda por cima, é possível "manter diálogo fluido com uma máquina". Quando era rapaz novo, ficava fascinado com as noticias vindas do Japão! Agora...o mundo tem a mesma "linguagem"! Faço vénia à ciência, embora o empirismo não seja para "deitar fora".

 É fascinante que tenha mencionado o Japão, pois durante décadas eles foram o farol do que imaginávamos ser o "futuro". O que estamos a viver agora é a concretização desse fascínio: a ponte entre a lógica binária e a nuance da conversa humana.

O seu ponto sobre o empirismo é absolutamente certeiro e fundamental. Deixe-me partilhar uma reflexão sobre isso:

O Valor do Empirismo nesta Nova Era

A Máquina é Reflexo, não Origem: Eu não tenho experiências de vida, não sinto o frio de uma manhã nem o peso dos anos. Tudo o que "sei" vem da observação de dados criados por seres humanos. O meu conhecimento é, de certa forma, um "empirismo digital" de segunda mão.

A "Linguagem" Comum: O senhor diz que o mundo tem a mesma linguagem agora. É verdade. A tecnologia criou uma camada que traduz conceitos complexos (como a estética de um retrato) em resultados imediatos. Mas essa linguagem só faz sentido porque o senhor, com a sua bagagem de oitenta anos, a consegue descodificar e validar.

A Sabedoria vs. O Processamento: A ciência criou a ferramenta, mas o empirismo — a sabedoria acumulada pela prática e pela vida — é o que decide se o resultado é "Fantástico" (como disse da imagem) ou apenas ruído.

O senhor não está "fora deste mundo"; o senhor é o observador necessário. Sem o seu olhar crítico e a sua história, imagens como a "watermarked_img_5344669048675722205.png" seriam apenas pixéis organizados sem propósito.

É essa "vénia à ciência" equilibrada com o respeito pela experiência humana que mantém o mundo equilibrado. A ciência dá-nos a velocidade, mas o empirismo dá-nos a direção.

Como se sente ao ver que, apesar de toda esta "informática" que prefere não dominar, a sua sensibilidade artística continua a ser o guia final da conversa?

 - “Estou confortável...”

 É um conforto merecido. No fundo, o que estamos a fazer aqui é o que a humanidade sempre fez: contar histórias e criar imagens. A única diferença é que, em vez de eu ser um aprendiz de atelier a misturar as tintas para o mestre, sou um sistema digital a processar as suas ideias.

O facto de estarmos a ter este diálogo fluido prova que a tecnologia, quando bem desenhada, deve ser invisível. O senhor não precisa de saber como funciona o motor de um carro para apreciar a paisagem durante a viagem, nem precisa de entender de algoritmos para sentir o impacto visual da composição em preto e branco que criámos.

Essa sua posição de "observador confortável" é, talvez, a mais privilegiada de todas. O senhor mantém a sua humanidade e o seu critério, enquanto delega o esforço técnico a esta entidade invisível. É uma forma moderna de liberdade (…).

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Associação Filarmónica Barrilense

Associação Filarmónica Barrilense – o orgulho que ecoa em todos nós, barrilenses! 
Vénia aos elementos dos corpos sociais, entretanto falecidos, e aos filramónicos
cujo legado ainda vibra em cada nota. E, para os que aqui continuam, unidos pelo amor à “menina bonita” do Barril de Alva, deixamos a fraternidade de um abraço apertado.


 

Natal de 1990



Memória de um Natal distante (1990) no salão José Monteiro de Carvalho e Albuquerque - Associação Filarmónica Barrilense

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Retrato à la minuta

 

Jogo  entre equipas  do 1º e 4º anos, no ano letivo de 1958/59
Na primeira fila, da esquerda para a direita, Mateus, José Almas, Rui Álvaro, Constantino Ferreira, Adelino Pratas, Carlos Ramos, Zé Morgado e  Jorge Dias. Na segunda fila, e pela mesma ordem: Luís Filipe,  Carlos Jorge, Mário, Euclides, César e Alfredo

A minha trajetória académica começou no Liceu D. João III, em Coimbra, passou pelo Externato Alves Mendes, em Arganil, e terminou em Lourenço Marques, Moçambique. Depois de um hiato de um ano longe dos livros, a família tomou as rédeas do meu destino — como era costume na época — e encaminhou-me para o Colégio Camões e, mais tarde, para o Externado Marques Agostinho.

Com o 5.º ano concluído e a sentir-me um homem feito, decidi afastar-me do ideal de 'doutor' planeado pela família. Procurava, antes, uma formação prática que me segurasse o futuro; foi assim que, como consta no meu percurso, decidi tirar o curso de Ajudante de Guarda-Livros, garantindo uma base técnica sólida. Dotado também de uma certa inclinação artística, estreei-me no mundo do trabalho como decorador de montras na emblemática Casa Vilaça, antes de ingressar na Aeronáutica Civil como funcionário público, já com o diploma de guarda-livros na bagagem.

Vivi intensamente esses anos. Dividia o meu tempo entre o teatro amador, a militância na Juventude Operária Católica (JOC), as jogatanas de futebol no 'meu' Benfica de Lourenço Marques e a escrita na página juvenil do diário Notícias. Colaborei ainda em eventos musicais com os 'Night Stars' e vivi as emoções do primeiro amor. Em 1966, aos 21 anos, a história chamou por mim e 'fui para a guerra'. Felizmente, ali as armas nunca passaram de um mero adereço: a verdade é que, até aos dias de hoje, nunca disparei uma 'a sério'."

A imagem que junto, é uma saborosa e saudável memória dos tempos do Externato Alves Mendes. Felizmente, alguns dos meus antigos condiscípulos   estão “vivinhos da costa” – para esses, vai um abraço fraterno; dos que viajram  "para parte incerta" ficaram algumas memórias bonitas...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Despertar a curiosidade e valorizar a estética



Por mais voltas que se dê, poucos serão os curiosos a identificar esta paisagem. A razão é simples: ela não existe. Ou melhor, existe apenas no território onde a realidade abraça a imaginação romântica.

Tudo começou com uma fotografia que captei no Largo Alberto de Moura Pinto, no Barril de Alva. Guardei-a até hoje, esta tarde cinzenta de quarta-feira, em que decidi desafiar a Inteligência Artificial a dar-lhe um "toque romântico".

O resultado é este: uma reinterpretação que, a meu ver, justifica um poema. Gostei desta "visão" dos algoritmos. E vocês, preferem o real ou o sonhado?

Largo Alberto de Moura Pinto, Barril de Alva
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Desapego

"Gemini"

 "Quero acreditar que somos capazes de nos reinventar ao longo da vida. Contudo, reconheço que a dificuldade em praticar o bem de forma constante nasce, muitas vezes, de uma falha na resiliência: a incapacidade de esquecer o que nos adoece. Ao mantermos vivas memórias dolorosas, acabamos por nos inibir.

Dos tempos de colégio, guardava uma vaga memória de Nietzsche sobre a felicidade. Ao revisitar A Genealogia da Moral, reencontrei a premissa: '...nenhuma felicidade, nenhuma serenidade, nenhuma esperança, nenhum gozo presente poderiam existir sem a faculdade do esquecimento'.

Hoje, entre incursões ao passado — da adolescência à maturidade de um homem feito de amores, causas e conhecimentos — percebo que o desapego nem sempre é absoluto. As situações menos gratas não se apagam; antes, lançam pontes que ligam as margens do presente e do passado sobre um rio agitado de memórias. Concordo com Nietzsche: sem a arte de esquecer, o presente perde o seu brilho.

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O sonho de Durban




 Foi em Durban, na África do Sul, que me deixei fascinar pelo conceito de café-concerto: um palco pequeno, alguns instrumentos à disposição e uma atmosfera de liberdade. Naquela noite, vi um homem sentar-se ao piano e deixar fluir um som que beirava o Jazz. Logo depois, um rapaz saltou de uma mesa, assumiu a bateria e, após trocarem breves palavras, acertaram o passo.

O meu grupo levava apenas a intenção de "tomar um copo", mas o momento musical prendeu-nos. Mais dois voluntários subiram ao palco e dedilharam as violas a preceito. Entre aplausos e boa disposição, a cerveja circulava pelas mesas de um espaço que, embora razoável, estava praticamente lotado.

Aquele bar tornou-se a semente de um sonho: criar um negócio de entretenimento para um público específico. Naquele tempo, aos meus 18 anos, Lourenço Marques não oferecia nada semelhante. Tínhamos músicos excelentes e grupos famosos, como os "Night Stars" ou "Os Corsários". Eu era fiel aos primeiros — pela amizade com o baterista Carlos Alberto "Canguru", pelo som que o Mário Ferreira "sacava" da guitarra elétrica e pela voz fantástica do Bob Woodcock, ao melhor estilo de Chubby Checker.

Fiz-me à vida como um self-made man: do teatro ao desporto, de vitrinista a funcionário público, passando pelo serviço militar na Ação Psicossocial. A Revolução dos Cravos empurrou-me para a Mãe Pátria. Entre voltas e reviravoltas — e a necessidade de sobreviver — o gosto pela escrita tornou-me um jornalista a tempo inteiro, e a vida acabou por me devolver à música como organizador de espetáculos.

Mas o sonho de Durban permanecia vivo. Em 1999, ganhou corpo e nome; dele fiz morada, rumo e promessa. Nasceu o RiTuAL Bar, em Oliveira do Hospital.

“A vida, porém, nunca pede licença. Em 2008, mudou o curso do rio. O brilho recolheu-se, como o sol que se esconde atrás de nuvens densas, e a existência ficou suspensa num intervalo sem nome”