sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Desapego

"Gemini"

 "Quero acreditar que somos capazes de nos reinventar ao longo da vida. Contudo, reconheço que a dificuldade em praticar o bem de forma constante nasce, muitas vezes, de uma falha na resiliência: a incapacidade de esquecer o que nos adoece. Ao mantermos vivas memórias dolorosas, acabamos por nos inibir.

Dos tempos de colégio, guardava uma vaga memória de Nietzsche sobre a felicidade. Ao revisitar A Genealogia da Moral, reencontrei a premissa: '...nenhuma felicidade, nenhuma serenidade, nenhuma esperança, nenhum gozo presente poderiam existir sem a faculdade do esquecimento'.

Hoje, entre incursões ao passado — da adolescência à maturidade de um homem feito de amores, causas e conhecimentos — percebo que o desapego nem sempre é absoluto. As situações menos gratas não se apagam; antes, lançam pontes que ligam as margens do presente e do passado sobre um rio agitado de memórias. Concordo com Nietzsche: sem a arte de esquecer, o presente perde o seu brilho.

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O sonho de Durban




 Foi em Durban, na África do Sul, que me deixei fascinar pelo conceito de café-concerto: um palco pequeno, alguns instrumentos à disposição e uma atmosfera de liberdade. Naquela noite, vi um homem sentar-se ao piano e deixar fluir um som que beirava o Jazz. Logo depois, um rapaz saltou de uma mesa, assumiu a bateria e, após trocarem breves palavras, acertaram o passo.

O meu grupo levava apenas a intenção de "tomar um copo", mas o momento musical prendeu-nos. Mais dois voluntários subiram ao palco e dedilharam as violas a preceito. Entre aplausos e boa disposição, a cerveja circulava pelas mesas de um espaço que, embora razoável, estava praticamente lotado.

Aquele bar tornou-se a semente de um sonho: criar um negócio de entretenimento para um público específico. Naquele tempo, aos meus 18 anos, Lourenço Marques não oferecia nada semelhante. Tínhamos músicos excelentes e grupos famosos, como os "Night Stars" ou "Os Corsários". Eu era fiel aos primeiros — pela amizade com o baterista Carlos Alberto "Canguru", pelo som que o Mário Ferreira "sacava" da guitarra elétrica e pela voz fantástica do Bob Woodcock, ao melhor estilo de Chubby Checker.

Fiz-me à vida como um self-made man: do teatro ao desporto, de vitrinista a funcionário público, passando pelo serviço militar na Ação Psicossocial. A Revolução dos Cravos empurrou-me para a Mãe Pátria. Entre voltas e reviravoltas — e a necessidade de sobreviver — o gosto pela escrita tornou-me um jornalista a tempo inteiro, e a vida acabou por me devolver à música como organizador de espetáculos.

Mas o sonho de Durban permanecia vivo. Em 1999, ganhou corpo e nome; dele fiz morada, rumo e promessa. Nasceu o RiTuAL Bar, em Oliveira do Hospital.

“A vida, porém, nunca pede licença. Em 2008, mudou o curso do rio. O brilho recolheu-se, como o sol que se esconde atrás de nuvens densas, e a existência ficou suspensa num intervalo sem nome”