quarta-feira, 1 de abril de 2020

"O outro lado do tempo"


… Se calhar, “sou de lá”

Num dia como este, com um cravo vermelho na lapela das minhas memórias, em silêncio, regresso ao “outro lado do tempo” - viagem apressada até aos dias do agora: eu, “setentinha”, que o cabelo grisalho acentua sem convencer a “ideia que trago no pensamento”:
- Eu, quarentão… ou um pouco mais…
Pauso no (meu) tempo “trintão” e “regresso” a João Belo, no Xai Xai, e reencontro-me com a terra e as pessoas, odores, sabores, hábitos e costumes.
Volto mais atrás, ao tempo que me viu crescer, de menino a adulto.
- A primeira paixoneta, ainda “visível” na lembrança, na Malhangalene, em Lourenço Marques, a paixão pela prática do futebol no Benfica de “lá”, o colégio, a Casa Vilaça (espécie de universidade onde cultivei conhecimentos sobre a estética do belo…), a Juventude Operária Católica (JOC) e o teatro, o ingresso na Aeronáutica Civil, ser fã indelével da Natércia Barreto e dos seus “Óculos de Sol”, dos grupos “Night Stars”, de L.Marques, “Shadows”, “Beatles” e de tantos outros artistas do top internacional, como Gilbert Bécaud, as matinés no Scala; o serviço militar, de Boane à Maxixe, Inhambane e Vila Cabral, no Niassa, através da prática de experiências jornalísticas nos “Jornais da caserna” “Gazela”, “Kuambone” e a “Voz do 20”, à Ação Psicossocial, como elemento da especialidade IOR (Informações, Operações e Reconhecimento); a colaboração no “Notícias”, de L. Marques, depois no "Diário", a chefia de uma secção administrativa na Fábrica Siesta, em L. Maques, ao Ford Escort 1300 GT, o meu primeiro automóvel...
Num dia como este, com um cravo vermelho na lapela das minhas memórias, em silêncio, “regresso” no tempo a João Belo, onde constitui família, à “Casa Fonseca”, aos torneios de futebol de salão, às praias do Xai Xai, ao Bilene…
O 25 de Abril de 1974 veio ter comigo quando a família crescia: a Carla e o Carlo eram todo o nosso enlevo.
Embora não tivesse nascido em Moçambique, acreditava que “era dali” – aquele país era a minha Pátria!
Num dia como este, com um cravo vermelho na lapela das minhas memórias, em silêncio, recuo ainda mais no tempo, a Portugal - ao tempo da escola primária, no Barril de Alva, do liceu D. João III, em Coimbra, ao Externato Alves Mendes, em Arganil, e ao… Urtigal da minha meninice…
… Se calhar, “sou de lá”, do Urtigal - é o que me diz o tempo.

sexta-feira, 27 de março de 2020

A "guerra" que não fazia parte dos nossos medos



A Segunda Guerra Mundial terminou no ano em que nasci – eu e o José António, meu irmão gémeo.
Do “Zé Tó” não guardo qualquer memória: com nove meses de vida, um tipo de “febre” assassina fez de mim filho único. Para sempre.
Dos tempos da “Guerra Fria” até aos dias de hoje, tantos foram os receios de uma terceira catástrofe mundial - coisa nunca vista pelo uso das armas nucleares!  
- Silenciosa e traiçoeira, a pandemia de Covid-19  não fazia parte  dos nossos  medos - Hiroshima e Nagasaki, sim!


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O Dúlio e eu



Arganil é terra de saudade pelas memórias do extinto Externato Alves Mendes, que frequentei durante algum tempo.  
Alguns dos meus antigos condiscípulos permanecem vivos nas lembranças, principalmente aqueles/as com quem partilhei “qualquer coisa” de importante… quando se tem a idade “primaveril” de doze anos: uma paixoneta pela colega mais bonita da turma (natural de Coja), admiração por outra que tinha na “ponta da língua” acertadas respostas para (quase) todas as perguntas dos professores, alguns professores,  o “pessoal” da bola…
Fintas, chutos e golos de levantar o “público dos estádios” do Argus  e do União..
Que tempos aqueles!
Certa vez, como mostra a fotografia, os minorcas do primeiro ano alinharam com oito garbosos e "talentosos atletas", e a equipa do quarto ano com seis matulões “pés de chumbo”… convencidos de que, por serem “grandes”, tinham a vitória “no papo” - e “deram dois (jogadores) de avanço”!
… Do árbitro e seus ajudantes não há memória. Sobre o resultado da jogatina também não…
O Dúlio Pimenta é um rapaz do meu tempo – desse tempo do Colégio Alves Mendes. É dos poucos com quem mantenho ligação afetiva por questões profissionais e políticas. Um dia destes, depois de uma temporada sem conversas, caímos literalmente num abraço… na caixa de um supermercado. Um espetáculo “nunca visto”!
- Como a “Quinta do Urtigal”, no Barril de Alva, aos domingos serve um “cozido à portuguesa” de “comer e chorar por mais”… temos de pôr a conversa em dia, amigo Dúlio.
-
*As "equipas". Na primeira fila, da esquerda para a direita: Mateus, José Almas, Rui Álvaro, Constantino Ferreira, Adelino Pratas, Carlos Ramos, Zé Morgado, e Jorge Dias. Na segunda fila: Luís Filipe, Carlos Jorge, Mário, Euclides, Cesar e Alfredo (Ilustração da crónica  "Fernando Vale e a bola",   escrita pelo Constantino Ferreira e publicada na "Comarca de Arganil")


sábado, 18 de janeiro de 2020

“Correr mais e jogar mais…”


O jogo do Benfica com o Rio Ave confirmou o que há “muito suspeitava”: já “ninguém” respeita os “grandes”, quando são mesmo “grandes”, a começar pelo tamanho dos estádios….
Na passada terça feira, ao quentinho da  lareira, a RTP permitiu que eu, um cão e dois gatos “assistíssemos” à vitoria do  “glorioso”, mas…
Como  se sabe, o SLB sofreu para levar de vencida o ”miúdo” Rio Ave, “atrevido e arrogante” a ponto de marcar um golaço  a abrir  a contenda que, a meu ver, lá está, tinha tudo para “esclarecer” o  meu filhote Hugo,  que certa vez, num jogo no estádio do Estrela da Amadora, questionou o mano Carlo:
- “Isto” muda aos quantos? Era o Hugo no recreio da escola, só podia…
Empertigado, o Rio Ave, deixou-me ligeiramente inquieto com a sua “falta de respeito” – uma “desfaçatez inadmissível”!
Apesar da vitória, dormi mal, acordei com a sensação de que alguma coisa  não estava bem “cá dentro”: a tensão arterial com  valores acima da média tarde fora,  e à noitinha upa, upa – a coisa  agravou-se!
“Medricas”, peço ajuda à “Saúde 24” que me encaminha “… !” para as urgências do Centro de Saúde mais próximo. Foi o que fiz… em boa hora: um comprimido que deixei derreter debaixo da língua, a conselho do médico de serviço, deixou-me “como novo”!
Ainda “medricas”, a noite passada tomei  a “corajosa decisão” de não acompanhar ao vivo, pela TV ou pelo relato, as incidências do jogo  o Sporting / Benfica - fiquei-me pela “Nazaré”, a novela que é isso mesmo, uma novela, agora meio trapalhona; como  estórias de novelas  não são a minha “praia”, se calhar  são todas assim, trapalhonas…
- O Benfica foi ganhar a Alvalade; o Porto perdeu em casa com o Braga. Uauuuu!
Pelas explicações do treinador do Benfica, Bruno Lage, eles “…têm de correr mais e jogar mais para nos vencer…"!
Era isto que eu queria ouvir do “mister” para ter o sono tranquilo. Amém!
P.S. - Esta manhã, a minha tensão arterial continuava nos valores habituais!

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Três gatos e um cão


O adeus a 2019 teve muito pouco do relato abaixo publicado no tempo próprio. Desta vez, três gatos e um cão foram a companhia "escolhida" para o réveillon...


Quando o sino da torre da igreja do meu sitio anunciou a meia-noite e meia dúzia de foguetes poluíram o silêncio, é que dei conta do falecimento do ano velho. 
Trau... trau, trau... pum! É esta a fala dos foguetes, dos baratinhos, sem “lágrimas coloridas”!
Bolo rei, passas e “champanhe”, abraços e beijinhos, sorrisos e votos de bom ano. Na casa do meu amigo Armando a mesa estava posta - perto da lareira é que se estava bem...
- Vai à nossa e das nossas famílias, chim... chim – tocam-se os copos com a “Raposeira” a borbulhar. 
De regresso a casa “aconcheguei-me nos braços da Imani Nsambe ”, (…) uma jovem negra que estudou numa missão católica (…), na esperança de “dois dedos de conversa” - impossível, o telefone não permitia tais mimos, há sempre retardatários, amigos e familiares: bom ano, bom ano, com saúde, digo eu, que é o que mais desejo - a ver se me faço anunciar em dezembro, daqui a um ano…
Já tarde, em sossego, aproximei-me novamente da Imani Nsambe e aí fiquei, as "minhas mãos nas mãos de Imani Nsambe".
Estou a meio da leitura do romance histórico escrito pelo meu amigo Mia Couto, “O Bebedor de Horizontes”. Foi ele, o autor, que me apresentou Imani Nsambe, a narradora dos (…) trágicos acontecimentos do final do reinado de Gaza (…).
Mia Couto “enfeitiça” o leitor com as palavras que escolhe para contar estórias e realça a história do seu (e meu!) povo com a autenticidade dos pormenores recolhidos em múltiplas fontes. A trilogia “As Areias do Imperador”, que termina com “O Bebedor de Horizontes”, é o melhor testemunho do que me vai no pensamento sobre as lendas que escutei aqui e ali, em terras de Inhambane, mais tarde em Gaza, sobre Gungunhana, o rei.
Possivelmente Imani Nsambe é figura de conveniência no romance - que importa? Hoje foi o mote para esta croniqueta de “trazer por casa” depois de um festim com espumante, “sonhos”, “fatias douradas”, “arroz doce” e, a abrir, camarões de Moçambique, possivelmente pescados nas águas de Morrumbene, a norte de Inhambane.
Bayete, Imani Nsambe!
- Vale a pena ler "AS MULHERES DO GUNGUNHANA"
*
(Publicado  em 2018 com o título "Imani Nsambe e eu")

sábado, 17 de agosto de 2019

Nônô - a estética do belo


"O caminho faz-se caminhando". 
NÔNÔ - "dez reis de gente", talento de sobra num corpo de menina e um futuro promissor, seja qual for a área que venha a escolher: música, ballet, patinagem artística, pintura, poesia, contadora de estórias...talvez teatro, digo eu, maravilhado com o que os meus olhos vêm e o "coração escuta". 
Deixo um abraço terno, grato pela partilha de um poema, surpreendentemente emocionado na dedicatória a um ente querido "em viagem para o Oriente Eterno", e mais mimos nos seus dourados caracóis quando deposita nas minhas mãos a pintura que acima reproduzo, com a devida vénia. Calo as palavras e procuro entender, em silèncio,  o "arco-íris" da sua imaginação. Que um erudito o faça... ou um profeta - o futuro "também se caminha" pela leitura da estética do belo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Tallinn e Maputo ao "virar da esquina"

 
A Graça tem o “péssimo”  hábito de ir por esse mundo fora à descoberta do belo e do bonito ( não digo do perfeito …) e encanta-se com o que os seus olhos vêm. Vai daí, passa a palavra do seu contentamento e eu, “confrade” nos RiTuAiS da amizade, leio e vejo…
Isto é coisa antiga: já em 2007 (?) alinhavei um texto onde dava  conta das minhas “invejas miudinhas”
(https://ritualmente.blogspot.com/2007/08/emoo-de-ter-inveja.html). Agora, depois da viagem a uma das minhas “pátrias” (Moçambique) “usou e abusou” das saudades e isso  não se faz a quem lhe quer bem (também) pelas memórias  dos RiTuAiS passados.
… leiam um excerto do texto, escrito em 2007,  e digam se tenho, ou não, razão  quando “assumo  a (minha) emoção de ter inveja”:
(…) falava de férias e da inveja que me corrói as entranhas pelo gozo com que os meus amigos ostentam o tom moreno trazido da praia, que para mim é uma chatice: areia em demasia, água salgada, ondas revoltas, sol, muito sol… calor! Praia de jeito é a que tem esplanadas, mesas e cadeiras confortáveis, cervejinhas bem frescas, e, já agora, uns camarões grelhados para desenjoar da bebida; se houver mar calmo e o reflexo da lua nas águas vier acompanhado do romantismo de companhia agradável e gentil, tanto melhor……
Recordo que o ano passado, por esta altura, sofri da mesma maleita; dados os factos passados e presentes, acho que sou portador de um “vírus crónico” que não se dá nada bem com este tempo… de férias.
-“Hoje estou em Tallinn (capital da Estónia)” e estou a adorar… –
 escreve(u) a Graça, para me “irritar”- só pode (...).
 __

Maputo: imagens de Graça Cardoso



quinta-feira, 26 de julho de 2018

RiTuAL BAR - a "Oriente de Coja"

Recordar os tempos do meu tempo do RiTuAL BAR é um exercício dolorido. 
Na época, a cidade de Oliveira do Hospital desfrutava com prazer noites diferentes, únicas. 
A assunção pública de determinada postura filosófica, renascida a "Oriente de Coja", trouxe ao espaço figuras ilustres da cultura que, de forma direta, ou não, patrocinaram momentos inesquecíveis - da música à poesia, da pintura às letras, dos debates cívicos às tertúlias mais comezinhas.
As imagens que trago à primeira página deste RiTuAl fazem parte de mim, apaixonado como eu era (e assim continuo...) pelas pessoas...

O RiTuAl BAR, além de "copos", servia outros pretextos para dois dedos de conversa...

quarta-feira, 25 de julho de 2018

A noite adormeceu tarde, nostálgica

"Ritualistas" reunidos em jantar de saudade na EXPOH 2018 - Feira Regional de
Oliveira do Hospital





Alguns dos amigos (e clientes…) do RiTuAL Bar de outros tempos juntaram-se num jantar de saudade, como tem sido hábito nos últimos anos. Desfilaram memórias, contaram-se estórias, recordaram-se “ritualistas” que já partiram para “parte incerta”, como o professor Sérgio, e a noite adormeceu tarde, nostálgica…
À mesa, a Graça e o André, eu e a Lurdes, novo membro da “família” por adoção plena, que do RiTuAL apenas conhece momentos fotográficos que lhe deixam “água na boca”…
Anotadas as ausências da Ângela e da Maria João, sujeitas a “castigo”, como é da praxe, que será “cobrado” depois das férias com um jantar caseiro a decidir – quando, Ângela?

Se a EXPOH é o local ideal para reencontrar amigos, o RiTuAL, no caso, é pretexto para abraços cordiais e conversas de ocasião, como aconteceu com o Prof. Alexandrino (presidente da câmara), Nuno Oliveira (presidente da junta), Luís Antero (músico, radialista e autor do programa “Xisto Sonoro”), Liliana Lopes, (jornalista da Rádio Boa Nova) o casal Dilia / José Carlos, e mais uma “mão cheia” de outros “ritualistas” de quem a (minha) memória (já) não recorda os nomes próprios…
… Ao longe, avistei o Francisco Rolo, amigo dileto, vereador da câmara.
Remata-se o texto com um lauto festim de “princesinhas”… "à RiTuAL”.




André e Ricardo - "mestres ritualistas"