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quarta-feira, 12 de março de 2025

Malhangalene e Barril de Alva juntos na mesma "Marcha"




Com a devida vénia, respigo do “ponto de encontro” do site BigSlam.pt excertos de  um excelente trabalho histórico produzido pelo jornalista moçambicano João de Sousa,  já falecido,  publicada em outubro de 2020, a começar pela assunção das mudanças no “nosso” Bairro:

 - “Verdade seja dita que a Malhangalene do meu tempo não é a Malhangalene de hoje. Nem podia ser. O tempo passa. As coisas mudam… “.

 No  texto, o jornalista  relata factos históricos de reconhecido interesse, e refere outros perdidos no tempo, de curta duração,  como a participação do Bairro num concurso de marchas populares, realizado pelo Rádio Clube de Moçambique no ano de 1945. Para a posteridade ficou a Marcha da Malhangalene, com letra de Ana Paula, musicada por Ramos Pinto.

 Como adiante se verá, A MARCHA DA MALHANGALENE “tem o seu quê de bairrista” :

“Malhangalene bonita / De graça humilde e modesta / Com o teu vestido de chita / Também hás de entrar na festa…” 

 Refrão

 “Esta marcha vai /Na rua a passar/ Na Malhangalene / Toda a gente sai /P’ra a ouvir cantar…/Vamos rapariga /Que a tua cantiga / É que vai ganhar! / Toda a gente canta / E a todos encanta  / Porque é popular

Tanto na rua de baixo / Como na rua de cima / Toda a gente se conhece / Toda gente se estima / E se alguém te quiser mal / Não tens nada que temer / Tens cá a Rua da Guarda / Que te há-de defender”

 “Se querem saber quem és / Podes dizer com vaidade / És o bairro mais bairrista / Que existe cá na cidade”.

 Por estranho (?) que possa parecer, em Portugal existe uma outra “marcha” semelhante – refiro-me à Marcha do Barril de Alva, aldeia onde nasci, no concelho de Arganil.

Como consta de um documento oficial, (…) esta aldeia ignorada já entrava no cadastro da população de 1527 com a sua dezena de habitantes (…)! – Dr Alberto Martins de Carvalho.  

- Bem velhinhas, as raízes do meu sítio…

Sou suspeito, de facto, quando afirmo que a minha terra é linda de ver; bonita e airosa espraia-se por encostas suaves até à margem direita do rio Alva – dos pontos mais elevados, as vistas para a Serra do Açor são soberbas!

Para que conste: MARCHA DO BARRIL DE ALVA:

 Refrão

“Esta marcha vai / Na rua a passar / No Barri de Alva / Toda a gente sai / Para a ouvir cantar / Cantai raparigas / Que as vossas cantigas / É que vão ganhar / Toda a gente canta / A todos espanta / Porque é popular”

“Tanto no Casal do Baixo / Como no Casal de Cima / Toda a gente se quer bem
E toda a gente se estima / Se alguém te quiser mal / Não tens nada que temer /Pois lá tens o regedor / Que te ha de defender”. 

Como se explica esta “estranha coincidência”? No documento que existe nos arquivos da Casa/Museu do Barril de Alva, está escrito que o famoso cantor João Maria Tudela é o autor da “Marcha”, letra e música, “… oferecida ao saudoso António Silvestre, vindo de Lourenço Marques (atual Maputo)”!

Quem foi António Silvestre? Nascido no Barril de Alva, ”emigrou” para Moçambiqe, onde fundou  a Cervejaria Coimbra, sem sombra de dúvidas, uma das melhores casas do género de Lourenço Marques!  

 …Quero acreditar que os direitos autorais da “Marcha” são devidos a Ana Paula e a Ramos Pinto, e acredito que João Maria Tudela tenha sido cliente da Cervejaria Coimbra e amigo privilegiado do meu conterrâneo António Silvestre.

Como acontece com os grandes “hits” musicais, a marcha do “nosso” Bairro, depois do sucesso obtido em Lourenço Marques, com ligeiras adaptações, alcançou êxito nesta pequena aldeia da Beira Serra,  “plantada à beira do rio Alva”.

Por cá, agora, pouco se ouve  “A Marcha do Barril de Alva” – quem (ainda) canta a preceito é uma jovem do meu tempo – a Fernanda Castanheira!

O tempo passa. As coisas mudam – tinha razão o meu antigo vizinho João de Sousa.

1946 - Marcha da Malhangalene nas festas de Lourenço Marques
 https://delagoabayworld.wordpress.com/2013/10/16/a-marcha-da-malhangalene-em-lourenco-marques-1946/
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Foto da Cervejaria Coimbra: https://housesofmaputo.blogspot.com/2015/08/estamines-antigos-com-reclames-10.html



sexta-feira, 7 de março de 2025

"Olá sobrinhos"



Depois da descolonização, a maioria dos "retornados" manteve-se na região de Lisboa na tentativa de recomeçar uma nova vida.
Alguns profissionais da Comunicação Social de Angola e Moçambique "bateram" à porta dos jornais da época, outros deram vida a novos títulos: "O Retornado", "Notícia", "Tribuna", "Telex", etc - recordo estes por ter participado na "aventura" dos quatro”, além de outras “aventuras” anteriores, como militar e elemento da Ação Psicológica: “A Gazela” (Inhambane), “A Voz do 20” e “Kuambone” (Vila Cabral, Niassa).
Em 1974 residia na cidade de João Belo, Distrito de Gaza, Moçambique, era Gerente Comercial e correspondente regional do jornal “Diário”, de Lourenço Marques.
Regressei a Portugal em 1975, com mulher e filhos, sem fortuna nem emprego - as circunstâncias fizeram de um sujeito que escrevia com algum saber e jeito”... jornalista profissional!

- A “sorte protege os audazes”… quando mestres como Roby Amorim, João Carreira Bom, José Mensurado, Arthur Ligne e outros nos ensinam os segredos de uma apaioxonante profissão, exercida durante mais de vinte anos!
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Na “Tribuna” fui chefe da redação e coordenador de várias secções, uma delas dirigida aos mais novos, intitulada "OLÁ SOBRINHOS", que me deu prazer redobrado por ser pai de três maravilhosas crianças - não é de admirar, pois, que tenha publicado na edição da “Tribuna” de 29 de setembro de 1976 um arranjo fotográfico dos meus filhos, que eram - e continuam a ser, agora em número de cinco! – todo o meu enlevo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

A Casa Vilaça



Um amigo, a propósito do repiso de algumas memórias e das estórias que construo a partir das ditas, afiançou que “sofro de uma doença sem cura” - respondi com um sorriso seguido de palavras que tinha na ponta da língua:

 - Ah, mas é uma “doença boa” e tem cura…

... basta o placebo de qualquer coisa - pessoas e lugares, os Night Stars e os Corsários,  o Zambi e os Velhos Colonos, os colégios Marques Agostinho e Camões, calças à boca de sino e minissaias, paisagens de céu e mar, flores e florestas, borboletas e elefantes, marimbeiros de Zavala e pescadores de Homoine, o   John Orr's, a Casa Vilaça e outras “vidas” passadas, e curo a nostalgia dos tempos em que, naturalmente, sendo jovem, sonhava com  a Pedra Filosofal , “…coisa muito desejada mas impossível de atingir”.

Cito de passagem, mas sem ser por acaso, a Casa Vilaça, em Lourenço Marques, pela importância da descoberta de um mundo novo, do qual faziam parte cristais Lalique, Daum, Baccarat, porcelanas Vista Alegre, Limoges, Sévre e Capodimonte, as miniaturas Dinky Toys,   Matchbox … e outras marcas internacionais de renome  que “tratei por tu”, mas com delicadeza no trato quando decorava os escaparates do estabelecimento ao melhor estilo do que se via na Europa, segundo os valiosos  ensinamentos do “tutor” Vilaça.

…Na ausência de algumas valências físicas, para que a (minha) memória não se apague, conto estórias - é um santo remédio para curar a minha doença que, segundo um dos meus amigos, não tem cura – mas tem, como se “vê”!

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 Imagens do site THE  DELAGOA  BY WORLD, surripiadas com a devida vénia - https://delagoabayworld.wordpress.com/2012/05/01/ver-as-montras-em-lourenco-marques-e-a-casa-vilaca-anos-1960/


quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

“A Bola” de Carlos Pinhão e Nuno Ferrari - e de outros mestres – faz anos!

 


A Bola foi o “meu jornal” de eleição durante os anos sessenta e o jornalista Carlos Pinhão  espécie de “guru” na arte de “escrever direito por linhas tortas” (refiro-me aos tempos da censura …).

-A Bola  foi e continua a ser o “meu jornal”!

Junto a excelência dos textos de Carlos Pinhão ao génio do fotógrafo Nuno Ferrari e, com facilidade, regresso aos anos sessenta, em Lourenço Marques, com memórias importantes da minha adolescência - sempre com a presença da ”Bola” e do “meu Benfica” que, na época dourada daquele tempo, “enfeitiçou” milhões de portugueses graças aos xicuembos do Costa Pereira, do Coluna, do Eusébio, moçambicanos de gema.

Carlos Pinhão “fez de mim” aprendiz da arte de que era mestre – durante trinta anos dei sentido ao prazer da escrita em diversas publicações…

A Bola com as suas reportagens, transformou  simpatia em “paixão” pelo Benfica - fui atleta júnior do Sport Lourenço Marques e Benfica…

É por isso que “Sou do Benfica /e isso me envaidece…”

 - E sou da “Bola” –“… um clube (jornal) lutador/que na luta com fervor/nunca encontrou rival/neste nosso Portugal…”.

Vida longa ao jornal A Bola.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Casa Pia /Benfica - "o jogo da dança"

 “Sem pernas” para correr mais, “sem cabeça” para discernir o melhor passe, inventar a “jogada perfeita”, os atletas, às tantas, ficaram atordoados pelo cansaço do corpo e da alma

Foto: Sport Lisboa e Benfica

Não vi o jogo entre o Casa Pia e o Benfica, mas ouvi o relato: o repórter e os analistas roçavam o anúncio da “desgraça”, como acabou por acontecer...
Os benfiquistas “mais suaves”, como eu, entristeceram com a derrota – a páginas tantas, durante o jogo, se calhar também fizeram como eu e mudaram de canal…
No fim do encontro espreitei “A Bola” - se estava “febril”, “adoeci de vez “.
Esta manhã li (quase) tudo sobre a “desgraça” e não dei conta (?) de alguém entendido na matéria recordar o “jogão” com o Barcelona – tanta luta pela vitória teve custos elevados… e os juros foram “pagos à cabeça”!
“Sem pernas” para correr mais, “sem cabeça” para discernir o melhor passe, inventar a “jogada perfeita”, os atletas, às tantas, ficaram atordoados pelo cansaço do corpo e da alma. De quem é a culpa? Do Barcelona, pois claro…
Como li algures,“… uma vez começadas, as batalhas raramente seguem o guião que os estrategos traçaram para elas”. Foi o que aconteceu com o Bruno Lage.
Nem sempre as “batalhas de Aljubarrota” são vencidas pelos Tugas deste tempo.

sábado, 25 de janeiro de 2025

Eu, o “Bello”e os meninos da escola



Quando os meninos (quase) crescidos brincam, dizem e fazem coisas, muitas coisas.
… E falam alto - por vezes atiram “piropos” a quem passa para lá do gradeamento do recinto da escola…
…E riem muito, com o sonoro das falas a crescer nas gargantas.
As conversas misturadas com os risos são uma galhofa contagiosa.
Aparentemente, naquele dia, os meninos estavam “felizes”...
Um deles alertou o grupo:
- Olha um cão!
De imediato, outro menino (quase crescido), afinado na sonoridade da voz, acrescentou:
- ... velho como o dono!
O dono do cão concordou:
- Tens toda a razão, nunca disseste coisa mais acertada!
O menino (quase) crescido que alertou o grupo, questionou o dono do cão:
- Que idade tem o cão?
O dono descansou a trela do cão e, delicadamente, respondeu:
- Quase dezassete – mas eu tenho um bocadinho mais!…

Fez-se silêncio no grupo dos meninos da escola!

…Eu e o “Bello”, o cão, continuámos o nosso passeio aconchegados pelo silêncio que “soprava” do banco corrido onde os meninos (quase) crescidos sentavam os fundilhos das calças.



quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Com o patrocínio da Filarmónica Barrilense e Café Nobre

 


 - Visitar o ZOO

A imagem está relacionada com uma visita ao Jardim Zoológico de Lisboa de algumas das nossas crianças e familiares, com o patrocínio da Filarmónica Barrilense e Café Nobre.

Obviamente, tratou-se de uma viagem de “sonho” para quem foi conhecer “ao vivo” animais que não fazem parte da fauna europeia…

Antes do regresso, piquenicámos num frondoso bosque em ambiente familiar.

Para que o texto receba “alguma luz” de memórias mais frescas (a minha “deixou de ser o que era” e o Zé Manel Nobre, amigo e parceiro de "outras vidas", infelizmente já não está entre nós para, entre dois dedos de conversa, recordarmos os tempos do Colégio Alves Mendes, os jogos do Benfica, as questiúnculas políticas partidárias, e esta viagem solidária..),  recorro  aos meninos daquele tempo  que identifico com facilidade: Zé Pedro e Augusto.

- Em que mês e ano foi o passeio?   E os outros companheiros de viagem, lembram-se dos seus nomes?

*

Aproveito a boleia para outro desafio “histórico”: quem tem memória da equipa de atletismo da nossa Filarmónica? O treinador, que vinha de Coimbra, se bem me recordo, falava de “futuros campeões…”, como o Nuno  (…).

 

 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Coja ao "sol de Inverno"

 

O primeiro dia de 2025, no Parque Verde do Prado, foi ponto de encontro de excelência: os “crescidos”, vindos de fora, faziam conversas de roda, sorridentes; os mais “pequenos”, “donos do lugar”, transformaram o sítio num modelo de ginásio:

- corridinhas e “cavalinhos” com as bicicletas, toques na bola, "voos acrobáticos" nos baloiços, "queda livre" nos escorregas, e um deles, naturalmente vaidoso com a sua “viatura”, fez-se passear num  mini veículo motorizado, com escape e tudo!...

Como recebi um convite da Rita e do Tiago para um pequeno passeio ao “sol de inverno”, muito bem acompanhados pelo Davi com a sua bicicleta, e pelo Lucas, “dez reis de gente”, no “seu BMW” com suspensão e tudo! - disse a Rita -, não me fiz rogado e aproveitei o ocasião para receber  “saborosos miminhos”...

Tenho especial apreço pelo Parque do Prado - vénia aos “teimosos” responsáveis autárquicos pela perseverança em dotar Coja de um magnifico espaço multiusos (quase) único no concelho.

A Princesa do Alva merece  esta  “sala de visitas”!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

A visita do "menino Jesus"

 


Era o começo da noite quando abri a porta que dá para o jardim da casa.

Ao contrário do que é costume, algumas pessoas desciam a rua, conversavam entre si em “estrangeiro”, e um menino, muito menino, aproximou-se da minha caixa do correio – de tão pequeno, mal chegou à portinhola.

Disse “olá” em português bem timbrado, respondi com outro “olá” e perguntei se queria deixar algum “convite para uma festa”. O menino, enquanto levantava a aba da portinhola, pronunciou duas ou três palavras.

Eu: - é um convite para o Natal?

O menino: - mais ou menos.

Eu: - “vais ser “o “pai natal”?

O menino: - não.

Eu: -…então “és” o menino Jesus”?

O menino: - sim!

O “menino Jesus” apressou o passo e foi ao encontro dos adultos e outras crianças; voltei a casa, fui ao chaveiro, apanhei a chave e abri a caixa do correio.

...O bilhetinho do “menino Jesus” era um cumprimento gentil que me fez sorrir por “dentro e por fora”, virtuoso quanto baste para me encantar...

Dificilmente, neste Natal, receberei outra prenda mais “bonita” … à exceção do Lucas que, mais dia, menos dia “sai do quentinho” para alegrar a família. Depois… será o melhor amigo do Davi, o irmão!