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| "Gemini" |
"Quero acreditar que somos capazes de nos reinventar ao longo da vida. Contudo, reconheço que a dificuldade em praticar o bem de forma constante nasce, muitas vezes, de uma falha na resiliência: a incapacidade de esquecer o que nos adoece. Ao mantermos vivas memórias dolorosas, acabamos por nos inibir.
Dos tempos de colégio, guardava uma
vaga memória de Nietzsche sobre a felicidade. Ao revisitar A Genealogia da Moral,
reencontrei a premissa: '...nenhuma
felicidade, nenhuma serenidade, nenhuma esperança, nenhum gozo presente
poderiam existir sem a faculdade do esquecimento'.
Hoje, entre incursões ao passado — da adolescência à maturidade de um homem feito de amores, causas e conhecimentos — percebo que o desapego nem sempre é absoluto. As situações menos gratas não se apagam; antes, lançam pontes que ligam as margens do presente e do passado sobre um rio agitado de memórias. Concordo com Nietzsche: sem a arte de esquecer, o presente perde o seu brilho.

