terça-feira, 5 de agosto de 2014

Sempre "fixe", giro e vivaço

O Renato é este jovem  "fixe, giro e vivaço" com quem me cruzei um dia em Oliveira do Hospital, na Livraria Apolo. Era estudante, mais tarde  seria engenheiro, confessou...
 Nasceu em Côja.
- Ai sim? - disse eu, alegre de mim  para mim, por ser conterrâneo de tão garboso jovem, rodeado de "miúdas", colegas da  Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital.... 
- Pertences a que família? , quis saber...
- Sou filho do Orlando.
- ... Castanheira?...
- Sim!
- Ohhh, sou amigo do teu pai há imensos anos, desde o tempo do conjunto musical  "pop king's". Grandes farras, Renato, podes crer...
Sorrimos ambos, partilhei confidências...
A conversa pode não ter sido textualmente  assim, mas andou perto - tão perto que me recordo de certos pormenores  sobre uma "tal miúda", cliente do RiTuAl Bar do meu tempo...
Depois, em Côja, eu e o Orlando falámos várias vezes sobre a vida académica do Renato...
Continuei a encontrar o meu jovem amigo, sempre "fixe", giro e vivaço, no bar  da Livraria Apolo, local de eleição da "malta" da ESTGOH, ou em Côja, na Boutique da Tuxa. Foi   aí que soube da sua intenção de seguir a carreira militar...
Às vezes, quando rodeado amigos,  não dava pela presença do Renato e era ele, sorridente  e simpático, que tomava a iniciativa do cumprimento - sempre "fixe", giro e vivaço!
Hoje, a meio da tarde, eu e o pai, chegámos ao mesmo tempo à ponte velha de Côja; parámos as viaturas, demos prioridade  a quem vinha em sentido contrário, o Orlando saudou-me num gesto largo e seguiu viagem, muito, muito  apressado...




terça-feira, 8 de julho de 2014

Dois euros e dez


 "...subi a margem até à muralha que insiste em prender o rio sem  resultados  visíveis - bem pelo contrário: acelera as águas que se despenham  em espuma no leito"!






Hoje, como estava  sem pão, decidi  comprar uma broa de milho (tenho sardinhas para o almoço de amanhã, e a broa faz parte da ementa...). Para que conste: da minha casa à padaria mais próxima  a distância é "curta" : três quilómetros!
Com a viagem a meio,  cruzo-me com um jovem casal estrangeiro que fazia o mesmo percurso a pé no sentido inverso ao meu; a senhora  conduzia  um carrinho de bébé e o homem seguia alguns metros adiante.
- Com este tempo quente, uma caminhada de  três quilómetros  não é nada agradável - comentei com os meus botões...
Ocupei-me cerca de uma hora com outros afazeres e, à volta, fui à padaria:
- Uma broa e um pão de mistura, se faz favor - pedi à balconista,
- Quanto lhe devo? - perguntei.
- Dois euros e dez - respondeu a balconista.
Retirei da carteira o dinheiro certo, paguei, e fiz-me ao caminho.
Antes de regressar a casa, decidi ir ao Urtigal - espécie de placebo e refúgio de múltiplos sons com que descanso o espírito sempre que anda inquieto; da paisagem reservo  todos os olhares e fico cheio de  belezas infinitas ...
Quase duas horas depois, muito próximo do "paraíso", encontro a mesma família. Perguntei  em português se iam para o Urtigal - que sim,  respondeu o homem em espanhol e assim nos entendemos.
Ofereci boleia: a mãe subiu com o   filho para o  banco de trás,  o marido para o da frente.
Poucos metros adiante caminhavam duas jovens  conhecidas . Como de costume, em tempo de férias, a meio da tarde, os estudantes têm encontro marcado no Urtigal. Nova paragem e mais duas "passageiras"!
Chegados ao destino, os ocupantes ocasionais agradeceram a boleia, eu segui o meu caminho solitário, subi a margem até à muralha que insiste em prender o rio sem  resultados  visíveis - bem pelo contrário: acelera as águas que se despenham  em espuma no leito! -  e voltei à minha 4X4.
Estacionei a viatura à porta de casa, procurei por "tudo quanto é sítio" , mas nem o cheiro agradável do pão a sair do forno pairava no ar...
Retornei à padaria, repeti a encomenda pelo mesmo preço de dois euros e dez, e contei a estória à balconista.
- Deixe lá, sempre matou a fome a alguém - disse, sorrindo,  a simpática funcionária da "Boutique da Tuxa".

domingo, 11 de maio de 2014

... Como se estivesse em São Carlos




No âmbito das comemorações do Foral Manuelino atribuído a Côja, em 1514, anunciava-se o trio Prestige "...que alia o piano de Tito Tavares e o violino de Mário Siegle à voz lírica de Carla Bernardino, (que) prima pela beleza das interpretações musicais e pela dedicação com que encara a música clássica, tornando-a aprazível aos ouvidos de quem ouve".
Quando nos deixamos transportar nas asas das melodias durante uma "viagem de ida e volta", ficamos com a sensação de que nos roubam minutos ao tempo estipulado para o serão. Começa-se na expectativa do reportório, termina-se nos encores, que foram dois - sinal de agrado, amplamente manifestado pelo público. Foi assim esta noite na Igreja Matriz de Côja...
Por mim,  "estive no Teatro Nacional de São Carlos"! !

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Amigo de Einstein

Apresso-me para o serão quando acontece alguma coisa do meu agrado num dos canais da televisão - pode ser um jogo de futebol, um concerto musical,  uma fita de cinema ou as conversas do Professor Marcelo. Novelas, não, obrigado - vejo teatro no canal memória, em memória das minha andanças pelos bastidores de algumas salas de Lisboa, e ainda em memória dos tempos em que fui "aprendiz de artista" na minha cidade de Lourenço Marques.
Se me apresso, quero o tempo corrido, com os ponteiros do relógio a trote. Em bom rigor, o tempo escorre pela ampulheta dos segundos em velocidade de cruzeiro - não me  adianto ( nem atraso!) no tempo!
"...Para Einstein, o tempo não existe de fato, ou melhor, não existe um “Tempo real, ou um tempo absoluto”, como afirmava Newton".
Pronto, o "tempo não existe"! Tenho uma sorte "bestial" por  ser "amigo de Einstein"...


domingo, 30 de março de 2014

A dona Irene partiu

É domingo e ainda não alterei a hora - continuo nas 10 e 40.
Pela minha hora,  10 e 40, traço planos para o almoço - carne ou peixe, mas como me esqueci  de descongelar qualquer coisa para grelhar, o melhor é olhar as reservas enlatadas.
...A Smooth FM faz-me companhia, como em todas as manhãs, muito antes das 10 e 40.
A Ivânia acaba de telefonar.
- Olá senhora/menina  engenheira - brinco -  bom dia! Estás bem, filhota? E o João? ( O João é o marido da Ivânia, que entrou para a família pela porta grande - não há ninguém que não goste dele, incluindo a mãe Natália; as patilhas do João é que não eram muito do seu agrado...).
Por minutos, continuou o diálogo; falei do tempo frio desta manhã - se calhar vou acender a lareira, disse eu. A minha filha concordou:
- Aqui  (nas Caldas da Rainha)  também está frio, o  tempo está cinzento..
- Olha pai, estou a ligar para dizer que a avó Irene morreu esta noite!
A avó Irene, minha sogra,   foi uma senhora de coração enorme - maior do que o país que abraçámos como nosso: Moçambique. Foi aí, em Moçambique, na noite passada, que a dona Irene Fonseca fechou os olhos para sempre. Tinha oitenta e mais uns anos...
Agora, que passa das 11 ( pelo meu relógio...), enquanto escrevo saltam vivas as memórias  de um tempo em que a dona Irene era a matriarca da família, sempre apaziguadora de pequenas divergências.
Senhora com mãos de oiro na arte  de costurar lindos vestidos de noiva ou um enxoval inteiro para a criança que ia a batizar -  tivesse ela a cor que tivesse! - estou em crer que vai ter muitos afilhados no funeral...
A minha sogra, dona Irene, juntou-se à minha mãe Natália no Oriente eterno.
Ai... as recordações que tenho de ambas!...
Vou acrescentar mais uma hora aos ponteiros dos relógios.


sexta-feira, 14 de março de 2014

A jogar "em casa"


"A Bola" - Imagem  surripiada  esta manhã

Andar por cá, enquanto tenho vida para viver, é um gosto emocional sem palavras para o definir de forma precisa e concreta. Gosto, e pronto...

Este viajar por dentro de mim é nunca estar só - de lembrança em lembrança, tanto posso "estar" num ponto de Moçambique, dos que aprendi a amar, ou em Toronto, no Canadá. por terras de França ou da Suiça, da Holanda, Inglaterra, Espanha...

Nesta Europa onde nasci, encontrei compatriotas amantes da Pátria, sem olhar  às cores clubistas - assistir a um jogo de futebol na Alemanha com o Benfica a "jogar em casa", é como se estivesse na Luz!

O serão da noite passada trouxe à minha  memória  a imagem única de um desses dias.

E como o Benfica ganhou, adormeci assim, "feliz da vida"...

sexta-feira, 7 de março de 2014

Esplanada do Café Central




Há cinquenta e sete anos, num dia qualquer de março, ao começo da noite, assisti a uma das primeiras emissões da RTP através de um aparelho estrategicamente colocado na esplanada do Café Central, em Almada. Lembro-me das imagens a preto e branco da Orquestra Ferrer Trindade e da imensa gente que lotava a esplanada. Depois, sempre que estava de regresso a casa, no Barril de Alva, ia ver televisão à casa do senhor Abílio Figueiredo, ou do senhor Abílio Quaresma…

Há cinquenta e sete anos, deram-me a conhecer um mundo novo - sou desse tempo novo e dos tempos que se seguiram, sempre novos, como o aniversário da RTP ao serão com gente nova e os outros, sempre novos nas minhas lembranças…

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Gestos sem palavras

(...)
O "Scala", além de cinema, de vez em quando, apresentava artistas de renome mundial, como Yves Montand, Marcel Marceau...
- Que sorte que eu tive nesse tempo!

sábado, 11 de janeiro de 2014

À MESA COM O "CUCO RAMBOIA" -"Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos"



Em 1963 vivia em Lourenço Marques, Moçambique.
Com a idade de 18 anos aproximei-me da obra literária de Alves Redol durante uma visita à Livrara Académica com o fito de ganhar o sorriso inteiro da empregada, de nome Mariana, e nada mais do que isso. Infelizmente, apesar de várias  tentativas nunca passou a fronteira do institucional “olá”, seguido da gentileza de frases feitas: “…posso ajudar? …o que deseja?”.
Sem a coragem de outras falas, eu pedia coisas simples: lápis ou borrachas, papel cavalinho ou tinta-da-china; uma vez, ou outra,comprava um livro.
Devo à Mariana a descoberta de Alves Redol.
Comecei pela “Barca dos Sete Lemes”, e tempos depois, “Fanga”. Ainda em 1963, comprei “Barranco de Cegos”, mais tarde “Anúncio”, “ O Muro Branco” e “Gaibéus”.
Retornei a Portugal, Alves Redol “veio comigo”; por cá, estava ausente dos escaparates das livrarias – até um dia, quando dei de caras com “Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos” !
 Li a obra num fôlego.
 Constantino Caralinda - aliás, “Cuco Ramboia”-, mora no Freixial, ”… tem doze anos, mas não deitou muito corpo para a idade. Ainda está a tempo. Um homem cresce até ao fim da vida, se não em altura, pelo menos em obras e ambições…” – relata Alves Redol.
Um dia, tempos atrás, o meu filho Hugo, apresentou a namorada à família: Rita Caralinda!
Vieram as palavras de ocasião, de parte a parte, e uns segundos depois pedi licença para me ausentar; quando regressei, trazia numa das mãos a obra de Alves Redol.
A Rita sorriu, perguntei se  “este” Constantino  era da família, que sim, disse, e acrescentou:
 – É o meu pai, e está vivo, felizmente!

No último Natal, eu, o Hugo e a Rita fomos jantar ao Freixial, à casa do “Cuco Ramboia”.
Para que a emoção fosse acrescida, à mesa, além de outras familiares, estava a irmã Ana Maria - também ela personagem da estória, escrita "...sem qualquer ímpeto de desforço, este contarelo, um tanto biográfico, é obra  de pura devoção" - Alves Redol.

" ...Como já sabemos, o meu amigo  Constantino é Cuco - e Cantigas também.
Todo o povo gosta dele; "é um homem pequeno", diz a gente quando o vê passar na lida; e conta-se, entre sorrisos e olhares  ( da Portela, onde moramos os dois, ao Alto, que fica junto à estrada, ou ao Rossio e às Ermidas, cá em baixo,  quando se busca a saída para Bucelas), certa conversa a que o Constantino deu andamento..."
Alves Redol

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio: Bayete, irmão!


...deram-me umas botas com travessas,  calções quase brancos e uma camisola de um vermelho desbotado. A camisola, mesmo assim, tinha o símbolo da águia...

Acordei cedo, como se fosse segunda feira. Na dúvida, confirmei no "Lumia"  - é domingo!
Já agora, pensei, vou saber das notícias do país:
- Morreu  Eusébio!
Se havia vontade de voltar ao sono, esqueci. Desliguei a luz, aconcheguei-me nos lençóis, e por aí fiquei, às voltas  com as minhas memórias de mufana, em Lourenço Marques, residente no bairro da Malhangalene.
Mufana sim, pontapés na bola, à fugida, junto à Praça de Touros; mais toques na bola no  campo do 1º de Maio, perto de casa, que equipava de vermelho.
Um dia descobri o melhor modo de ir para o outro lado da cidade, onde o Sport Lourenço Marques e Benfica tinha o seu campo relvado, com pista de ciclismo à volta.!
Fui, deram-me umas botas com travessas,  calções quase brancos e uma camisola de um vermelho desbotado. A camisola, mesmo assim, tinha o símbolo da águia...
No fim do treino, pediram-me para voltar no  seguinte.
Aspirantes  à equipa de júniores, mais de sessenta!
Ao segundo dia de testes e experiências: ("jogas em  que lugar"?; "vais mas é  ali para trás, para defesa"; " em cima dele, vai lá, não passa, não passa"; "ó puto, cobre em cima, encosta-o à linha..." ) fui um dos escolhidos para  ser inscrito no clube.
Por engano, deixei de ser Ramos, e passei a ter "Santos" no nome! Coisas, miudezas, enfim - o que eu queria mesmo era jogar a  sério com a camisola do meu Benfica!
Nesse tempo já o Eusébio tinha fama.
Lembro-me de  ter assistido aos jogos da equipa brasileira Ferroviária de Araraquara  com a  seleção de Moçambique, seleção dos Naturais de Moçambique e Sporting de Lourenço Marques. O Eusébio jogou em todas as formações..
No primeiro jogo, um jogador brasileiro surpreendeu com uma finta "nunca vista": corria com a bola, quando o adversário se aproximava, fazia com que esta lhe passasse por cima!
No jogo seguinte, dias depois, o Eusébio brindou o público com jogadas semelhantes, fintas doidas, tiros fora da área...
Nesse tempo, às vezes, a equipa de juniores do meu Benfica, à noite,  ia treinar com a equipa do Sporting, no seu campo. 
...O mais certo foi o  Eusébio ter feito de mim "gato sapato" quando, como defesa direito, procurava suster as suas cavalgadas com o brio que se exigia a um atleta do Benfica!...
As minhas memórias, agora, estão tão vivas e presentes, como se tudo tivesse acontecido ontem.
"Tenho" quinze, dezasseis anos...

Esta manhã, sou um dos muitos portugueses pelo nascimento,  moçambicano pelo amor à  Pátria de adoção, que deixou correr as lágrimas ao saber que...
- O Eusébio morreu!
Bayete, irmão!